Livre-Arbítrio e Salvação Antes de Agostinho
A crença primitiva do Cristianismo sempre foi a de que todos os homens foram criados à imagem e semelhança de Deus e que não há distinção alguma entre um ser humano e outro. O Cristianismo nunca defendeu a ideia de classes ou castas nas quais os indivíduos fossem destinados a nascer ou morrer. Todos os cristãos primitivos defenderam que o homem é plenamente capaz de decidir e escolher o destino que deseja seguir, e que, exatamente por isso, todos serão responsabilizados diante de Deus pela vida que tiverem.
A Igreja Primitiva sempre acreditou que a oferta de salvação e a possibilidade real de comunhão com Deus se estende a todos os homens, e que, os próprios homens, são os únicos responsáveis por aceitar ou rejeitar a oferta. A doutrina cristã sempre defendeu que todos os homens são plenamente dotados de livre-arbítrio e que por isso são capazes de escolher se converter, se assim eles quiserem. A ideia de que o homem perdeu o reflexo divino depois do pecado de Adão e que por isso “teria se tornado incapaz de querer se converter”, não nasceu no Cristianismo. Este pensamento veio de fora e se infiltrou na comunidade cristã paulatinamente através de filosofias de viés predestinistas e por meio da influência do Cristianismo Gnóstico.
Clemente de Roma, ou Clemente Romano, como ficou conhecido, fora um cristão que parece ter vivido na mesma época do apóstolo Paulo, ajudando-o como seu companheiro de ministério e sendo inclusive citado por ele em Filipenses 4.3. Viveu entre os anos 30 e 100 d.C. e acredita-se que sua carta aos coríntios tenha sido uma das cartas mais antigas do Cristianismo depois dos textos que compõem o Novo Testamento, sendo datada por volta do ano 96 d.C.. Confira abaixo um dos trechos de sua carta aos coríntios.
1ª Clemente 7.4–7
4 Tenhamos os olhos fixos no sangue de Cristo, e compreendamos como é precioso ao seu Pai. Derramado pela nossa salvação, TROUXE AO MUNDO A GRAÇA DO ARREPENDIMENTO. A Escritura ensina o arrependimento. 5 Percorramos todas as gerações e aprendamos que, de geração em geração, o Senhor deu possibilidade de arrependimento A TODOS AQUELES QUE QUERIAM converter-se a ele. 6 Noé pregou o arrependimento, e OS QUE O ESCUTARAM FORAM SALVOS. 7 Jonas anunciou a catástrofe aos ninivitas, e estes se arrependeram de seus pecados; aplacaram a [ira de] Deus com suas súplicase OBTIVERAM A SALVAÇÃO, embora fossem estrangeiros em relação a Deus.
Para Clemente, o sangue de Cristo foi derramado para a salvação de todos os homens, invariavelmente. A graça do arrependimento se encontra na própria mensagem de boas novas do Evangelho, e o arrependimento é uma possibilidade real a todos os homens, sem qualquer exceção. E como disse Clemente, a possibilidade de arrependimento é real e está disponível a qualquer homem que quiser se converter a Deus. Como ele disse: Noé pregou e os que o escutaram foram salvos. Jonas pregou e os que se arrependeram obtiveram a salvação. É exatamente isso o que ensinam as Escrituras: “aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça da água da vida” [i].
Em relação à salvação, podemos dizer que a mensagem da Igreja Primitiva sempre foi muito simples e objetiva: “Quem quiser se converter, arrependa-se e seja salvo”. Simples assim. Sem malabarismos teológicos e sem tecnicismos fantasiosos. Apenas o apelo à pura e simples liberdade humana em escolher se deseja a comunhão com Deus ou não.
Clemente constantemente aplica o princípio da liberdade humana ao longo de toda sua carta aos irmãos de Corinto, como se pode observar no exemplo acima. Nem ele, nem qualquer outro cristão da sua época, ensinava que Deus precisaria primeiro intervir para “modificar o estado adormecido do homem” para que somente então o homem fosse capaz de “poder escolher”. No livro “A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio[ii]”, você encontrará inúmeras citações semelhantes de diversos cristãos da Igreja Primitiva, os quais trataram especificamente sobre a liberdade humana para decidir e escolher, sem que houvesse a necessidade de qualquer ação extraordinária de Deus, que, supostamente, possibilitaria o homem a ser capaz de se arrepender e a desejar a salvação.
Somente depois da fundamentação teórica desenvolvida por Agostinho em meados do século V, foi que a igreja cristã começou a abandonar a doutrina primitiva e passou a abraçar uma teologia pessimista que refletia sentimentos oriundos do Gnosticismo[iii]. A partir deste ponto, o livre-arbítrio começou a ser marginalizado e a essência do Cristianismo dos primeiros cinco séculos foi abandonado e substituído pela teologia agostiniana que conhecemos no Ocidente.
[i] Apocalipse 22.17.
[ii] “A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio” é a continuação do ensinamento desta obra que você tem em mãos, cujo título se chama “O Pecado Original de Agostinho”.
[iii] Para mais informações a respeito do tema, leia o livro “As Origens Gnósticas do Calvinismo”, ou acesse gratuitamente o site Debate.NatanRufino.com.br.
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