A Constituição da Natureza Humana e o Livre-Arbítrio
Esta passagem é relativamente longa para uma simples citação, mas acredito que seja muito útil para demonstrar o pano de fundo do debate entre o pensamento gnóstico e a linha de raciocínio do Cristianismo mais tradicional. Vamos observar parte por parte.
Tertuliano, Contra Marcião II.5
Pois bem, agora, ó cães, a quem o apóstolo deixa do lado de fora (Apocalipse 22:15), e que latem contra o Deus da verdade, tratemos de suas diversas questões. São estes os ossos da discórdia que vocês roem incessantemente! Se Deus é bom, conhece antecipadamente o futuro e é capaz de impedir o mal, por que permitiu que o homem, sua própria imagem e semelhança e, pela origem de sua alma, também participante de sua própria substância, fosse enganado pelo diabo e, abandonando a obediência à lei, caísse na morte?
Pois, se Deus fosse bom e, portanto, não desejasse que semelhante catástrofe acontecesse; se conhecesse antecipadamente o futuro, não ignorando o que haveria de acontecer; e se fosse poderoso o bastante para impedir que isso ocorresse, tal desfecho jamais teria acontecido, pois seria impossível sob essas três condições da grandeza divina. Entretanto, visto que aconteceu, a proposição contrária seria certamente verdadeira: Deus não deveria ser considerado bom, nem conhecedor do futuro, nem poderoso.
Pois, assim como tal desfecho não poderia ter acontecido caso Deus fosse aquilo que dizem que ele é, bom, conhecedor do futuro e poderoso, esse desfecho teria acontecido justamente porque ele não seria um Deus assim.
Nesta primeira parte Tertuliano menciona as abordagens dos divergentes, que por serem possuidores de uma interpretação não convencional, pressionavam os cristãos em seus pressupostos quanto aos atributos de Deus. Os gnósticos desejam convencer os cristãos de que o ensinamento tradicional não seria suficiente para responder aos enigmas da queda, pois, segundo pensavam os gnósticos, havia um conhecimento supostamente mais profundo que poderia explicar a razão de as coisas terem acontecido assim.
Os gnósticos questionavam: “Se Deus é bom, conhece o futuro antecipadamente e é capaz de impedir o mal, então, por que permitiria que o homem, sua própria imagem e semelhança, fosse enganado pelo diabo, tornando-se assim desobediente e acabasse recebendo a morte como punição?”. Os gnósticos estavam zombando das afirmações cristãs convencionais. É como se perguntassem: Como o homem, que é participante da própria substância divina, como vocês dizem, poderia ter sido enganado pelo diabo? Se só há um Deus, com uma única vontade conhecida, como é que tão grandioso Deus não foi capaz de realizar sua vontade?
Diferentemente dos gnósticos, os cristãos convencionais afirmavam que só há um único Deus, que é bom, onisciente e onipotente. Embora os gnósticos não entendessem plenamente o que cada uma destas coisas significava, eles se opunham a estas afirmações porque tinham uma interpretação muito diferente sobre tudo. Eles acreditavam que havia dois deuses diferentes, um mau e outro bom. Acreditavam que os homens nasciam em classes predestinadas e que nada poderia ser feito para evitar que os homens alcançassem o destino de suas classes. Também seria impossível que um homem migrasse de uma classe para outra, tudo era destinado de acordo com a natureza de cada homem e por isso, imutável. Então, os gnósticos diziam: se Deus fosse mesmo bom, onisciente e todo poderoso, como os cristãos convencionais afirmam, o homem não teria caído; mas, como o homem caiu, então, Deus talvez não seja bom, nem onisciente, nem poderoso, como os cristãos convencionais costumavam falar. Com isso, os gnósticos queriam sugerir que apenas eles conheciam os mistérios ocultos que poderiam explicar algumas destas coisas.
Observe que os argumentos gnósticos supunham que se Deus fosse bom e não desejasse que o homem caísse, o homem não deveria ter caído. Se Deus já soubesse do futuro, sem ser ignorante quanto ao que vai acontecer, e tivesse poder para evitar isso, as coisas que aconteceram, não teriam acontecido. Os gnósticos eram incapazes de entender que nem tudo acontece porque Deus quer. Eles menosprezavam as características do homem e deixavam de fora da equação o quanto o homem poderia influenciar os acontecimentos da sua vida e do seu futuro. Por isso, ao tratar dos questionamentos dos gnósticos, Tertuliano acrescenta a explicação da importância da participação humana no desenrolar das coisas. Observe.
Tertuliano, Contra Marcião II.5
Ora, se Deus possuía atributosque deveriam tornar impossível e incompatível com seu caráter que algum mal sobreviesse ao homem e, apesar disso, o mal ocorreu, consideremos também a condição do homem: Não teria sido ela, na verdade, a causa de acontecer aquilo que não poderia ter acontecido por iniciativa de Deus?
