A Queda do Homem na Visão de Orígenes
Alguns dias atrás estive debatendo com um calvinista, e, para minha surpresa, fui forçado a ter que vê-lo sacar da cartola a seguinte frase: “Nenhum homem está limpo de mancha, nem mesmo que a sua vida tenha durado apenas um único dia”.
Na cabeça do calvinista, a frase acima, dita por um famoso pai da igreja de época anterior a Agostinho, provaria que todos os cristãos antes de Agostinho acreditavam que até mesmo um bebê recém nascido já estaria condenado ao nascer. Isso porque, imaginava ele, mesmo que o bebê tivesse vivido um único dia, ainda assim, seria pecador e impuro, como todo bom calvinista gosta de acreditar. Afinal, como disse outro calvinista certo dia: “o bebê recém nascido é a expressão física e material mais fiel de um demônio invisível”.
O calvinista com quem debatia, na tentativa de fazer uma ligação entre as invencionices de Agostinho e a crença da Igreja Primitiva, fez da frase em questão, o elo de ligação entre uma coisa e outra. De fato, Agostinho não tirou suas ideias radicais e absurdas de que bebês não batizados desceriam direto para o inferno, do completo nada. A radicalização quanto a este assunto, que foi implantada por suas teorias extremistas, foi construída ao longo dos anos tendo por base textos cristãos fora de contexto ou textos cristãos obscuros que não refletiam a regra e a crença majoritária da igreja a respeito do batismo infantil.
O calvinista dizia que a frase “havia sido usada por Orígenes para demonstrar que as crianças nasciam pecadoras e que por isso precisavam ser batizadas para remissão de pecados e para salvação”. Na verdade, já tratei detalhadamente sobre esta questão neste artigo, porém, quero apenas repetir que, aparentemente, Orígenes jamais usou essa frase com a intenção imaginada pelo calvinista. Excetuando-se a Homilia 8.3 do livro de Levíticos, que precisa de uma consideração um pouco mais técnica, todas as outras vezes em que Orígenes fez uso da frase que estamos discutindo, ele nunca teve a intenção de comunicar qualquer outra coisa, a não ser apontar para a fraqueza e corruptibilidade presente na condição atual do corpo humano. Tanto é assim que, na Homilia 14 do Evangelho de Lucas, Orígenes usou a mesma frase para se referir ao Senhor Jesus pelo fato de Jesus ter encarnado em um corpo semelhante ao nosso.
Para Orígenes, o simples fato de Jesus ter possuído um corpo humano, já o tornava qualificado para a frase de que “ninguém é isento de impureza, nem se de um único dia tiver sido sua vida”. Orígenes acreditava que havia uma espécie de corrupção, fraqueza e condição animal no corpo humano que fazia com que “toda alma que fosse revestida de um corpo humano tivesse sua própria mancha”. Por esta única razão foi que Orígenes usou a mesma frase para os santos, para Jesus e para as crianças. Ele não pensava em “pecado hereditário”, “culpa herdada”, ou qualquer outra coisa parecida com a teologia pessimista e condenatória de Agostinho.
Toda alma que foi revestida de um corpo humano tem a sua própria “mancha”. Mas Jesus foi manchado por sua própria vontade, porque assumiu um corpo humano para a nossa salvação. (Homilia 14.4)
A frase sobre a qual estamos falando foi usada por Orígenes de todas as formas possíveis, mas, na maioria esmagadora dos casos, ele a usava para frisar que qualquer ser humano vivo, pelo fato de estar dentro de um corpo animal, corruptível e mortal, jamais poderia estar completamente livre do contato com a impureza. Inclusive, na Homilia 14 do Evangelho de Lucas, Orígenes enfatizou que diferenciava a impureza do pecado, pois, segundo pensava, seria impossível um homem estar completamente limpo de mancha ou do contato com a impureza, mas seria completamente possível viver sem pecar. Para conferir as opiniões de Orígenes sobre este assunto leia a Homilia 2 do Evangelho de Lucas ou leia este artigo.
Ao longo de pelo menos três de suas obras, Orígenes usou por onze vezes a frase “nenhum homem está limpo de mancha, nem mesmo que a sua vida tenha durado apenas um único dia”. No entanto, diferentemente do que pensam alguns calvinistas, em nenhuma das onze ocasiões em que Orígenes fez uso da frase, ele se referia à qualquer suposta depravação espiritual total ou depravação moral total inerente ao ser humano.
