Orígenes: a Queda do Homem, a Salvação e o Batismo
No último texto publicado sobre Orígenes e a Queda do homem, tratei sobre a maioria das passagens do seu comentário da epístola de Romanos onde ele usou a frase “ninguém está isento de impureza mesmo que sua vida seja de apenas um dia”. No entanto, como a conclusão ficou pendente, vou dar continuidade no presente artigo.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.9.11
Portanto, o nosso corpo é o corpo do pecado, pois não está escrito que Adão conheceu sua mulher Eva e se tornou pai de Caim até depois do pecado. Além disso, até mesmo na Lei é ordenado que se ofereçam sacrifícios pelo menino que nasceu: um par de rolas ou dois pombinhos; um dos quais era oferecido pelo pecado e o outro como holocausto. Por qual pecado é oferecida essa pomba? ACASO UMA CRIANÇA RECÉM-NASCIDA SERIA CAPAZ DE PECAR? E, no entanto, existe um pecado pelo qual se ordena que sejam oferecidos sacrifícios, e É POR ESTA RAZÃO que se nega que alguém esteja puro, mesmo que sua vida dure apenas um dia. Portanto, DEVE-SE CRER QUE FOI ACERCA DISSO que Davi também disse o que registramos um pouco acima: “em pecados minha mãe me concebeu”. Pois, segundo a narrativa histórica, nenhum pecado de sua mãe é declarado. É também POR ESTA RAZÃO que a Igreja recebeu dos apóstolos a tradição de dar o batismo até mesmo às criancinhas.
Calvinistas gostam de usar a frase de Orígenes que diz que “ninguém está isento de impureza mesmo que sua vida seja de apenas um dia”, para justificar as teorias pessimistas de Agostinho a respeito da humanidade, sobre as quais eles dependem. Contudo, temos visto que Orígenes tinha uma visão extremamente diferente daquilo que pensam os calvinistas que o citam. No texto acima, Orígenes está continuando suas explicações sobre o conceito de “corpo do pecado”, com base no qual, Orígenes defendia a presença de certa mancha, sujeira, impureza ou pecado, no próprio corpo humano em sua condição atual.
Observe que Orígenes chama a atenção para o fato de que, mesmo na Lei de Moisés, para o nascimento de cada menino seria preciso que se oferecesse sacrifícios pelo pecado. Então, com o objetivo de estabelecer seu argumento, logo em seguida, Orígenes faz duas perguntas retóricas, que são aquelas perguntas que são feitas não para se obter alguma informação, mas justamente para passá-la. A pergunta retórica é a pergunta que explica o óbvio. Uma vez que Orígenes mencionou que pelo nascimento da criança, um sacrifício pelo pecado deveria ser oferecido, então, ele pergunta: Por qual pecado seria oferecida aquela pomba? Além disso, por acaso uma criança recém-nascida seria capaz de pecar de alguma forma? Somente um tolo, ou alguém de mente muito pervertida, poderia supor que um bebê recém-nascido poderia “estar em pecado”. Orígenes apela ao bom senso das pessoas que têm um pingo de juízo. Seu objetivo é demonstrar que existe um mal presente no corpo humano, a despeito da inocência ou pureza do ser humano em questão. Seja Jesus, sejam os santos e justos do Antigo Testamento, seja uma criancinha, ninguém que viveu nesta terra como homem esteve isento deste contato com o pecado enquanto passou pelo mundo. Este era o sentido da frase que Orígenes costumava repetir: “ninguém está isento de impureza mesmo que sua vida seja de apenas um dia”.
Para alguém que coleciona frases soltas, desprezando-lhes os contextos que explicam o verdadeiro sentido das frases, seria muito fácil entender errado o que Orígenes realmente tinha em mente com aquilo que dizia. É exatamente por essas e por outras que não devemos confiar cegamente em citadores de frases para justificar suas teorias, é preciso conferir o contexto em que tais frases foram pronunciadas, pois o sentido originalmente pretendido pode ser o exato oposto daquilo que se diz, como é o caso do calvinista que fica citando Orígenes sem saber que Orígenes era radicalmente contra suas ideologias infundadas de predestinismo, Queda do Homem, Pecado Original, etc.