Tertuliano afirma: O mal que sobreveio ao homem e a desgraça presente no mundo, não aconteceram por iniciativa de Deus, até porque isto seria incompatível com seu caráter. Deus, por sua natureza e seus atributos, jamais desejaria ou decretaria o mal para o homem. No entanto, é preciso levar em consideração a condição humana. Tertuliano está explicando que a resposta a tais indagações não se encontra no caráter, nem em qualquer suposto propósito oculto de Deus; mas que é preciso compreender a constituição humana, pois o homem foi criado de uma forma tal, que foi feito capaz de tonar isso possível.
Tertuliano, Contra Marcião II.5
Constato, portanto, que o homem foi constituído livre por Deus, senhor de sua própria vontade e de seu próprio poder. E nada demonstra melhor a presença da imagem e semelhança de Deus nele do que essa constituição de sua natureza. Pois não era pelo rosto nem pelos traços de seu corpo (…) que ele expressava sua semelhança com a forma de Deus. Antes, manifestava a marca divina naquela essência que recebeu do próprio Deus, isto é, na essência espiritual, correspondente à forma de Deus, e na liberdade e no poder de sua vontade.
A constatação de Tertuliano no texto acima, demonstra a essência do pensamento cristão primitivo. Embora cada autor tenha seu próprio estilo e sua forma particular de tratar do assunto, todos afirmam basicamente a mesma coisa, isto é:
- O homem foi constituído por Deus um ente livre e senhor de sua própria vontade, com domínio sobre seu próprio poder. E esta é a constituição da sua natureza!
- O que mais torna evidente a constituição dessa sua natureza, baseia-se no fato de que no homem está presente a imagem e a semelhança de Deus.
- A imagem e a semelhança de Deus presentes no homem não fazem referência aos contornos do corpo humano.
- A forma de Deus presente no homem se torna manifesta pela marca divina da sua essência humana, que foi recebida diretamente de Deus.
- Há pelo menos três coisas que refletem a forma de Deus no homem: Sua essência espiritual, a liberdade de sua vontade e o poder da sua vontade.
A visão de Tertuliano sobre a natureza humana é tão elevada quanto a de todos os outros autores cristãos da Igreja Primitiva. O homem é considerado um reflexo divino do seu criador, e é exatamente por meio do livre-arbítrio que isso fica claramente evidente.
Tertuliano, Contra Marcião II.5
Essa sua condição foi confirmada até mesmo pela própria lei que Deus então lhe impôs. Pois uma lei não seria imposta a alguém que não tivesse em seu poder prestar a obediência devida à lei. Tampouco haveria necessidade da ameaça de pena de morte como consequência do pecado, se fosse impossível ao homem desprezar a lei no exercício da liberdade de sua vontade.
Tertuliano acredita que até mesmo as leis e proibições impostas por Deus demonstram a condição humana de liberdade plena. É uma argumentação simples, mas profundamente lógica e racional: Se ao homem não tivesse sido conferido o poder de prestar obediência a determinada lei, não faria sentido que tal lei fosse imposta sobre ele. Foi Deus quem deu ao homem este poder quando o fez como ele. No exercício da liberdade de sua vontade, o homem pode obedecer ou desobedecer. Se assim não fosse, que sentido haveria em Deus ameaçar o homem com a pena de morte caso ele escolhesse se entregar ao pecado?
Tertuliano, Contra Marcião II.5
Do mesmo modo, nas leis posteriores do Criador, vocês também descobrirão que, quando ele coloca diante do homem o bem e o mal, a vida e a morte, todo o curso da disciplina é organizado por meio de preceitos: Deus chama os homens para longe do pecado, ameaça-os e os exorta. E isso não se fundamenta em nenhuma outra razão senão no fato de que o homem é livre, possuindo vontade tanto para obedecer quanto para resistir.
Aos que achavam que Tertuliano poderia estar falando apenas sobre uma possível condição humana anterior à queda de Adão, leia novamente aquilo que ele falou no texto imediatamente acima. Tertuliano havia falado das condições do homem no sentido geral, sem com isso insinuar ou sugerir que tudo havia sido perdido depois do pecado de Adão. Nenhum escritor primitivo sugere a ideia de que o poder e a liberdade da vontade do homem foram perdidos quando Adão pecou. Nenhum cristão primitivo jamais disse que “o homem tinha livre-arbítrio antes, mas depois do pecado de Adão, toda raça humana o perdeu”. Se você chegou até aqui lendo todos os textos antigos que foram transcritos para este livro, é possível que você já tenha percebido isso.
Tertuliano conclui afirmando que em toda e qualquer lei ou proibição divina, ao longo de todas as Escrituras, você verá que quando Deus coloca diante do homem o bem e o mal, a vida e a morte, seu objetivo é chamar o homem para longe do pecado por meio de exortações e ameaças. A razão disso se fundamenta no fato de que o homem é realmente livre e que por sua própria vontade ele pode decidir obedecer ou resistir a Deus.
Para Tertuliano, o homem é senhor de sua vontade. Mandamentos, advertências e punições somente fazem sentido porque o homem pode fazer uma coisa ou outra, obedecer ou desobedecer.
Extraído do Livro: “A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio”
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