Orígenes usou a frase uma vez na Homilia 2 do Evangelho de Lucas, duas vezes na Homilia 14 do mesmo Evangelho, duas vezes na Homilia 8 do Livro de Levítico, mais uma vez na Homilia 12 do mesmo livro, e cinco vezes em seu comentário da Epístola de Paulo aos romanos, nas seguintes passagens: 5.1.21, 5.5.4, 5.9.4, 5.9.11 e 7.18.3. Ao todo, considerando apenas estas ocasiões, como já foi dito, Orígenes usou a frase onze vezes, e como veremos no presente artigo, em nenhuma das vezes ele usou a frase com o mesmo sentido pretendido pelos calvinistas que a citam.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.1.21
De todas as obras onde Orígenes faz uso da frase sobre “o homem não estar livre de manchas ou impurezas”, o lugar onde ele mais faz isso, é, sem dúvida, em seu comentário da epístola de Paulo aos romanos. A frase vai aparecer pela primeira vez no livro 5, capítulo 1 e verso 21, porém, para que o contexto seja minimamente explicado, é preciso dizer que no verso 12 Orígenes começa a construir a base de seu raciocínio estabelecendo que o homem, e não a mulher, era o primeiro e principal responsável para cumprir as ordens provenientes do Criador. Na sequência, segue construindo a ideia de que a morte experimentada por todos os homens teria sido a consequência do pecado cometido por Adão.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.1.13
E por esta razão, porque falava do pecado do qual a morte passou a todos os homens, ele não atribuiu à mulher a sucessão da posteridade humana que sucumbiu A ESTA MORTEproveniente do pecado, mas ao homem. Portanto, A POSTERIDADE MORTAL e a descendência física são contadas a partir do homem, como fonte, e não da mulher.
Orígenes se refere “ao pecado de quem a morte passou a todos”. Neste sentido, ele se refere ao pecado especificamente de Adão e não de Eva. Além disso, ele enfatiza o fato de que a consequência do pecado de Adão passada à humanidade foi a morte. A princípio, Orígenes assume que a mortalidade humana é a consequência direta do pecado cometido por Adão.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.1.14
Mas, para que o que estamos dizendo fique mais claro, acrescentemos também o seguinte. O mesmo Apóstolo escreve aos Hebreus: “Além disso, Levi, que recebe dízimos, pagou dízimos. Pois ele ainda estava nos lombos de seu pai Abraão quando Melquisedeque o encontrou, ao voltar da matança dos reis”. Se, então, Levi, que nasceu na quarta geração depois de Abraão, é declarado como tendo estado nos lombos de Abraão, quanto mais todos os homens, os que nascem e nasceram neste mundo, estavam nos lombos de Adão quando ele ainda estava no paraíso! E todos os homens que estavam com ele, ou melhor, nele, FORAM EXPULSOS DO PARAÍSOquando ele próprio foi expulso de lá; e por meio dele A MORTE, que lhe sobreveio por causa da transgressão, PASSOU CONSEQUENTEMENTE também a eles, que habitavam em seus lombos. Por isso o Apóstolo diz com razão: “Pois, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados”. Assim, não foi nem da serpente que pecou antes da mulher, nem da mulher que se tornou transgressora antes do homem, mas por meio de Adão — de quem todos OS MORTAIS tiram a sua origem — que se diz que o pecado entrou, e por meio do pecado, a morte.
As declarações de Orígenes no trecho acima, a respeito da queda do homem, representam a essência daquilo que se acreditava na tradição oriental do Cristianismo. Os teólogos e cristãos, cuja tradição era preservada e transmitida pela língua grega, mantinham basicamente os mesmos sentimentos. Resumidamente, Adão cometeu alta traição e rompeu o compromisso com o Criador, sendo, por isso, expulso do Paraíso, e juntamente com ele, toda a humanidade foi obrigada a nascer e viver no exílio, e, além disso, passou a experimentar a mortalidade como um mal do qual não se poderia escapar.
Alguns identificam certa semelhança entre os pensamentos expressos aqui e visões posteriores desenvolvidas por Ambrosiaster e Agostinho. No entanto, a semelhança não vai além da evidente solidariedade da raça humana por ter sido banida do Paraíso juntamente com Adão. Além disso, pensamentos extremistas desenvolvidos posteriormente, obviamente que se apoiaram em declarações de cristãos anteriores, porém, isso não significa que o pensamento extremista, que veio depois, reflete com fidelidade os exatos mesmos sentimentos dos escritores que supostamente os inspiraram. No entanto, mesmo que o conjunto da obra de Orígenes seja claramente contra as afirmações radicais posteriores, principalmente de Agostinho, alguém que não esteja familiarizado com as obras e abordagens de Orígenes poderia advogar que Orígenes teria transmitido o material exegético necessário para a construção da futura doutrina agostiniana do “Pecado Original”. Contudo, estudiosos geralmente concordam que a ideia de “culpa herdada” não fora defendida por Orígenes. J. N. D. Kelly, afirmou:
“Mesmo nesse comentário [sobre Romanos]… toda a sua ênfase recai sobre os pecados pessoais dos indivíduos que seguiram o exemplo de Adão, em vez de sobre a sua solidariedade com a culpa dele; e, embora admita a possibilidade de estarmos neste vale de lágrimas porque estávamos nos lombos de Adão, ele não esconde a sua crença de que cada um de nós é particularmente banido do Paraíso por causa de nossas próprias transgressões pessoais.” (Early Christian Doctrines, edição revisada, Nova York: Harper & Row, 1978, p. 182)
O ponto central do que Orígenes está falando na porção acima é que “a humanidade foi expulsa do Paraíso juntamente com Adão”, e que a origem da mortalidade humana é devido ao pecado de Adão, que fez com que ele, e seus descendentes, perdessem o acesso a certos privilégios.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.1.15
Mas é certamente por um só homem que o pecado entrou, e por meio do pecado, a morte — aquele que o próprio Apóstolo chama em outro lugar de “o primeiro homem, da terra, terreno”, enquanto o segundo foi “celestial”. É nesta passagem que ele nos exorta a levar a imagem do celestial, depois de despojarmos a imagem do terreno; isto é, vivendo segundo a Palavra de Deus, sejamos renovados e reformados no homem interior segundo a imagem de Deus, que o criou. Este homem, que já está sendo reformado e restaurado na imagem de Deus, não é mais terreno nem deste mundo, mas a sua cidadania é dita estar no céu; e, PORTANTO, a morte não pode passar a ele, segundo aquele que disse: “Mas vós não sois deste mundo”.
