A Besta que “era, não é, mas voltará a ser”
PERGUNTA:
O império Romano foi o Império que, durante sua gestão, matou o Filho de Deus, destruiu o Templo sagrado e promoveu a diáspora dos Judeus. O Império Romano perseguiu e matou os apóstolos, tendo assim um papel relevante na história. Neste vídeo, porém, você disse que o Império romano não é representado por nenhum metal da principal profecia dos reinos descritos pelo profeta Daniel?
RESPOSTA:
Curioso, né? Talvez seja por essas e por outras que a gente se sente numa espécie de necessidade de inserir o império romano no sonho da estátua. Porém, acho que o mais correto seria tentar não inserir nossas ideias no texto, mas tentar extrair as ideias que o texto inspirado realmente contém, concorda? Por exemplo, você disse que “foi o império romano que matou o filho de Deus”, e eu entendo o porquê você pensa assim, mas, por outro lado, se o registro bíblico tem alguma relevância, seria importante dar a ele a preeminência da narrativa. Embora possamos atribuir ao império romano algumas das coisas que você falou, o texto bíblico parece atribuir parte dos acontecimentos que você mencionou a outro povo, não ao romano. Observe abaixo.
¹⁴ Tanto é assim, irmãos, que vos tornastes imitadores das igrejas de Deus existentes na Judeia em Cristo Jesus; porque também padecestes, da parte dos vossos patrícios, as mesmas coisas que eles, por sua vez, sofreram dos JUDEUS, ¹⁵ OS QUAIS não somente MATARAM o Senhor JESUS e os profetas, como também NOS PERSEGUIRAM, e não agradam a Deus, e são adversários de todos os homens, ¹⁶ a ponto de nos impedirem de falar aos gentios para que estes sejam salvos, a fim de irem enchendo sempre a medida de seus pecados. A ira, porém, sobreveio contra eles, definitivamente.
I Tessalonicenses 2.14-16
No ponto de vista de Paulo, quem matou Jesus foram os próprios judeus, ainda que possam ter se aproveitado do sistema de leis do império romano. Eles também perseguiram os apóstolos e os impediram de pregar o Evangelho para os pecadores, sendo por isso também responsáveis pelo endurecimento parcial que veio como castigo divino à sua nação.
Romanos 11.25
Veio endurecimento parcial a Israel, até que tenha chegado a plenitude dos gentios.
Você também disse que “foi o império romano que destruiu o templo sagrado dos judeus”, porém, segundo os registros históricos que temos, tanto de Flávio Josefo, quanto de Públio Cornélio Tácito, não foram os romanos “que destruíram a cidade e o templo judeu”, como você sugeriu, mas os “árabes” que faziam parte das legiões de soldados provincianos estacionadas no Oriente Médio, ao redor de Israel. Eles estavam sob o comando de Tito, como soldados provincianos contratados, mas não deveria fazer o que sentissem vontade, eles tinham por obrigação seguir as ordens de Roma e de seus representantes. Porém, no caso da destruição de Jerusalém e do Templo judeu, não foi o que aconteceu.
Alguns gostam de citar o historiador Flávio Josefo para confirmar seus argumentos quanto à destruição do templo por parte dos romanos. No entanto, é o próprio Flávio Josefo quem nos diz exatamente o contrário. Iossef ben Matitahu ha-Cohen, mais conhecido em português por “Flávio Josefo”, nasceu no ano 37 d.C. e faleceu por volta do ano 100. Nascido em Jerusalém, e de família sacerdotal, foi criado na melhor tradição judaica, recebendo boa educação para os padrões da época. Segundo sua autobiografia, seu conhecimento era minucioso quanto aos ensinamentos dos textos tradicionais da Torá; sendo que mais tarde, Josefo procurou por iniciativa própria, os ensinamentos dos saduceus, fariseus e essênios. Ainda jovem, chegou a ser um dos líderes do reduzido exército que se rebelou contra os invasores romanos e depois da derrota entregou-se aos romanos, caindo nas graças de Vespasiano – comandante das legiões romanas – ao profetizar que este se tornaria imperador. Como sua profecia se confirmou, ele tornou-se protegido do imperador romano, recebeu o título de cidadão e foi nomeado Flávio, o nome da dinastia dominante na época. Passou a residir em Roma e escreveu algumas obras históricas, entre elas “A Guerra dos Judeus”, onde relata os pormenores do conflito que resultou na destruição da cidade de Jerusalém e do templo. Tendo sido testemunha ocular de todo o processo de invasão e destruição, dedicou o término dos seus dias à história da catástrofe nacional: A destruição do Segundo Templo e o despovoamento da Judéia. Enquanto alguns supõem que os romanos teriam sido os responsáveis pela destruição da cidade e do templo, Flávio Josefo registra algo bem diferente em seu livro “A Guerra dos Judeus”. No tomo de número seis, encontramos as seguintes declarações:
Parágrafo 258: “Quando os soldados estavam próximos do Templo, agiam como SE NEM SEQUER OUVISSEM AS ORDENS DE CÉSAR e animavam os que iam adiante a jogar o fogo no interior”.