Logo após ter dito que seria impossível que uma criança recém-nascida estivesse em pecado, Orígenes acrescenta: “No entanto, existe um pecado pelo qual se ordena que sejam oferecidos sacrifícios”. Como já havia explicado anteriormente em seu próprio texto, como pode ser visto aqui, Orígenes se referia ao “corpo do pecado”, a única parte do ser humano cuja morte ainda é o último inimigo a ser vencido.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.9.11
E, no entanto, existe um pecado pelo qual se ordena que sejam oferecidos sacrifícios, e É POR ESTA RAZÃO que se nega que alguém esteja puro, mesmo que sua vida dure apenas um dia. Portanto, DEVE-SE CRER QUE FOI ACERCA DISSO que Davi também disse o que registramos um pouco acima: “em pecados minha mãe me concebeu”. Pois, segundo a narrativa histórica, nenhum pecado de sua mãe é declarado. É também POR ESTA RAZÃOque a Igreja recebeu dos apóstolos a tradição de dar o batismo até mesmo às criancinhas.
Orígenes estava relatando o processo de purificação que era praticado sob a Lei de Moisés após o nascimento de um menino. Obviamente que a criança não estava em pecado, mas ainda assim havia um pecado pelo qual se deveria fazer um sacrifício. Isto era um símbolo profético de anunciação de uma verdade que não poderia ser esquecida. Por esta razão, diz Orígenes, é que não se deve esquecer que ninguém está completamente puro, mesmo que sua vida dure apenas um dia. E, pela segunda vez, em sequência, Orígenes defende que deve-se acreditar que foi por isso que Davi disse o que disse a respeito do seu nascimento no Salmo 51. Ele havia feito a mesma defesa em 5.9.10 e agora a repete em 5.9.11. Para completar a concatenação de ideias correlacionadas, Orígenes acrescenta: “É também por esta razão que a igreja batiza até mesmo as criancinhas”. Em outras palavras, Orígenes não defendia o batismo infantil pelas razões que os predestinistas que o citam supõem.
O Batismo Infantil
Os defensores do batismo infantil costumam apontar para a história como o argumento decisivo em favor de sua posição de batizar bebês. No entanto, é possível verificar, pelos registros históricos disponíveis, que sua narrativa é defeituosa e cheia de lacunas inexplicáveis. A história oferece mais problemas do que apoio à posição pedobatista.
De fato, até por volta da metade do terceiro século não há qualquer evidência favorável ao batismo de bebês nos textos patrísticos. As primeiras evidências que mencionam o batismo infantil positivamente são encontradas em textos de Orígenes, como estamos analisando nesta série de estudos, e num texto de Cipriano de Cartago, também usado de forma equivocada, e abusado por calvinistas que o citam sem perceber que Cipriano estava argumentando contra o predestinismo que eles defendem. Falaremos sobre isso num próximo artigo a ser publicado. Em todo o caso, o consenso sugere que o batismo infantil começou a ser praticado em virtude de crianças no leito de morte. Até o quinto século não havia qualquer posição dogmática a respeito do assunto. A imposição batismal para bebês vai ser desenvolvida a partir do radicalismo doutrinário estabelecido pela teologia dos últimos anos de vida de Agostinho. Fique acompanhando esta série de estudos, pois futuramente será publicado mais material sobre batismo infantil.
Mesmo assim, alguns ainda gostam de citar um texto questionável e mal interpretado de Hipólito de Roma (170 d.C. – 236 d.C.) ou algum texto de Irineu (120 d.C. – 202 d.C.) supondo que ele defendia a necessidade de batizar recém-nascidos, o que é uma completa incoerência com os pensamentos de Irineu. Na verdade, Irineu fazia parte do grupo de crentes que acreditava que mesmo crianças não batizadas seriam salvas, sem a necessidade de qualquer intervenção. Sendo esta uma crença popular no Cristianismo do segundo século.