Orígenes defende que, ao passo que o crente vive segundo a Palavra de Deus, ele estará reformando ou restaurando, em seu interior, a imagem de Deus que o criou como ele. E todo aquele que está no processo de restauração da imagem divina em seu interior, não deve mais ser considerado como terreno ou deste mundo, e sim como um homem celestial.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.1.18, 19
(18) “Portanto, por um só homem o pecado entrou no mundo”. Mas, como dissemos, o “mundo” deve ser entendido ou como o lugar em que os homens habitam, ou como a vida terrena e corporal na qual a morte tem lugar. No que diz respeito a este mundo, isto é, no que diz respeito à vida terrena, os santos afirmam terem sido crucificados e terem morrido para ela. (19) “E por meio do pecado”, diz ele, “a morte”. Sem dúvida, esta é a morte da qual o profeta diz: “A alma que pecar, essa morrerá”. Desta morte poder-se-ia dizer com razão que a morte corporal é apenas uma sombra. Pois onde quer que uma vá, a outra necessariamente a segue, assim como a sombra segue o corpo.
Em seu estilo, tipicamente alegórico, Orígenes mescla conceitos de forma subjetiva e tenta conduzir o leitor através do seu raciocínio, enquanto, ao mesmo tempo, tenta explicar sua forma de entender a morte espiritual e a morte física de todo homem que nasce neste mundo. Orígenes inicialmente diz que “o pecado entrou neste mundo físico, e se tornou a realidade vivida pelos homens carnais e mundanos, e que, consequentemente, todos morreram espiritualmente, pois, cada um que peca, morre. Os que por ele são chamados de santos, são aqueles que abandonam o mundo, tendo sido crucificados com Cristo e renascendo para uma nova vida. Por fim, Orígenes afirma que a morte física experimentada pelo homem não passa de um reflexo da morte espiritual, que, por sua vez, é a consequência do pecado cometido por cada um”.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.1.19
Mas se alguém objetar que o Salvador não cometeu pecado algum, e a morte não chegou à sua alma por meio do pecado, e mesmo assim ele suportou a morte corporal, responderemos que, assim como o Salvador, embora não tenha cometido pecado, mas tenha se tornado pecado por nós ao assumir a carne por nossa salvação, assim também, embora não devesse a morte a ninguém e não estivesse sujeito a ela, mesmo assim, por nossa salvação, assumiu livremente a morte daquela condição que tomou sobre si.
No trecho acima, Orígenes menciona a experiência humana de Cristo. Como havia acabado de explicar que a morte física era uma sombra da morte espiritual, que, por sua vez, seria consequência de pecado cometido, então, ele se propõe a explicar como e porque Jesus morreu fisicamente. Jesus não cometeu pecado e por isso ele não morreu espiritualmente como consequência deste pecado, porém, mesmo assim, ele morreu fisicamente. Orígenes expõe seu entendimento sobre o assunto citando o texto de Paulo em II Coríntios 5.21, afirmando que Jesus se tornou pecado por nós ao assumir um corpo semelhante ao nosso, e que tudo isto foi com o objetivo de conquistar a nossa salvação. Assim, Jesus aceitou livremente a morte como consequência da condição na qual se encontrava, ao tomar sobre si a nossa natureza terrena.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.1.20
Agora vejamos como “a morte passou a todos os homens”. Ele diz: “porque todos pecaram”. Com uma afirmação absoluta, o Apóstolo declarou que a morte do pecado passou a todos os homens porque todos pecaram. Como ele diz em outro lugar: “Pois todos pecaram e carecem da graça de Deus”.
O raciocínio lúcido e consistente de Orígenes conclui de que forma a morte “passou aos outros homens”, embora ele já houvesse dito isso nos parágrafos anteriores, como acabamos de ler. A pergunta é: Como a morte passou aos outros homens? Ora, a morte passou aos outros porque todos os outros também pecaram! Orígenes declara que a afirmação de Paulo quanto ao assunto deveria ser considerada como absoluta. A morte, que é consequência direta do pecado, passou a todos os homens porque todos os homens pecaram. Orígenes aproveita para lembrar a seus leitores que o próprio Paulo já havia dito a mesma coisa em outro lugar: “todos os homens pecaram e por isso carecem da graça de Deus”.