Parágrafo 260: “CÉSAR, COMO FOI INCAPAZ DE CONTER O ÍMPETO DE SEUS SOLDADOS, que estavam cheios de entusiasmo, e o fogo que ia se estendendo, se dirigiu com seus oficiais ao interior…”
Parágrafo 261: “Como as chamas não tivessem ainda alcançado o interior, mas assolavam as acomodações que rodeavam O SANTUÁRIO, TITO pensou, o que realmente era verdade, que ainda podia SALVAR-SE ESTA OBRA, e saiu fora.
Parágrafo 262: “ELE MESMO TENTOU CONVENCER OS SOLDADOS PARA QUE APAGASSEM O FOGO e ORDENOU a Liberálio, centurião de seus lanceiros, OBRIGAR A GOLPES OS QUE DESOBEDECIAM”.
Parágrafo 263: “NO ENTANTO, SEU FUROR, SEU ÓDIO CONTRA OS JUDEUS e um feroz ímpeto guerreiro ESTIVERAM ACIMA DO RESPEITO A CÉSAR e do medo à pessoa que os castigava”. Parágrafo 265: “Um dos que tinha entrado no interior, quando CÉSAR SAIU PARA CONTER AOS SOLDADOS, se apressou a deixar na escuridão a tocha ardendo nos umbrais da porta”.
Parágrafo 266: “Então a chama brilhou imediatamente no interior. Os generais se retiraram junto com Tito, e NADA IMPEDIU OS SOLDADOS de fora continuarem com o fogo. Desta forma, CONTRA A VONTADE DE CÉSAR, O TEMPLO FOI INCENDIADO”.
Roma, na pessoa do imperador Tito Flávio Vespasiano Augusto, não planejou, não incentivou e não concordou com a destruição do Templo! Os soldados das legiões convocadas, tomados por um ódio natural que lhes era comum, contra os judeus, assolaram e destruíram a cidade e o Templo. Neste momento alguém poderia se perguntar: Mas por quê soldados de Roma teriam tanto ódio assim dos judeus? A questão é exatamente essa: Os soldados não eram romanos! O fato é que do ano 15 em diante o Império Romano restringiu os soldados italianos à chamada “guarda pretoriana”, uma guarda especial e de confiança, responsável por guardar o imperador e as tendas dos generais. Todos os outros soldados arregimentados durante esse período eram de províncias locais sob o domínio do império.
As legiões que foram convocadas por Tito para o cerco a Jerusalém foram as seguintes:
- V Macedônia (Judéia);
- X legião fretensis – décima legião do estreito marítimo (Síria);
- XV Apollinaris (Síria);
- XVIII (Egito);
- III Gálica (Síria);
- XII Fulminata (Ásia Menor, Síria).
A maioria esmagadora dos soldados que destruíram a cidade de Jerusalém e o Templo, eram descendentes de Ismael que faziam parte das nações ao redor de Israel. Eram basicamente Árabes, Sírios e Egípcios.
Outro historiador famoso, chamado Públio Cornélio Tácito, falando também sobre o mesmo ataque romano à Jerusalém, nos dá informações importantes sobre as legiões que participaram do acontecimento: “Tito César… encontrou na Judéia três legiões: a 5ª, a 10ª, e a 15ª… a estas ele acrescentou a 12ª da Síria, e alguns homens que pertenciam às legiões 18ª e 3ª, que ele havia retirado da Alexandria. Esta força estava acompanhada por um poderoso contingente de Árabes, que odiavam os Judeus com o ódio comum de vizinhos”
Tácito diz que os árabes odiavam os judeus com “um ódio comum de vizinhos” porque não estava inteirado, com precisão, dos relatos bíblicos sobre a animosidade espiritual deste povo contra os judeus. Com os relatos de Josefo e Tácito, vemos que todas as legiões que atacaram e destruíram Jerusalém e o Templo eram do Oriente Médio. Todas elas consistiam majoritariamente de soldados das nações AO REDOR DE ISRAEL: Árabes, Sírios, Egípcios, etc. Por volta do ano 70 d.C. não apenas as legiões das províncias orientais, mas literalmente o exército romano inteiro chegou a ser composto pelos “soldados provincianos”.
