Deus Faz a Paz e Cria o Mal
Contra as Heresias IV.40.1
Portanto, há um só e idêntico Deus Pai para os que aspiram à comunhão com ele e perseveram na submissão a ele, para os quais preparou os seus bens, e para o iniciador da apostasia, isto é, o diabo e os anjos que apostataram com ele, para os quais preparou o fogo eterno, em que serão lançados, como diz o Senhor, os que estiverem à sua esquerda. É o que foi dito pelo profeta: “Eu sou Deus ciumento que faço a paz e crio o mal”. Com os que se arrependem e convertem a ele faz a paz e estabelece a amizade e a união; para os que não se arrependem e fogem da sua luz prepara o fogo eterno e as trevas exteriores, que são o mal para os que caem neles.
Combatendo às ideias gnósticas de que havia dois deuses distintos, um no Antigo Testamento e outro que teria se revelado no Novo, Irineu está afirmando que só existe um único Deus e Pai, e que ele é o mesmo que abençoa e pune. Que não há duas classes de pessoas, uma classe supostamente destinada ao céu e outra destinada à perdição. Irineu defende que todos os homens são iguais e que cada um, individualmente, decide por sua própria vida e escolhe qual será seu destino eterno.
Irineu cita o texto do profeta Isaías em que Deus declara que faz a paz e cria o mal, e em seguida Irineu explica uma das formas como tal declaração pode ser compreendida: “Com os que se arrependem e se convertem, Deus estabelece a paz, a intimidade e a comunhão. Aos que não se arrependem e fogem da luz divina, Deus lhes prepara o fogo eterno”. Na concepção de Irineu, o fogo eterno seria o mal que Deus cria para aqueles que recusam aproximação às coisas de Deus. Irineu relata que enquanto uns buscam, outros fogem.
Para os que aspiram à comunhão com Deus e perseveram na submissão a ele, Deus preparou os seus bens. Aos que fogem da luz e não desejam se arrepender, Deus lhes preparou o mal do fogo eterno. O mesmo Deus recompensa os obedientes e pune os desobedientes. Note que Irineu não defende a ideia de que Deus é quem estabelece quem será abençoado e salvo, e quem será rejeitado e lançado no fogo eterno.
Além disso, é importante observar também, que na teologia de Irineu, o homem deve decidir o que vai querer e o que vai fazer. Irineu sempre defendeu em seus textos que os homens foram dotados de livre-arbítrio e razão, estando por isso suficientemente capacidades para decidir buscar a Deus, se arrepender e fazer as pazes com ele. Irineu nunca sequer insinuou que Deus precisaria primeiro “reativar o livre-arbítrio humano”, para que, somente assim, o homem finalmente pudesse escolher se quer ou não quer a amizade de Deus.
Como vimos na passagem acima, Irineu afirma que “com os que se arrependem e se convertem”, Deus sela a paz e estabelece amizade e comunhão. Porém, para que haja essa restauração no relacionamento com o divino, a iniciativa deve ser tomada pelo homem e não por Deus. Da mesma forma, Irineu fala “daqueles que fogem da luz”, mostrando que o homem se arrepende e se converte ou se afasta e foge. A decisão do que acontecerá com cada homem não está nas mãos de Deus, mas nas mãos de cada um. Segundo Irineu, Deus faz paz e cria o mal, mas não cria pessoas más, nem determina quem será “escolhido para ser salvo”, ou quem será “separado para ser castigado no inferno”.
Extraído do
Livro: “A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio”
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