Observe que embora Orígenes tenha falado sobre a humanidade estar “nos lombos de Adão quando ele pecou” e que por isso “tenha sido juntamente com ele banida do Paraíso”, ele não segue a linha de raciocínio que ensina que todos os seres humanos já nascem culpados, como se já tivessem cometido pecado antes mesmo de nascer, como se tivessem pecado no mesmo dia que Adão pecou, ou seja, como se tivessem “pecado em Adão”. Não, Orígenes não segue essa interpretação completamente louca e sem sentido. Ele considera que cada um peca e que, por isso, cada um morre. A frase de Paulo “todos pecaram”, para Orígenes, deve ser interpretada exatamente como ela está sendo proferida, ou seja, “todos pecaram” e não apenas um. Se você ainda tem dúvida de que é isso mesmo que Orígenes tem em mente, observe a explicação que ele passa a dar para justificar sua declaração de que “todos pecaram”, inclusive, os grandes santos do passado.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.1.20, 21
Portanto, mesmo que chames Abel de justo, ele não pode ser desculpado. Pois “todos pecaram”. Pois por que foi somente “depois de dias” que ele ofereceu o sacrifício dos primogênitos do seu rebanho e não imediatamente?Por que o ofereceu depois de Caim e não antes dele?Mesmo que cites Enos, que “esperou invocar o nome do Senhor”, ainda assim ele simplesmente esperou. E por que não invocou imediatamente?Em vez disso, ele negligenciou e adiou (…) E mesmo que examines cuidadosamente o caso de Noé, descobrirás que só no seu quingentésimo ano está escrito que “Noé encontrou graça diante do Senhor Deus”, que “era homem justo em sua geração” e que “agradou a Deus”. Na minha opinião,se ele tivesse merecido isso antes, a Sagrada Escritura certamente nunca teria silenciado sobre o assunto. Além disso, se alguém quiser acusá-lo de ter bebido vinho, ficado embriagado e nu, encontrará também em todas essas ações que não foi sem razão que o Apóstolo disse: “porque todos pecaram” (…) O que direi de Abraão, a quem foi dito: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai?” Certamente isso não lhe teria sido dito se ele tivesse podido agradar a Deus na casa de seu pai. (21) Mas não é necessário, com o grande perigo que isso traz, enumerar cada um dos santos nesses assuntos. Pois basta a opinião que afirma que a morte passou a todos os homens, tanto a do Apóstolo quanto a daquele que disse: “Ninguém está puro de impureza, mesmo que sua vida dure apenas um dia”.
Ao mencionar partes da vida de Noé, Orígenes disse: “se alguém quiser acusá-lo de ter bebido vinho e ter ficado embriagado, encontrará também nestas ações que não foi sem razão que o apóstolo disse que todos pecaram”. Orígenes não está interpretando Romanos 3.23 como fazem os que dependem da teologia agostiniana, supondo que Paulo estava querendo dizer que “todos pecaram” mesmo antes de terem nascido. Ora, então como Orígenes está interpretando o texto de Paulo que diz que todos pecaram? Bem, pelo que parece, está interpretando exatamente do jeito que Paulo falou: Todos pecaram, um por um, cada um, todos! Exatamente por esta razão ele cita o que considera serem pecados praticados pelos personagens da lista que ele apresenta.
Além disso, observe que é neste contexto que Orígenes cita a frase da qual estamos tratando. Seu argumento é o seguinte: Não é preciso enumerar todos os santos do passado para demonstrar que cada um deles obviamente cometeu algum erro na vida, afinal de contas, a morte não passou a todos eles? Pois, é como se diz, “ninguém está isento de impureza, mesmo que sua vida dure apenas um dia”. Orígenes não estava usando a frase para justificar a ideia de uma possível culpa herdada de Adão, ou para defender uma suposta depravação total desenfreada na humanidade, mas apenas para indicar que o homem, dentro deste corpo, nesta realidade, não está completamente isento do contato com a impureza, e que, por isso, pode ceder a ela e pecar. Observe que Orígenes menciona pecados pontuais dos homens que listou, ele não os considera pecadores num sentido banal e genérico.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.1. 22
Além disso, ele não disse que o pecado veio a todos os homens, mas “no mundo”, e a morte, por outro lado, não “no mundo”, mas “a todos os homens”, e não “veio”, mas “passou”. Não creio que Paulo tenha usado esta variedade de expressões aqui em vão. Penso, portanto, que “mundo” designa aqui certas pessoas terrenas, aquelas que permanecem num modo de vida terreno. Por outro lado, ele chama de “homens” aqueles que já começam a conhecer e compreender que foram feitos à imagem de Deus. Ele diz que o pecado entrou naqueles que são chamados “o mundo”, isto é, os que são terrenos, e em nenhum momento registra a sua solução. Mas naqueles a quem quer que sejam entendidos como “homens”, ele diz que o pecado passou, isto é, que esteve presente, mas pela conversão e arrependimento foi expulso, passou adiante e não permaneceu mais neles.
Como vemos, Orígenes não ensinava a ideia agostiniana de culpa transferida, como se isso fosse imputado judicialmente. Orígenes também não defendia a ideia de que todos os seres humanos são condenados desde o nascimento por causa de um pecado pessoal de Adão que lhes fosse atribuído como se eles mesmos o tivessem cometido. Essa será uma formulação ocidental posterior, desenvolvida radicalmente e principalmente por Agostinho.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.5.4
No comentário de Orígenes da Epístola de Paulo aos romanos, a frase sobre a qual estamos tratando vai surgir pela segunda vez no capítulo cinco do quinto livro da sua obra. Separei alguns parágrafos anteriores ao momento em que a frase aparece para que possamos seguir o raciocínio de Orígenes dentro do contexto. Acompanhe.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.4.2
Já dissemos acima que, por meio da transgressão de Adão, foi dado, por assim dizer, um certo acesso pelo qual o pecado, ou a morte do pecado, ou a condenação, se espalhou a todos os homens. Assim, em contraste, Cristo abriu um acesso à justificação, através do qual a vida poderia entrar nos homens. É por isso que ele dizia de si mesmo: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo”.