Se você tiver meu Livro A Bíblia, o Islamismo e o Anticristo, eu falo em riqueza de detalhes sobre esse assunto, abre no capítulo 3, página 43 e dá uma olhadinha. Se você não tiver o livro ainda, pode comprar aqui. Você também pode dar uma olhadinha nesse texto absurdamente resumido. A conclusão a que se pode chegar é que, de fato, o império romano em alguns momentos atrapalhou a pregação do Evangelho, em outros momentos favoreceu, e, embora este aspecto da história seja importante e não deva ser desprezada, é sempre bom deixar o texto da Bíblia ter a primazia sobre qualquer assunto, inclusive quanto a mais correta interpretação sobre determinados acontecimentos históricos, como a morte de Cristo, por exemplo, onde as Escrituras afirmam que foram os judeus que o mataram.
Ainda sobre o império romano, embora ele não seja citado em qualquer lugar do livro de Daniel, aparentemente o capítulo dezessete de Apocalipse o inclui nas revelações que o anjo Gabriel passa para João. Observe:
⁹ Aqui está o sentido, que tem sabedoria: as sete cabeças são sete montes, nos quais a mulher está sentada. São também sete reis (reinos), ¹⁰ dos quais caíram cinco, UM EXISTE, e o outro ainda não chegou; e, quando chegar, tem de durar pouco. ¹¹ E a besta, que era e não é, também é ela, o oitavo reino, e procede dos sete, e caminha para a destruição.
Apocalipse 17.9-11
O texto acima é uma das explicações sobre o animal que João viu, que, como sabemos, representa o último império humano que se levantará contra o povo de Israel. Tudo indica que será um aglomerado de reinos, numa espécie de confederação de nações unidas num só propósito.
Apocalipse 13.2
A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade.
Usando os animais como representação de nações e reinos humanos, o texto de Apocalipse 13 diz que esta fera “tem aparência de leopardo, boca de leão e pés de urso”. O que quer dizer que, embora o texto anterior mencione que a composição ou extensão desta coalizão de nações inclua sete reinos, pelo menos três destes reinos, representados pelos bichos especificamente mencionados, provavelmente terão algum papel de destaque em sua atuação. A aparência predominante, que designará a sede do império e sua identidade, é do leopardo. A boca, que emite sons e mastiga a presa, vem do leão, e os pés para o avanço procedem do urso.
Outra coisa interessante que o anjo comunicou ao apóstolo João foi que esse bicho tem sete cabeças, que representam sete montes, ou seja, sete reinos. O anjo também disse que dos sete reinos, cinco já tinham caído antes da época de João, um existia naquele exato momento, que se tratava do o império romano, obviamente, mas, acrescentou o anjo que outros reinos ainda estavam por vir. Resumindo, temos a descrição de oito reinos, designados da seguinte forma:
- Dos sete reinos, cinco já tinham caído antes de João haver nascido;
- O sexto reino existia na mesma época de João, ou seja, o império romano;
- O sétimo, que viria depois do império romano, duraria pouco;
- E o último e oitavo reino, que viria dos mesmos sete que já haviam sido citados. Este último reino não seria um novo reino não mencionado, mas a repetição de um dos reinos antigos já citados na profecia. Ou seja, ao todo, seriam sete reinos, mas, um deles, voltaria a ser a sede deste último império maligno que agirá sobre a terra no tempo do fim.
Para que possamos ter uma ideia de qual dos reinos a profecia estava falando, devemos considerar outro texto de Apocalipse que também fala sobre aspectos deste bicho que representa este futuro último império anticristão que agirá sobre a terra.Apocalipse 17.8
A besta que viste, era e não é, está para emergir do abismo e caminha para a destruição. E aqueles que habitam sobre a terra, cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo, se admirarão, vendo a besta que era e não é, mas aparecerá.
Observe que segundo o anjo, ao entregar a mensagem a João, ele disse que o bicho “Era, não é, mas será”. Isso quer dizer que a famosa “besta do Apocalipse” é descrita na profecia como inexistente na época de João. Embora ela já “tivesse sido” em outro momento anterior, “não estava sendo” no tempo de vida de João. Porém, em algum momento futuro, “ela voltaria a ser”. Nos termos da profecia, aquele animal “já tinha existido em algum momento passado da história, não estava presente no mundo na mesma época de João, mas um dia no futuro voltaria à existência novamente”. Em outras palavras, de todos os impérios representados pelas sete cabeças daquele animal, o único império que não poderia vir a ser o “futuro reino do anticristo”, seria exatamente o império romano! A lógica do texto profético nos leva a concluir que a sede deste último império anticristão voltará a ser a mesma de um dos cinco que já haviam caído antes de João nascer.
