As Bestas de Apocalipse São Reinos ou Pessoas?
PERGUNTA:
A Paz do Senhor, Natan! Seu canal é uma benção e tenho aprendido muito contigo sobre Escatologia! Quanto à sua colocação de que as Bestas de Apocalipse não se referem a pessoas, confesso que fiquei intrigado com algumas passagens onde se fala da primeira Besta sendo adorada, a segunda Besta fazendo sinais diante da primeira Besta, e ainda de uma imagem sendo feita para adoração de uma das Bestas, também se fala de uma Besta sendo presa, etc. Minha pergunta é: Como entender que estas coisas se referem a reinos e não a indivíduos?
RESPOSTA:
Olha, é relativamente simples. Se você partir do princípio que a própria Bíblia se interpreta a ela mesma, tudo ficará mais fácil. Por via de regra, a chave hermenêutica básica para a interpretação de textos proféticos que envolvem animais é a seguinte: os bichos normalmente representam reinos, e os chifres comumente representam reis. O cenário profético de Apocalipse toma emprestada muita coisa do livro de Daniel. De fato, muitos acreditam que Daniel e Apocalipse se complementam e que deveriam ser lidos em harmonia um com o outro. Até mesmo alguns dos animais citados no livro de Daniel são repetidos em alguns contextos do livro de Apocalipse.
Em Daniel capítulo sete o anjo lhe disse: “Estes grandes animais, que são quatro, são quatro reis que se levantarão da terra” (Daniel 7.17). Obviamente que quando neste texto se fala de “reis” que se levantarão na terra, ele está se referindo a “reinos”, pois não há rei sem reino, nem reino sem rei. Inclusive, outras versões desta mesma passagem traduzem exatamente assim.
Daniel 7.17 – Nova Versão Transformadora
“Essas quatro grandes bestas representam quatro reinos que surgirão da terra.
Daniel 7.17 – Nova Versão Internacional
Os quatro grandes animais são quatro reinos que se levantarão na terra.
Depois, no mesmo capítulo sete de Daniel, o profeta disse: “Tive desejo de conhecer a verdade a respeito do quarto animal, que era diferente de todos os outros, muito terrível, cujos dentes eram de ferro, cujas unhas eram de bronze, que devorava, fazia em pedaços e pisava aos pés o que sobejava” (Daniel 7.19). “Então, ele disse: O quarto animal será um quarto reino na terra, o qual será diferente de todos os reinos; e devorará toda a terra, e a pisará aos pés, e a fará em pedaços. Os dez chifres correspondem a dez reis que se levantarão daquele mesmo reino; e, depois deles, se levantará outro, o qual será diferente dos primeiros, e abaterá a três reis” (Daniel 7.23-24).
Daniel havia tido uma visão de quatro animais, e depois o mensageiro de Deus lhe explica que aqueles quatro animais representavam quatro reinos que se levantariam sobre a terra. O quarto reino, representado pelo quarto animal com dez chifres, seria um reino cujo índice de maldade e intolerância seria muito pior que os demais, e, que, por isso, executaria ações bem diferentes dos reinos anteriores. O anjo disse: “O quarto animal será um quarto reino, diferente de todos os outros, e seus dez chifres, correspondem a dez reis que se levantarão daquele mesmo reino”. Este último animal da visão de Daniel, parece ser uma referência ao último império anticristão que existirá sobre a terra, que também costumamos chamar popularmente de “reino do anticristo”. Embora, na verdade, o Anticristo não seja o idealizador e o responsável inicial pelos fundamentos e propostas oferecidas por este reino, ele surgirá tardiamente, e, mesmo assim, usurpará a posição de liderança deste reino originalmente organizado pelos dez reis. É disso que trata os versos de Daniel 7.8,11 e Daniel 7.19-25.
Daniel 7.8-11
8 Estando eu a observar os chifres, eis que entre eles subiu outro pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava com insolência. 11 Então, estive olhando, por causa da voz das insolentes palavras que o chifre proferia; estive olhando e vi que o animal foi morto, e o seu corpo desfeito e entregue para ser queimado.