Acredito que aqueles que ousam afirmar que Agostinho e Orígenes defendiam as mesmas ideias de queda e pecado original, provavelmente nunca leram de fato os textos de Orígenes. Talvez estes calvinistas tenham tido conhecimento de algumas das suas frases, e por sentirem alguma semelhança entre uma coisa e outra, acabaram colecionando-as como se fizessem parte do seu acervo de comprovações anacrônicas do mesmo pessimismo e determinismo agostiniano. Sem considerar o contexto, como sempre acontece, estes calvinistas precipitaram-se supondo que Orígenes tratava das mesmas ideias que eles defendem.
Observe que, na citação acima, Orígenes não afirma, com a velha rigidez agostiniana, que o pecado de Adão teria determinado a desgraça e a depravação total e irreversível da humanidade, supostamente deixando o homem completamente incapaz de fazer qualquer coisa para voltar a ter um relacionamento com Deus. Ao contrário disso, Orígenes declara que pela transgressão de Adão, foi dado, por assim dizer, certo acesso por meio do qual o pecado ou a morte ou a condenação, se espalhou aos outros homens. Orígenes não tem qualquer interesse em ser taxativo e radical a respeito do que parece ter acontecido com a humidade por causa do pecado de Adão. Ele diz apenas que ao pecado, ou à morte, ou à condenação “foi dado certo acesso” à humanidade. Todavia, em sentido oposto, a obra de Cristo também abriu um acesso à justificação. Acesso aberto este, através do qual, a vida poderia voltar aos homens.
Orígenes segue uma teologia cristã muito mais justa e equilibrada, reconhecendo a perda que a humanidade experimentou pelo erro de Adão, mas ao mesmo tempo, afirmando também que o problema foi resolvido por meio de Cristo, que trouxe ao homem a garantia de que “Se alguém entrar pela porta, será salvo.”
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.4.2
Mas já foi dito o suficiente sobre estas coisas acima. No entanto, deve-se notar que ele não disse“a condenação da morte veio a todos os homens”, como disse “a justificação da vida vem a todos os homens”. Ao contrário, ele disse apenas “condenação”, a fim de demonstrar, obviamente, o quanto o dom concedido a todos é mais abundante do que a transgressão. Como, ou melhor, qual a condenação viria a todos os homens, certamente deve ser visto. Talvez nos baste, segundo a interpretação simples, dizer que a condenação da transgressão é aquela morte comum que chega a todos e chegará a todos, mesmo que pareçam justos.
A despeito de qual realmente tenha sido a condenação em questão, que ainda será tratada por Orígenes na sequência do texto, ele não deixou passar em branco a oportunidade de demonstrar que mesmo que a condenação tenha sido para todos, o texto de Paulo não explicitou de qual condenação (que veio para todos) ele estava falando. Por outro lado, porém, ao falar da justificação, foi dito com todas as letras que a justificação da vida vem para todos os homens. Como um ato de injustiça de um homem que rompeu seu compromisso com Deus poderia ter o poder de causar a condenação de todos os homens, e um ato de justiça mais sublime e mais elevado do próprio filho de Deus, em submissão plena, que se ofereceu como sacrifício ao Todo-Poderoso, não poderia reverter o que foi quebrado, trazendo a justificação que dá vida de volta para absolutamente todos os homens?
Por fim, Orígenes volta à sugestão simples, tendência universal da tradição cristã oriental, dizendo que, talvez, segundo a interpretação mais simples, seja suficiente apenas dizer que a condenação da transgressão é aquela morte comum que chega e chegará a todos.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.4.3
Quando Adão transgrediu, está escrito que o Senhor Deus o expulsou do paraíso e o estabeleceu naquela terra oposta ao paraíso das delícias. E esta foi a condenação pela sua transgressão, que sem dúvida se estendeu a todos os homens. Pois todos foram formados naquele lugar de humilhação e no vale de lágrimas; seja porque todos os que nascem dele estavam nos lombos de Adão e foram igualmente expulsos com ele, seja, de alguma outra maneira inexplicável conhecida apenas por Deus, porque cada pessoa parece ter sido expulsa do paraíso e ter recebido a condenação.
Segundo Orígenes, o banimento e o exílio do jardim das delícias, sendo colocado em terra de condições opostas àquela, parece ter sido a condenação recebida por Adão por sua transgressão. Todos os homens que vieram a nascer depois do banimento, já nasceram no exílio. Obviamente que pelas condições deploráveis nas quais os descendentes de Adão nasceram, eles passaram a enfrentar dificuldades maiores, inclusive em seu relacionamento com Deus, porém, em nenhum momento isso significou que o canal de comunicação havia sido fechado para sempre.