Irineu, Contra as Heresias, IV.28.3
Com efeito, como [os israelitas] foram salvos pela cegueira dos egípcios, assim nós o fomos pela dos judeus; e a morte do Senhor foi a condenação dos que o crucificaram e não creram na sua vinda e a salvação dos que creem na sua vinda. O Apóstolo diz na segunda carta aos Coríntios: “De fato, nós somos para Deus o bom odor de Cristo para os que se salvam e para os que se perdem; para uns, perfume de morte para a morte; para outros, perfume de vida para a vida”. Para quem é perfume de morte para a morte a não ser para os que não creem e não estão submetidos ao Verbo de Deus? E quem são os que entregaram a si mesmos à morte? Os que não creram e não se submeteram a Deus. Ao contrário, quem foram os que se salvaram e receberam a herança? Os que criam em Deus e perseveraram no seu amor, como Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Nun, E AS CRIANÇAS INOCENTES que sequer podiam pensar o mal. E quem são agora os que se salvam e recebem a vida? Não são os que amam a Deus, creem nas suas promessas e se tornaram crianças quanto à malícia?
A pergunta de Irineu que não precisaria de resposta é: Quem foram aqueles que se salvaram e receberam a herança na terra prometida? Mesmo assim ele responde: os que creram em Deus e perseveraram no seu amor, como Calebe e Josué, além das crianças inocentes que sequer teriam condição de desejar o mal. E hoje, na realidade da Nova Aliança, quem são os que se salvam e recebem a vida que Deus tem a oferecer? Resposta: Os que amam a Deus e creem nas suas promessas e se tornam como crianças quanto à malícia! Ora, se segundo Irineu, o salvo, no padrão da Nova Aliança, é aquele que se torna como criança, que não possui qualquer malícia, por que a própria criança que está sendo usando como referência de pureza, inocência e ausência de malícia, não seria salva?
I Coríntios 14.20
Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento.
Mateus 18.3
Jesus disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.
Embora pudéssemos citar diversas passagens na obra de Irineu onde ele menciona a ligação espiritual entre Deus e as crianças, acredito que apenas dois textos serão suficientes. No texto abaixo Irineu menciona o assassinato ordenado por Herodes, quando exigiu que todos os meninos com dois anos ou menos em Belém e seus arredores, fossem executados. Estas crianças foram assassinadas enquanto Herodes tentava eliminar Jesus. Irineu os chama de “mártires de Cristo”.
Irineu, Contra as Heresias, III.16.4
Era ainda por isso que [Cristo] tirava as crianças da casa de Davi que tiveram a sorte de nascer naquele momento, para enviá-las à frente dele ao seu reino; ele, criança, preparava para si crianças mártires, entre os filhos dos homens, porque foi justamente por Cristo, que nasceu em Belém de Judá, na cidade de Davi, que elas foram mortas, como dizem as Escrituras.
Segundo Irineu, estas crianças de até dois anos de idade, que foram assassinadas, foram enviadas direto para o Reino de Cristo, de onde o aguardaram chegar posteriormente em sua morte.
Como estávamos dizendo anteriormente, Orígenes não defendia o batismo infantil pelas razões que os predestinistas que o citam supõem. No último texto citado de Orígenes neste artigo, vimos que ele não defendia a ideia de que uma criança teria nascido em pecado, e que por isso, se morresse sem ser batizada iria para o inferno por não ter sido devidamente perdoada ou purificada pelo batismo. Nenhum bebê já nasce pecador ou culpado ou condenado pelo pecado do seu pai ou do seu avó. Porém, toda e qualquer pessoa que nasce neste mundo, inclusive os bebês, possui um corpo mortal no qual habita o pecado, que precisará ser contido e esmurrado ao longo da vida, e finalmente, precisará da final redenção prometida por Deus nas Sagradas Escrituras. Segundo Orígenes, era disso que se tratava o texto que dizia que “não há ninguém que esteja completamente puro, mesmo que sua vida dure apenas um dia” e também o texto de Davi que dizia “em pecados minha mãe me concebeu”. Além disso, seguindo o mesmo raciocínio, como vimos, Orígenes conclui dizendo que é por esta mesma razão que havia uma tradição no Cristianismo de até se batizar criancinhas. Lógico que pela sua forma de falar do batismo infantil, quando ele se refere a “batizar até mesmo criancinhas”, percebe-se que ele trata sobre algo extraordinário e surpreendente, mas que, para ele, poderia ser justificado com a explicação que ele oferece.