Daniel 7.19-25
19 Então, tive desejo de conhecer a verdade a respeito do quarto animal, que era diferente de todos os outros, muito terrível, cujos dentes eram de ferro, cujas unhas eram de bronze, que devorava, fazia em pedaços e pisava aos pés o que sobejava; 20 e também a respeito dos dez chifres que tinha na cabeça e do outro que subiu, diante do qual caíram três, daquele chifre que tinha olhos e uma boca que falava com insolência e parecia mais robusto do que os seus companheiros. 21 Eu olhava e eis que este chifre fazia guerra contra os santos e prevalecia contra eles, 22 até que veio o Ancião de Dias e fez justiça aos santos do Altíssimo; e veio o tempo em que os santos possuíram o reino. 23 Então, ele disse: O quarto animal será um quarto reino na terra, o qual será diferente de todos os reinos; e devorará toda a terra, e a pisará aos pés, e a fará em pedaços. 24 Os dez chifres correspondem a dez reis que se levantarão daquele mesmo reino; e, depois deles, se levantará outro, o qual será diferente dos primeiros, e abaterá a três reis. 25 Proferirá palavras contra o Altíssimo, magoará os santos do Altíssimo e cuidará em mudar os tempos e a lei; e os santos lhe serão entregues nas mãos, por um tempo, dois tempos e metade de um tempo.
O quarto animal visto por Daniel representa o último reino maligno que haverá sobre a terra. Este reino surgirá inicialmente através da aliança multilateral de dez reis, contudo, posteriormente, será governado por outro líder que não fazia parte da formação original. Este rei antipatizará com três dos dez reis da formação original e assumirá a liderança. Este homem, representado pelo chifre pequeno daquele animal, é o mesmo personagem sobre o qual as Escrituras falam em diversos lugares, usando diversos outros nomes, a quem costumamos chamar de Anticristo. Em Ezequiel 38.17, Deus diz a seu respeito: “Não és tu aquele de quem eu disse nos dias antigos, por intermédio dos meus servos, os profetas de Israel, os quais, então, profetizaram, durante anos, que te faria vir contra eles?”. Aquele mesmo homem a respeito de quem Deus havia falado por meio de todos os profetas, que, no fim dos dias, o faria vir contra a nação de Israel.
Exatamente como foi feito no livro de Daniel, este mesmo reino será representado novamente por um bicho feroz no capítulo 13 de Apocalipse, quando João diz: “Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia. A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade” (Apocalipse 13.1,2).
As visões de Daniel e de João apresentam aspectos distintos do mesmo episódio, porém, ambas compartilham uma revelação comum, ou seja, Daniel e João estão tratando sobre o último reino humano sobre a terra antes do estabelecimento do reino milenar do Senhor Jesus. Embora o livro de Apocalipse descreva inúmeros outros detalhes relacionados ao que ocorrerá durante o período tribulacional, no fim, o resultado será o mesmo, ou seja: “Jesus descerá à terra, matará o Anticristo com o sopro de sua boca, e os cadáveres dos seus exércitos serão oferecidos em banquete às feras e aves do céu e ele finalmente estabelecerá seu reino neste mundo” (Apocalipse 19.11-21). Inclusive, após a visão do quarto animal, Daniel acrescenta o seguinte:
“Continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e o Ancião de Dias se assentou (…) estava olhando, por causa da voz das insolentes palavras que o chifre pequeno proferia, e vi que o animal foi morto, e o seu corpo desfeito e entregue para ser queimado (…) e eis que vinha com as nuvens do céu um como o filho do homem (…) foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído”
Daniel 7.9-14
Em termos gerais, tanto Daniel quanto João estão tratando sobre o reino do Anticristo, que será destruído, no devido tempo, com a vinda do Senhor Jesus, e sobre o consequente estabelecimento do reino de Deus sobre a terra. A não ser que alguém suponha que o quarto animal de Daniel 7 esteja fazendo referência a outro reino e não ao reino do Anticristo, seria impossível não relacionar o texto de Daniel 7 ao texto de Apocalipse 13. Se no texto de Daniel aquele quarto animal será um reino que se levantará sobre a terra, e seus dez chifres serão dez reis que se levantarão daquele mesmo reino, por qual razão o animal de Apocalipse 13 que faz referência direta ao mesmo animal de Daniel, deveria ser interpretado de forma diferente? Não faria sentido afirmar que o texto de Daniel é claro em dizer que se trata de um reino, e depois dizer que no livro de Apocalipse o mesmo animal agora representa um homem. Embora a ideia de reinos e reis se misturem conceitualmente em termos semânticos, pois um representa o outro, é importante não fazer confusão entre uma coisa e outra.