N. P. Williams, no livro As Ideias da Queda e do Pecado Original, na página 228, oferece um resumo desta passagem do livro e da possível perspectiva de Orígenes: “Aqui são indicados dois métodos alternativos de conceber uma Queda pré-natal e transcendental: o primeiro é a hipótese de uma Queda coletiva pré-natal de toda a raça humana, contida em Adão, desde o lugar celestial; o segundo é a teoria que já foi exposta em seu livro Tratado Sobre os Princípios, ou seja, a de uma série interminável de quedas individuais neste vale de lágrimas, que é o mundo da matéria.”
Pois, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também pela obediência de um só muitos serão feitos justos.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.5.2
Pode de fato ser que, segundo os pontos que observamos acima, Paulo, querendo encobrir os mistérios mais secretos, àqueles que em algumas passagens chamou de “todos”, em outras colocou como “muitos”, para que, porventura, caso tivesse dito: “Pela desobediência de um só todos foram feitos pecadores”, e então, por necessidade lógica, precisasse ter acrescentado: “assim também pela obediência de um só todos serão feitos justos”, não parecesse, diante da segurança oferecida por uma promessa desse tipo, relaxar as mentes daqueles que é mais conveniente manter sob o temor. E por isso também nós, que preservamos o conselho deste fiel e sábio dispenseiro da palavra de Deus, devemos nos esforçar ainda mais para explicar como é que pela desobediência de um só, não todos, mas muitos foram feitos pecadores. Pois não haverá dificuldade em entender como, pela obediência de um só, não todos, mas muitos são feitos justos, segundo o que o Senhor diz no Evangelho: “Porque muitos virão do oriente e do ocidente e se reclinarão com Abraão, Isaac e Jacó no Reino de Deus”. E ele não disse: “Todos virão”. Mas precisamos mostrar como pode ser que muitos, e não todos, pareçam ser pecadores, embora o mesmo Apóstolo diga que “todos pecaram”.
Orígenes, genial como sempre, chama atenção para o fato de que o texto bíblico afirma que, pela desobediência de um só, muitos foram feitos pecadores, não todos, mas muitos. Não preciso nem dizer que o simples fato de Orígenes levantar esta questão como algo digno de nota, já demonstra claramente que ele não defendia as mesmas futuras loucuras radicais de Agostinho, correto? Os caminhos de interpretação pelos quais a mente de Orígenes percorria quanto ao assunto da Queda e da Redenção do homem, não eram os mesmos de Agostinho em seus últimos anos de vida.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.5.3
Uma coisa é ter pecado, outra coisa é ser pecador. É chamado de pecador aquele que, cometendo muitas transgressões, já chegou ao ponto de tornar o ato de pecar um hábito e, por assim dizer, uma prática constante. Da mesma forma, por outro lado, não é chamado de justo aquele que uma ou duas vezes praticou algum ato justo, mas aquele que se comporta continuamente com justiça, mantém a justiça em uso e a torna habitual. Pois se alguém é injusto em quase todos os outros assuntos, mas realiza alguma obra justa uma ou duas vezes, certamente se dirá que ele agiu com justiça naquela obra em que praticou a justiça; no entanto, nem por isso será chamado de homem justo. Da mesma maneira, será dito que um homem justo pecou se em algum momento cometeu algo que não é lícito. Mas não será rotulado como pecador por causa disso, uma vez que não se apega à prática e ao hábito de pecar. Assim como não é chamado de médico aquele que sabe colocar levemente uma atadura sobre a pele de uma ferida na cabeça, ou que consegue aliviar o inchaço de uma lesão com água quente, embora isso pareça pertencer à arte da medicina. Antes, é chamado de médico aquele que mantém o uso, o estudo e o ensino da ciência médica.
Olhando para o tempo verbal apresentado por Paulo, quando disse “muitos se tornaram pecadores”, Orígenes raciocinou de forma simples e direta: Nem todos os homens do passado viveram ou morreram como pecadores, muitos foram santos e justos. Desta forma, pensou Orígenes, faz sentido que Paulo tenha dito que muitos se tornaram pecadores, porém, não todos. Até porque, embora tenham cometido algum pecado ao longo da vida, seus pecados pontuais não os fizeram ser aquilo que praticaram, pois seu comportamento habitual foi justo e reto diante de Deus.
Não duvidaria nada de que, por causa disso, os sábios calvinistas da atualidade ousassem chamar Orígenes de pelagiano, pois, tudo o que não entendem, e que pareça demonstrar algum tipo de possível virtude humana, para eles, parece ser preciso rotular de “pelagiano”. Afinal de contas, o homem que foi a maior referência teológica deles foi atormentado e oprimido por um homem chamado Pelágio, e qualquer coisa que soe diferente das ideias agostinianas, deve ser sentido por eles como uma espécie de “força pelagiana opressora”. Faz todo o sentido.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.5.4
Por tudo isso, creio que tenha sido suficientemente demonstrado que uma coisa é pecar e outra coisa é ser pecador. Pois pode acontecer que todos os homens cometam pecado, mesmo que sejam santos, uma vez que “ninguém está isento de impureza, nem mesmo se sua vida durar apenas um dia”. Pois quem há que não peque, seja por ação, seja por palavra, ou, se for extremamente cauteloso, ao menos em pensamento? Portanto, como eu disse, todos serão merecidamente considerados como tendo cometido pecado, mas nem todos se tornaram pecadores — apenas muitos. E por um padrão semelhante, muitos serão considerados justos, mas não todos, embora todos possam praticar algo justo.