Ninguém é obrigado a concordar com a interpretação de Orígenes a respeito da presença do pecado no corpo humano na atual condição em que se encontra, antes da glorificação. Porém, se o calvinista não concorda com ele, não deveria citá-lo para sugerir que ele defendia o oposto do que ele realmente ensinava. Por outro lado, é preciso que se diga que calvinistas podem até fazer isso por pura e simples ignorância e não apenas por malícia e desonestidade intelectual.
Sabemos que a explicação de Orígenes para a possibilidade do batismo infantil envolvia questões de excepcionalidade, pois ao tratar sobre a regra áurea para o batismo, Orígenes também, como quase todos os outros anteriores a Agostinho, ensinava que o batismo deve ser recebido por pessoas capazes de escolher crer e que decidem mudar de vida. Observe o texto abaixo.
Orígenes, Homilia sobre o Evangelho de Lucas, 21.4
Ora, Jordão significa “que desce”. O rio de Deus “que desce”, porém, com o poder de uma grande correnteza, é nosso Salvador e Senhor, em quem somos batizados na água verdadeira, a água da salvação. É “para a remissão dos pecados” que João prega o batismo: vinde, catecúmenos, arrependei-vos, A FIM DE RECEBERDES o batismo “para a remissão dos pecados”. RECEBE O BATISMO “para a remissão dos pecados ”AQUELE QUE CESSA DE PECAR. Se alguém vem ao lavacro do batismo endurecido no pecado, para ele não se faz a remissão dos pecados. Por isso vos conjuro a que não vos aproximeis do batismo SEM PREOCUPAÇÃO NEM REFLEXÃO ATENTA, mas que mostreis PRIMEIRAMENTE “frutos dignos da conversão”! Durante algum tempo, tende uma boa conduta, guardai-vos puros de todas as impurezas e de todos os vícios: a remissão de vossos pecados vos será dada, quando vós mesmos tiverdes começado a desprezar vossos próprios pecados. “DEIXAI vossos pecados, E ELES VOS DEIXARÃO”.
Os textos de Orígenes que envolvem a possibilidade de batismo infantil devem ser analisados à luz de sua obra completa a respeito do assunto. Seria tolice pinçar uma citação sua, ainda mais em se tratando de uma citação polêmica e questionável, como a Homilia 8.3 do livro de Levítico, que parece ir na contramão do que ele mesmo dizia em todos os outros lugares que tratava do assunto. Em breve publicaremos outro artigo onde trataremos especificamente sobre a Homilia do livro de Levítico.
Encerrando a citação do quinto livro do seu comentário sobre a epístola de Paulo aos romanos, vejamos Orígenes se repetir a respeito das suas explicações sobre a presença do pecado no corpo.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.9.11
Pois aqueles a quem foram confiados os segredos dos mistérios divinos sabiam que em todos existe a mancha inata do pecado, a qual precisava ser lavada pela água e pelo Espírito. POR CAUSA DESSA MANCHA, também O PRÓPRIO CORPO é chamado CORPO DO PECADO; não por causa de pecados que a alma teria cometido quando estava em outro corpo, como imaginam aqueles que introduzem a doutrina da metensomatose (a transmigração das almas, ou reencarnação). Mas porque a alma foi formada no corpo do pecado, no corpo da morte e corpo de humilhação, e como ele disse: “Abaixaste a nossa alma até o pó”. Por ora, são estas as coisas que puderam nos ocorrer a respeito do “corpo do pecado”. Mas qual das duas explicações concorda com o sentido apostólico, ou se não é nenhuma delas, que o leitor examine.
