Agostinho e a Invenção da Graca Preveniente
PERGUNTA
Arminianos também creem no conceito de predestinação determinista?
RESPOSTA
Não, Mateus, é diferente. Embora Armínio fosse calvinista da linha mais radical, ou seja, um supralapsariano, aluno de Beza, que por sua vez era substituto de Calvino, Armínio acabou amolecendo o coração e amenizando mais suas ideias rígidas quando foi incumbido de dar uma resposta aos críticos do calvinismo supralapsário.
O Sr. Dirck Volckertszoon Coornhert havia feito uma crítica ao calvinismo e solicitaram que Armínio o respondesse à altura, até mesmo para honrar o nome de seu mentor Teodoro Beza, que supostamente estaria sendo ofendido. Outros ministros calvinistas já haviam anteriormente respondido a Coornhert com uma perspectiva infralapsariana, mas Armínio foi instruído a defender a posição mais estrita, o supralapsarianismo também defendido por Beza. Nessa ocasião, ao estudar e preparar sua resposta, Armínio percebeu que o supralapsarianismo que ele defendia parecia ser insustentável. A partir daí ele tentou promover uma reforma no pensamento calvinista, mas isso não foi aceito. Num certo sentido ele foi excomungado e tratado como um proscrito, banido de sua própria comunidade calvinista.
Ele nunca quis de fato “acabar com o calvinismo”, ele queria apenas corrigir alguns pontos que lhe pareceram insustentáveis depois que se dedicou aos estudos com o objetivo de responder ao crítico do pensamento calvinista. Armínio, como um bom calvinista, seguia as bases teóricas deixadas pela teologia tardia de Agostinho, e por isso, muitos dos elementos pertencentes ao que hoje é chamado de “teologia arminiana” tem diversos pontos de intercessão com as bases da teologia calvinista.
Agostinho, por exemplo, havia popularizado o conceito de “graça preveniente”, ensinando com isso que o homem era tão corrompido e depravado que se Deus não tomasse a iniciativa de acordá-lo do seu sono letárgico, o homem nunca poderia “perceber os atributos invisíveis de Deus nas coisas criadas desde o princípio do mundo”, como defendia Paulo. O termo “graça pre-veniente”, vem do latim, a língua de Agostinho, e em português direto significaria algo mais ou menos como a “graça que vem antes”, ou seja, “esta graça deveria agir antes de qualquer iniciativa humana” para que, somente assim, o homem pudesse ser regenerado. Na concepção de Agostinho, esta graça era irresistível e era ela que arbitrariamente transformava o homem de pecador em salvo, ou seja, Deus decidiria quem sim e quem não.
Na amenização de Armínio (e posteriormente confirmada e reforçada por John Wesley), a “graça preveniente” não transformaria o homem pecador em justo, mas “restauraria parcialmente o livre-arbítrio” supostamente perdido pela raça humana quando Adão pecou. A partir daí, “com o livre-arbítrio parcialmente restaurado”, o homem poderia escolher “se quer receber a salvação ou não”. Observe que a nova abordagem de Armínio passou a demonstrar mais sensatez do que suas crenças iniciais quando seguia inquestionavelmente a Agostinho, porém, sua nova linha de pensamento não estava perfeitamente em harmonia com a teologia defendida pela igreja primitiva, pois a maioria esmagadora dos teólogos anteriores a Agostinho defendiam o livre-arbítrio como uma propriedade inerente ao gênero humano, e a suposição da “perda do livre-arbítrio”, como diziam os gnósticos, seria o mesmo que perder as próprias características que o faziam ser homem.
Por fim, Armínio não chegou a abandonar radicalmente a antiga teologia agostiniana, apenas tentou adaptá-la para um padrão mais equilibrado e possivelmente mais bíblico.
Em relação à predestinação, também não foi muito diferente. Em sua teologia tardia, Agostinho passou a defender que havia duas classes de crentes: “os salvos e os eleitos”, ou seja, o salvo é aquele indivíduo que é crente, regenerado, que tem o Espírito Santo, mas não está predestinado, pois, segundo ele fantasiava em sua cabeça, apenas “o crente eleito” é que é predestinado. Em outras palavras, “o predesetinado” é o único tipo de crente que nunca perderá sua salvação, pois “foi escolhido por Deus”, e “Deus não escolheria alguém que poderia se perder”. A linha predestinista do arminianismo segue mais ou menos esse raciocínio, ou seja, “Deus teria previsto quem iria acreditar e ficar firme até o fim”, e, com base nesta presciência, teria decidido escolher apenas estas pessoas individualmente. Neste sentido, a “predestinação para a salvação” defendida por alguns arminianos, não seria necessariamente arbitrária ou impositiva, mas, comparando-a grosseiramente, seria mais como alguém que investe em determinado ativo da bolsa de valores porque “ele tem informações privilegiadas que o fazem saber que tal ativo vai subir”. É interesante comentar também que a mesma ideia agostiniana da suposta diferença entre “o salvo e o eleito” ainda permanece em inúmeras comunidades arminianas até o dia de hoje.