Orígenes argumenta: Uma coisa é pecar, outra coisa é virar um pecador, pois, pode acontecer que todos os homens cometam pecado. Por que Orígenes acredita que seria possível que todos os homens possam vir a pecar, ainda que sejam homens santos? Ele mesmo explica, a razão disso é que “ninguém está isento do contato com a impureza, nem mesmo que sua vida venha a ser de apenas um dia”. Pela forma como Orígenes construiu seu argumento, você acha mesmo que sua intenção era afirmar exatamente as mesmas coisas que os calvinistas, que usam sua frase para provar que o homem é totalmente depravado e irremediavelmente corrupto? Foi essa a impressão que Orígenes lhe passou com as palavras escolhidas por ele e pelo contexto no qual ele usou a frase? Isso a Globo não mostra, não é mesmo?
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.5.5
No entanto, o Apóstolo também preserva bem o cálculo do tempo. Pois, uma vez que ele se referiu ao passado como o tempo em que muitos foram feitos pecadores, transferiu para o futuro o tempo em que muitos serão feitos justos, sabendo, sem dúvida, que com o progresso da proclamação do Evangelho a multidão dos justos cresceria. Mas que muitos foram justos mesmo antes da vinda do Salvador, o próprio Senhor testemunha nos Evangelhos quando diz: “Muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes” (…) Portanto, “pela desobediência de um só muitos foram feitos pecadores”. Aqui os muitos pecadores devem ser interpretados de acordo com aquela observação que expusemos acima acerca daquele que peca e daquele que é pecador.
Embora o contexto do segundo momento em que a frase do nosso estudo aparece no comentário da epístola aos romanos já tenha ficado suficientemente claro, achei por bem acrescentar aqui mais alguns parágrafos como bônus para o deleite de vocês. Observe que após ter dito como ele considera aqueles a quem as Escrituras chamam de justos e pecadores, Orígenes acrescenta o que vem a seguir.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.5.6
Mas suponhamos que alguém se nos oponha dizendo que o próprio Apóstolo diz sobre si mesmo: “Cristo Jesus veio a este mundo para salvar pecadores, dos quais eu sou o principal”,como se parecesse chamar a si mesmo de pecador. Então diremos que uma coisa é alguém ser designado como pecador sob a persona da Escritura, de um profeta ou do Senhor, mas outra coisa é um homem justo tornar-se acusador de si mesmo e se humilhar, para que seja exaltado por Deus. Embora Paulo, ao dizer que havia perseguido a Igreja de Deus, lutado contra ela e até arrastado homens e mulheres para lançá-los na prisão, tenha dito que havia feito isso por ignorância e que por isso veio a alcançar misericórdia, ainda assim deve-se admitir que, ENQUANTO FAZIA ESSAS COISAS, ele tinha de ser chamado de pecador, talvez não sem merecimento.
Orígenes responde antecipadamente a qualquer calvinista que possivelmente poderia retrucar às suas palavras de que nem todo aquele que peca é pecador, e nem todo aquele que faz o que é certo, pode ser considerado como justo. Aos que tivessem a intenção de usar o texto de Paulo para refutar os argumentos de Orígenes, ele lhes responde: “Obviamente que enquanto Paulo fazia aqueles coisas reprováveis contra a Igreja de Cristo ele tinha mesmo de ser chamado de pecador e a razão disso é muito simples, ele merecia o título”. Observe que a lógica de classificação de Orígenes baseia-se no padrão de comportamento que faz a pessoa merecer ser chamada de justa ou de pecadora.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.5.7
Mas, para que os fundamentos desta distinção que demos entre aquele que peca e aquele que é pecador se tornem ainda mais claros, considerai Caim que, embora fosse abertamente um pecador, ainda assim fez algo justo, pelo que o Senhor lhe disse: “Se trouxeres uma oferta corretamente”. E Faraó faz algo justo quando diz: “O Senhor é justo, mas eu e o meu povo somos ímpios”; mas nem por isso será chamado de homem justo. Encontrareis nas Sagradas Escrituras muitas coisas desse tipo, nas quais descobrireis tanto que o homem justo cometeu pecado quanto que o pecador praticou algumas coisas justas. No entanto, não encontrareis nem o homem justo sendo chamado de pecador porque pecou em alguma coisa, nem o pecador sendo designado como justo porque fez algo justo.