Na visão de Daniel, o Anticristo é representado por um chifre pequeno que surge depois do reino de dez reis já estar consolidado. Na visão de Apocalipse, este líder que surge depois do reino de dez reis entrar em cena, virá de outro reino, representado por um segundo animal; mas, como em Daniel, será ele quem assumirá a liderança daquele reino, passando a ser seu regente e detentor das decisões que serão tomadas a respeito do que acontece ou deixa de acontecer dentro dos domínios deste reino. Deste segundo animal, ou segundo reino, sairá o homem que exercerá toda a autoridade que o primeiro bicho possui. Seu domínio e influência se limitarão aos integrantes das nações daquele reino e ele fará com que os habitantes da terra dentro dos limites deste reino se prostrem em homenagem àquele reino que havia sido destruído, mas agora estará restaurado na presença de todos. Porém, como o próprio texto de Apocalipse diz, chegará o momento em que este homem, este falso profeta, será finalmente anulado, juntamente com todos os integrantes deste reino que ele liderou (Apocalipse 13.12, Apocalipse 19.20)
Agora, é preciso entender que, se numa profecia, por exemplo, “um bicho está atacando outro bicho”, é por que o texto bíblico deseja revelar que o rei daquela nação agirá contra outra. No texto de Daniel, por exemplo, ele disse que “viu um bode peludo chegar perto de um carneiro, e, enfurecido contra ele, o feriu e lhe quebrou os dois chifres, pois não havia força no carneiro para lhe resistir; e o bode o lançou por terra e o pisou aos pés, e não houve quem pudesse livrar o carneiro do poder dele” (Daniel 8.7 ). Como se deveria interpretar isso corretamente? Simples: o próprio Daniel demonstra como, pois, em seguida, ele diz: “Aquele carneiro com dois chifres, que viste, são os reis da Média e da Pérsia; mas o bode peludo é o rei da Grécia; o chifre grande entre os olhos é o primeiro rei” (Daniel 8.20,21). Observe que ele diz que “o carneiro com dois chifres são os reis da Média e da Pérsia”, ou seja, os dois chifres do carneiro representam os dois reis. Ele também diz que “o chifre grande entre os olhos é o primeiro rei”. O que ele quer dizer com isso? O texto está simplesmente dizendo que o carneiro representa uma coalizão de duas nações: a Média e a Pérsia, e o bode representa outro reino, o Império Grego, com seu grande líder à frente de seu governo, Alexandre Magno, que, por sua vez, é representado pelo grande chifre entre os olhos do bicho.