Observe que Orígenes conclui suas explicações em 5.9.10 e 5.9.11 dizendo que isto é o que ele tinha para dizer a respeito do que ele entendia da expressão de Paulo quando falava sobre “o corpo do pecado”. Para Orígenes, a expressão diz respeito à condição atual do corpo humano e não necessariamente a respeito de pecados cometidos ou uma suposta “depravação total irremediável herdada de Adão”.
Comentário da Epístola aos Romanos, 7.18.3
Por fim, a última citação de Orígenes da frase sobre a qual vimos tratando nesta série de artigos, vai aparecer em meio às interpretações de Orígenes de Romanos 9, mais especificamente quando ele falará sobre os vasos de misericórdia que se purificaram de toda contaminação do pecado. Como um bônus aos meus leitores, traduzirei e comentarei alguns parágrafos anteriores, quando Orígenes ainda está desenvolvendo o raciocínio para chegar na parte que nos interessa.
Comentário da Epístola aos Romanos, 7.17.5
“Acaso o que foi moldado dirá àquele que o moldou: ‘Por que me fizeste assim?’ Não tem o oleiro autoridade sobre o barro, para fazer da mesma massa um vaso para honra e outro para desonra?” Também lemos algo semelhante nos escritos do profeta Jeremias, onde Deus lhe ordena que entre na casa de um oleiro e observe enquanto ele molda o barro. Enquanto recolhe um vaso que havia caído de suas mãos, ele o molda novamente segundo a sua própria vontade. Diz o texto: “E a palavra do Senhor veio a ele, dizendo: ‘Não poderei eu fazer com a casa de Israel como este oleiro fez?’”. A Sabedoria também diz: “A fornalha prova os vasos do oleiro, e a tentação [prova] os homens justos”. Portanto, Deus tem autoridade sobre nós assim como o oleiro sobre o barro, para fazer da mesma massa vasos para honra e vasos para desonra. A vós, portanto, que respondeis insolentemente a Deus, seja suficiente terdes ouvido estas coisas.
Interessantemente, Orígenes conecta os vasos mencionados por Paulo em Romanos 9, com a mensagem de Deus à nação de Israel presente no texto de Jeremias. Orígenes inclusive diz: “O que Paulo está dizendo aqui, é semelhante a algo que encontramos nos textos de Jeremias”. A mensagem de Deus à nação de Israel, por meio do profeta Jeremias, envolve tudo o que Jeremias presencia na casa do oleiro: Enquanto o oleiro está trabalhando na modelagem do barro, o vaso quase pronto cai das mãos do oleiro, e então, ele o remodela novamente de acordo com sua vontade. O que o texto de Jeremias estava dizendo? O texto está simplesmente dizendo que do mesmo barro do primeiro vaso que caiu e se despedaçou, do mesmo mesmo barro, ele fez um vaso novo. Orígenes quis usar o texto de Jeremias conectando-o com o texto de Paulo, porque o próprio Jeremias entendia que esta era a concepção de Paulo para a constituição de cada vaso, ou seja, um vaso poderia inicialmente estar sendo uma coisa, mas, poderia haver uma mudança que transformasse aquele mesmo vaso em outra coisa. Da mesma massa do vaso que caiu, dependendo da vontade do oleiro, poderá ser remodelado um novo vaso para honra ou para desonra. Orígenes, continua. Acompanhe.
