Justino e os Juízes Corruptos
Segunda Apologia de Justino Mártir, 1.1,2
1 Romanos […] Com efeito, sois da nossa mesma natureza e irmãos nossos, por mais que, por causa da vaidade de vossas supostas dignidades, não o reconheçais, nem o desejeis. 2 O fato é que em todas as partes há gente disposta a nos levar à morte. Exceto os que estão persuadidos de que os iníquos e intemperantes serão castigados com o fogo eterno e que os virtuosos e que viveram de modo semelhante a Cristo, viverão impassíveis com Deus, isto é, exceto os que são cristãos, todo aquele que é repreendido pelo pai, vizinho, filho, amigo, marido ou mulher por causa de uma falta, se volta contra nós, POR SUA OBSTINAÇÃO AO MAL, POR SEU AMOR AO PRAZER e por sua impotência para seguir o que é bom; com estes, os malvados demônios, por causa do ódio que nos professam e porque têm a seu serviço tais juízes, como se, de fato, os governantes fossem endemoninhados.
Primeiramente Justino menciona a igualdade de todos os homens quando chama os cidadãos romanos de “irmãos” e “participantes da mesma natureza” dos cristãos. Embora os romanos se considerassem superiores por pura vaidade e preconceito, Justino sabe que todos os seres humanos são iguais. Em seguida, Justino explica que o mau comportamento dos pecadores é decorrente do seu desinteresse em mudar de vida. Justino também afirma que os pecadores perseguem a igreja juntamente com os demônios que odeiam os crentes, pois, segundo Justino, muitos juízes estavam a serviço dos demônios, como se as autoridades e os governantes fossem endemoninhados. Perceba que aquilo que era verdadeiro para Justino naquela época, continua exatamente igual nos dias de hoje.
- Alguns homens que se achavam melhores e superiores aos outros, não queriam ser rebaixados à igualdade com gente da ralé, como eram alguns cristãos, por exemplo. A declaração de Justino não afirma que todos os cristãos eram pobres e incultos, mas o Cristianismo sempre foi contra o orgulho e a vaidade, e sempre ensinou o nivelamento das pessoas como filhas do mesmo Deus. Isso faz com que pobres e ricos, cultos e iletrados, sejam considerados iguais. E isso, muitos dos romanos não queriam admitir.
- Muitos homens pecadores queriam a morte dos cristãos. Os únicos que não demonstravam a mesma obsessão pela morte dos crentes, eram aqueles que entendiam que os iníquos e intemperantes sofreriam castigo, ao passo que os virtuosos, com comportamento semelhante ao de Cristo, não sofreriam mal algum da parte de Deus.
- Todos os que não viviam de acordo com os princípios de Cristo, incluindo os que não se deixavam influenciar positivamente pela verdade do Logos, quando eram repreendidos por algum pecado, se voltavam contra os cristãos e contra as pessoas de bem.
- A razão da revolta dos homens maus contra os virtuosos era uma só: Sua própria obstinação ao mal e o apego ao prazer que o pecado proporciona. Tais homens eram incapazes de desejar e seguir a justiça, constituindo-se mais amigos dos prazeres, que amigos de Deus.
- Os demônios odeiam os cristãos e todo aquele que mantém um bom comportamento. Demônios sempre têm a seu serviço juízes iníquos que perseguem os bons e promovem a injustiça. Em alguns casos, parece até que algumas autoridades são mesmo endemoninhadas.
Duas coisas que gostaria de pontuar:
Em primeiro lugar, Justino reafirma que os que praticam males, vivendo de forma dissoluta e sem arrependimento, serão castigados com o fogo eterno e que os virtuosos, e que se esforçam por viver no exemplo de Cristo, não sofrerão mal algum da parte de Deus.
Em segundo lugar, quando Justino fala dos pecadores que se voltam contra aqueles que os repreendem por serem “incapazes de seguir o bem”, ele não está fazendo qualquer alusão às teorias gnósticas da “depravação universal da humanidade”. Justino está simplesmente dizendo que estas pessoas em particular são obstinadas no mal. Que estes, em particular, estão resolutos quanto à permanência no pecado pelo prazer que isto lhes proporciona, prazeres estes aos quais não querem largar. Se Justino tivesse em mente a mesma ideia pessimista do Gnosticismo ou das teorias tardias de Agostinho, afirmando indiscriminadamente que todos os seres humanos são assim, ele não teria mencionado diversas vezes os “homens de bem” entre aqueles que ainda não tinham confessado Jesus como Senhor. Alguns dos quais, inclusive, ele até mesmo chamava de “cristãos” por terem vivido sob a influência do “Logos de Deus” antes mesmo da encarnação de Cristo.
Extraído do Livro: A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio
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