Quando um texto profético como esse diz que “o bicho fez alguma coisa”, é possível que o texto esteja se referindo ao que o governo daquele reino fez. Isso é uma figura de linguagem muito comum na comunicação, quando uma parte representa o todo, ou quando o todo é usado para representar uma parte. Por exemplo, se eu disser “fulano ficou sem teto”, não quero dizer que ele ficou apenas sem o telhado, mas que continuou com o resto da casa. Eu estou querendo dizer que ele perdeu a casa toda, porém, a palavra “teto” na frase em questão, está sendo usada como representação do todo. Da mesma forma, se eu disser, “naquele dia todo o Brasil chorou”, não estou de fato querendo dizer que todo e qualquer indivíduo brasileiro chorou, mas que houve uma grande comoção nacional, mesmo que nem todos os indivíduos tenham de fato chorado. Assim, da mesma forma, quando o texto de Apocalipse 13.11,14 diz que “a segunda besta opera sinais diante da primeira besta”, o texto deve estar simplesmente dizendo que alguém proveniente de uma determinada nação, representada por aquele segundo bicho, faz alguma coisa diante do povo das nações representadas pela primeiro bicho. Basta você pegar o próprio texto de Apocalipse 19.20 que diz que “a besta foi aprisionada, e com ela o falso profeta que, com os sinais feitos diante dela, seduziu aqueles que receberam a marca da besta e eram os adoradores da sua imagem”. Compare os dois textos, Apocalipse 13.11,14 e Apocalipse 19.20, e você entenderá que os dois textos estão falando da mesma coisa, mas de forma diferente. Em Apocalipse 19 não há menção de uma “segunda besta”, fala-se apenas do profeta falso, que provavelmente saiu do lugar representado pelo segundo animal de Apocalipse 13.
Além disso, quando a profecia diz que “um dos bichos foi preso” é porque na visão, o animal que João via, foi aprisionado mesmo, só isso. Imagine que você tem uma visão espiritual e nela você observa um leão feroz correndo para cima de você, mas, de repente, o leão é aprisionado dentro de uma jaula. O que isso significaria? Simples: Significaria que aquilo que estava sendo representado pelo leão será impedido de te fazer mal, aquilo será anulado antes que te alcance. Não é uma coisa muito difícil de se entender, não é mesmo? Por exemplo, se Deus me dá uma visão e me mostra um sapo venenoso pulando pra cima de mim, mas o sapo cai num buraco de mais de 100 metros de profundidade, o que isso significaria? Significaria simplesmente que aquilo que o sapo representava foi barrado, impedido, anulado de me fazer mal. Se na visão de Apocalipse o bicho que João viu foi amarrado num poste ou preso dentro de uma cela, ou jogado dentro de um buraco sem fundo, ou qualquer coisa do tipo, o que isso significa? Mais uma vez, é muito simples! O texto está simplesmente dizendo que o mal causado por aquela fera foi barrado, impedido e anulado. Agora, o que a fera representa, o próprio texto bíblico vai explicar, né?
Outra coisa, a “adoração” mencionada no texto de Apocalipse, se refere unicamente ao fato de que as pessoas se prostravam diante da imagem feita em homenagem ao primeiro bicho, que representa um império que havia caído, mas foi restaurado. Quando Apocalipse fala sobre “a cura de uma das cabeças do bicho que havia sido mortalmente ferida”, a intenção da profecia nunca foi ensinar que o anticristo vai “morrer e ressuscitar”. Afinal, se a cabeça restaurada for o Anticristo, quem serão as outras cabeças do bicho? As mesmas pessoas que dizem que o Anticristo seria a primeira besta que tem as sete cabeças, também costumam dizer que o Anticristo é a cabeça que morre e ressuscita. Afinal, o Anticristo seria o bicho que tem as cabeças ou uma das cabeças que está no bicho? Além disso, é importante lembrar que o anjo disse a João em Apocalipse 17 que aquele bicho tinha sete cabeças que representam sete montes, que também são sete reinos. Como isto poderia estar fazendo referência a um homem?
Sinceramente? Quanto mais você pensar que o bicho é o Anticristo, mais confuso você ficará, caso você realmente pretenda levar em consideração o texto bíblico. Sem falar que você simplesmente não conseguirá harmonizar convenientemente os textos de Daniel com os textos de Apocalipse.
Se você deseja se aprofundar neste assunto, te aconselho a estudar o livro A Bíblia, o Islamismo e o Anticristo, onde trato especificamente sobre isso em detalhes.