Segundo o anjo, o animal, que representa o último império humano que haverá sobre a terra antes do reino milenar do Senhor Jesus, é apresentado como aquele “havia existido antes, não existia na época de João, mas que um dia voltará a existência mais uma vez”.
A SEDE DO IMPÉRIO
Como o tema de Apocalipse parece estar tratando sobre o derradeiro juízo de Deus que cairá sobre os pecadores da terra, dos quais os judeus são os principais, isso nos faz pensar que cada cabeça deste animal deve representar um reino que exerceu algum domínio sobre os judeus, Israel ou Jerusalém. Entre os candidatos mais famosos até a época de João, poderíamos enumerar os seguintes impérios: egípcio, assírio, babilônico, medo-persa, grego e romano. Como o último império anticristão é representado pelo bicho que havia existido antes de João, era inexistente em seu tempo, e só voltaria à vida num tempo futuro, o único reino que não cumpre os prerrequisitos proféticos para ser a futura sede do reino do Anticristo, é o império romano.
A futura sede do império do Anticristo deverá estar em uma das cidades que foi sede de um dos cinco antigos impérios que já haviam caído. Se eu tivesse que opinar a respeito, eu diria que esta sede provavelmente estará no mesmo lugar onde esteve a sede da divisão norte do estado final do império grego. Quando Alexandre Magno morreu, seus generais entraram em disputa pelo domínio das terras do império, sobrando no fim apenas dois: Seleuco e Ptolomeu. De Ptolomeu, surgiu a dinastia ptolomaica sediada ao Sul de Israel, no norte da África. A partir de Seleuco, formou-se a dinastia selêucida, sediada ao Norte de Israel, na cidade de Antioquia, de onde posteriormente haveria de sair Antíoco IV Epifânio, um dos governantes mais unanimemente aceitos como a mais perfeita representação profética do Anticristo.
Tudo parece apontar para o mesmo lugar de sempre: a mesma região ao Norte de Israel, nas velhas terras do antigo Império Assírio, que também fora o mesmo lugar da sede do antigo “Reino do Norte” do fragmentado império grego. É possível que, exatamente por isso, o animal mencionado em Apocalipse 13, tenha a aparência do leopardo, que em determinado momento do livro de Daniel, parece representar o império grego.
Na minha compreensão, a ideia profética do bicho que tem sete cabeças deveria ser entendida da seguinte forma: Cada cabeça simboliza a sede de um dos impérios representados. Todos os impérios representados ali já exerceram domínio sobre a mesma região que o animal, como um todo, representa, porém, cada um em seu próprio tempo. A identidade do bicho, ou seja, a “aparência da besta” seria determinada pela cabeça dominante da vez. Embora os limites de cada império tenham sido praticamente os mesmos, as sedes e os valores culturais de cada um deles, eram baseados em lugares diferentes e princípios diferentes. Ao longo dos anos o domínio sobre a mesma região foi exercido por um império ou por outro, cujas sedes ficavam em suas cidades principais, e, na visão de João, estas sedes são representadas por cada cabeça do animal. Penso que a identidade final do bicho, a aparência da besta, como diz o texto, será determinada por uma das cinco cabeças que havia sido ferida de morte, mas se recuperará. Isto é, uma das cinco que já havia caído na época, mas que se erguerá novamente no futuro.
Isso significa que quando o texto bíblico diz que o bicho tinha aparência de leopardo, é porque aquela cabeça especificamente havia assumido o controle de todo o animal, incluindo as outras seis cabeças restantes, que na ocasião estarão sob o controle e liderança da cabeça dominante, que por sua vez, empresta sua identidade e aparência a toda a besta.
Como se pode perceber, o império romano parece ser um dos poucos que não poderia ser candidato à ser representado pela “cabeça que houvera sido ferida no passado e que reviverá”. A nação-sede da identidade final desta besta terá que ser uma das cinco sedes dos impérios que já haviam caído antes de João nascer, pois, na época de João, a besta até já havia existido, mas não existia durante seus anos de vida, porém, segundo a profecia, no futuro, ela voltará a ser. A besta um dia foi alguma coisa, não era na época de João, mas, um dia, no futuro, ela voltará a ser.