Comentário da Epístola aos Romanos, 7.17.6
Mas aquele que deseja contemplar as obras da sabedoria de Deus em seus modos de governar, que escute Paulo tratando destes assuntos em outra passagem, onde ele tem consciência dos mistérios divinos. Ele diz: “Mas numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro; uns, na verdade, para honra, outros, porém, para desonra. Se, portanto, alguém se purificar destas coisas, será um vaso para honra, santificado e útil ao Senhor, preparado para toda boa obra”. Ouvis como Paulo, nestas coisas em que não tinha um adversário insolente [como em romanos 9], explicou que há diferentes tipos de vasos? Pois ali [em romanos 9], onde não havia um ouvinte digno, mas sim um adversário, ele menciona apenas vasos de barro; mas aqui ele diz que há vasos de ouro, de prata, de madeira e de barro, uns para honra e outros para desonra, como ele mencionou lá. Porém, embora ALI ele tenha silenciado sobre A RAZÃO de existirem “uns para honra e outros para desonra”, AQUI ele explicou isso abertamente. Ele diz: “Pois se alguém SE PURIFICAR destas coisas” — sem dúvida, das contaminações do pecado —, “será”, diz ele, “um vaso para honra, santificado e útil ao Senhor, preparado para toda boa obra”.
Orígenes diz que em Romanos Paulo não entra em certos detalhes porque pressupõem uma oposição imaginária por parte de alguns possíveis adversários. Tais adversários, pelo contexto da própria epístola de Paulo aos romanos, obviamente, só poderiam ser judeus que não estivessem dispostos a aceitar o fato de que seria preciso se arrepender e crer em Cristo para serem salvos. Porém, no texto de II Timóteo 2.20, 21, Paulo explica a razão da existência de vasos para honra e outros para desonra: “Se alguém a si mesmo se purificar das contaminações do pecado se transformará em vaso para honra, pois, por sua autopurificação estará santificado e será útil, estando finalmente preparado para toda boa obra”.
Guarde a explicação de Orígenes sobre alguém que se purifica das contaminações do pecado, pois será nesta linha que ele voltará a falar sobre o fato de ninguém estar isento das contaminações do pecado, nem mesmo se sua vida durar apenas um dia.
Comentário da Epístola aos Romanos, 7.17.7
Segue-se, portanto, que todo aquele que NÃO SE PURIFICOU e não lavou as manchas do pecado POR MEIO DO ARREPENDIMENTO, esse seria um vaso para desonra. Mas mesmo que, pela dureza da sua mente e pela impenitência do seu coração, ele cresça na maldade e despreze completamente a conversão, ele se tornará agora não apenas um vaso para desonra, mas um vaso de ira. Assim, pois, o entendimento que ele [Paulo] fechou ali [em romanos 9] para aqueles que o exigiam de modo indigno, aqui [em II Timóteo 2] ele o abre para aqueles que o desejam de modo digno. Por meio disso, até mesmo aquilo que ele expôs antes sobre Jacó e Esaú se explica com mais clareza. Pois, para que Jacó se tornasse um vaso para honra, santificado e útil ao Senhor, preparado para toda boa obra, a sua alma havia se purificado; e Deus, vendo a sua pureza, tendo autoridade para fazer da mesma massa um vaso para honra e outro para desonra, fez de Jacó — que, como dissemos, realmente se havia purificado — um vaso para honra. Mas da mesma massa fez de Esaú um vaso para desonra, cuja alma ele viu que não era nem tão pura nem tão simples. E para que saibais que Jacó foi feito vaso para honra por causa da pureza e simplicidade da sua alma, escutai como a Sagrada Escritura dá testemunho da sua simplicidade. Ela diz: “Jacó era um homem simples, habitando em uma casa”. Por esta razão, então, o Apóstolo diz acerca destes homens que, antes de nascerem, foi dito deles: “Amei a Jacó, mas odiei a Esaú”.
Neste momento Orígenes comete o mesmo erro de interpretação de texto que muitos cristãos que leem romanos 9.12,13 cometem, pois leem e não entendem. O texto não diz que lhes foi dito isso antes de nascerem, pelo contrário, o texto diz que isso lhes foi dito muito tempo depois de já terem morrido. A única parte que foi dita antes deles nascerem é o que se encontra no versículo doze: “o mais velho será servo do mais moço”. O que está no versículo treze, é a comprovação do que aconteceu posteriormente, como havia sido declarado muitos anos depois da morte dos dois e de terem sido formadas as nações que deles descenderam, ou seja, Paulo está dizendo “a nação que veio do mais velho, Edom, foi serva da nação que veio do mais novo, Israel, como de fato está escrito em Malaquias 1.2: Amei Jacó e Aborreci Esaú“.
A despeito deste pequeno deslize, vemos que Orígenes procura uma interpretação que esteja em harmonia com a crença da Igreja Primitiva que defendia a total e irrestrita liberdade humana para servir ou não servir a Deus por meio do seu livre-arbítrio.
Comentário da Epístola aos Romanos, 7.18.2,3
(2) “Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira preparados para a destruição, a fim de que desse a conhecer as riquezas da sua glória para os vasos de misericórdia.” Nisto parece se entender que, enquanto Deus suporta e pacientemente tolera os incrédulos e os infiéis, ele dá a conhecer aos homens tanto a sua paciência quanto o seu poder: a paciência, enquanto os suporta por longo tempo, NA ESPERANÇA DE QUE TALVEZ CAIAM EM SI e se convertam; e o poder, enquanto às vezes os pune e não deixa os SEUS CRIMES impunes para sempre. (3) Por outro lado, “para os vasos de misericórdia”, isto é, aqueles que se purificaram de toda contaminação do pecado — da qual “ninguém está puro, nem mesmo se sua vida durar apenas um dia” —, ele dá a conhecer as riquezas da sua glória. Ele preparou estes vasos para a glória NÃO POR MEIO DE ALGUMA GRAÇA ARBITRÁRIA ou FORTUITA, mas porque ELES SE PURIFICARAM das contaminações mencionadas acima.
Orígenes não costumava citar a frase que diz que “ninguém está puro, nem mesmo que sua vida dure apenas um dia” para afirmar que o homem é completamente impuro, depravado e imprestável, pois, como se vê acima, Orígenes afirma que os “vasos de misericórdia” serão aqueles que se purificam de toda contaminação do pecado “da qual ninguém está puro”. O que ele quer dizer com isso, afinal? Basta que tenhamos visto tudo o que ele falou sobre o assunto nos outros textos que estudamos, para que compreendamos seu ponto de vista. Orígenes estava simplesmente dizendo que ninguém conseguirá se livrar das inclinações do pecado presentes em nossa própria carne, mas aqueles que as resistirem e controlarem, buscando a graça e o socorro de Deus, alcançarão misericórdia.
Enquanto o ser humano estiver dentro deste corpo corruptível, mesmo que sua vida dure apenas um dia sobre a terra, ainda assim, ele não estará isento ou completamente puro da influência e contaminação do pecado. Porém, quando nosso corpo mortal for absorvido pela imortalidade, e o que é corruptível em nós, for absorvido pela incorruptibilidade, então, finalmente se cumprirá a palavra que diz: Tragada foi a morte pela vitória!
Neste ponto poderíamos nos perguntar sobre aquilo que sugeriu o calvinista pabuloso que afirmava que Orígenes cria do mesmo jeitinho de Agostinho. Então, agora que você já sabe, você mesmo responde: Orígenes pensava, cria e falava as mesmas coisas de Agostinho? As mesmas coisas desta teologia deturpada que diz que o homem é um ser completamente depravado e incapaz de reconhecer a graça de Deus em todas as coisas que foram criadas desde o princípio do mundo? Uma teologia doentia que defende que um bebê recém-nascido é tão impuro e pecador que se não for batizado e morrer, estará destinado à morte eterna? Uma teologia que saiu da mente pervertida de um homem que ousou afirmar que Deus tem desejos de mandar para o inferno os filhos dos seus amigos? Não, gente. Não mesmo. Orígenes nunca defendeu essa loucura, mesmo que seus opositores gostem de usar suas frases e citá-las por aí fora de contexto.
Calvinistas ignorantes continuarão enganando e sendo enganados, mas e você que leu estes textos? Ainda se recusa a tomar a pílula vermelha e vir para a luz?