Assim, pois, Adão ofereceu aos pecadores um modelo através da sua desobediência; mas Cristo, ao contrário, deu aos justos um modelo pela sua obediência. Como está escrito em outra passagem: “Mas vós vos tornastes obedientes de coração àquele mesmo modelo de doutrina ao qual fostes confiados.” É também por esta razão que ele “se tornou obediente até a morte”, a fim de que aqueles que seguem o exemplo da sua obediência sejam feitos justos pela própria justiça, assim como aqueles outros foram feitos pecadores ao seguir o modelo da desobediência [de Adão]. (5.5.9)
Pelo que você viu até aqui, você acha mesmo que se estes calvinistas que se apropriam das frases de Orígenes para sugerir aos seus ouvintes que ele e Agostinho eram parceiros das ideias, se eles soubessem, de fato, o que Orígenes pensava e dizia, você acha que eles iriam ousar fazer tais declarações em público? No texto acima Orígenes está falando sobre “Adão ter oferecido aos pecadores um modelo de desobediência”, ao passo que o Senhor Jesus, por outro lado, foi obediente até a morte para que “aqueles que seguem seu exemplo de obediência sejam feitos jutos por sua própria justiça”. Sinceramente, não vejo como um calvinista em seu “perfeito juízo”, se é que isso é possível, seria capaz de querer voluntariamente associar Orígenes com Agostinho. Afinal de contas, será que eles não percebem que Orígenes está mais para um pelagiano opressor do que qualquer outra coisa? Hash-tag, Fica a dica.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.9.4
Chegamos ao terceiro momento e penúltimo do quinto livro, onde Orígenes usará a mesma frase em seu comentário versículo por versículo da epístola de Paulo aos romanos.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.9.4
Pois Cristo morreu para o pecado uma vez por todas, de tal modo que não cometeu absolutamente nenhum pecado, nem se achou engano na sua boca. Isso não é possível encontrar em nenhum outro homem. “Pois ninguém está completamente puro em relação ao pecado, nem mesmo se sua vida durar apenas um dia”. Portanto, não nos é possível morrer essa mesma morte que Jesus morreu para o pecado, de modo que ficássemos completamente alheios ao pecado. No entanto, é possível nos identificarmos com ele na semelhança da sua morte, para que, imitando-o e seguindo os seus passos, nos guardemos do pecado. Isto, portanto, é algo que a natureza humana é capaz de receber: ela pode se identificar na semelhança da sua morte, quando, ao imitá-lo, também não pratica o pecado. Mas estar absolutamente e inteiramente alheio ao pecado, pertence somente a Cristo.
Observe que nesta ocasião a frase comumente usada por Orígenes apresenta uma pequena variação. Em vez de trazer alguma palavra com a ideia de “mancha” ou “impureza”, o texto traz especificamente a palavra “pecado”. A versão em inglês da qual tenho feito as traduções diz literalmente “pois ninguém está livre do pecado, nem mesmo se a sua vida fosse de um dia”. Aos curiosos, devo dizer que não saberia informar se o texto grego original foi preservado ou sequer se ainda existe, provavelmente não. Também não me preocupei em procurar o texto latino da tradução de Rufino para averiguar se houve uma tradução precisa para o inglês. Embora a princípio possa confundir a qualquer leitor desavisado, pois, como vimos, em outras ocasiões Orígenes havia usado a mesma frase para distinguir “impureza” de “pecado” e aqui ele coloca exatamente a palavra “pecado” no lugar de “impureza”, acredito que esta troca foi proposital. Digo isso porque o próprio contexto parece apontar nesta direção, o que faz com que sua abordagem seja autoexplicativa. Logicamente que os contextos remotos conversam entre si, ainda mais por se tratarem de textos do mesmo autor, porém, sendo ele mesmo o soberano sobre sua própria fala, ele pode se expressar como quiser em cada momento em questão, e por isso, o contexto imediato tem a preeminência sobre o contexto mais distante.
Nesta ocasião, Orígenes tem a pretensão de distinguir as experiências de Cristo e do crente em relação à presença do pecado no corpo humano. Pelo fato de Cristo ter morrido, ele ficou completamente livre do contato com o pecado, o crente, porém, enquanto no corpo, não poderia “morrer para o pecado” exatamente da mesma forma. Então, sendo assim, no que Orígenes acredita que o crente pode imitar a Cristo em relação ao pecado? Ele pode se identificar com ele “na sua morte para o pecado”, no sentido de que o crente pode parar de pecar, ainda que o pecado continue presente em seu corpo.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.9.9
No entanto, precisamos examinar novamente com maior atenção o que ele quis dizer com a expressão “o corpo do pecado”. Parece haver aqui uma dupla compreensão: ou ele está se referindo ao nosso corpo como o corpo do pecado, ou ele está dizendo que o próprio pecado em si possui certo corpo que precisa ser destruído naqueles que não devem mais ser escravos do pecado. Como ambos os sentidos podem ser admitidos nesta passagem, de cada um deles exporemos o que nos parece. Se assumirmos que o pecado tem o seu próprio corpo, isso poderia significar que, assim como se diz daqueles que foram restaurados no Novo Homem: “Vós sois o corpo de Cristo e membros desse corpo individualmente”, da mesma forma poderia ser dito daqueles que ainda não crucificaram o Velho Homem que eles são “o corpo e os membros do pecado”. Neste caso, a cabeça deste corpo seria o diabo, assim como Cristo é a cabeça do seu Corpo, a Igreja, “que não tem mancha nem ruga”.
Orígenes oferece duas interpretações possíveis para a expressão “corpo do pecado”. No primeiro caso, a expressão poderia estar se referindo à condição atual do corpo humano em seu estado de fraqueza, corrupção e mortalidade, e a segunda interpretação seria que a expressão “corpo do pecado” poderia estar se referindo ao conjunto dos vícios e paixões do homem, tendo o diabo como cabeça deste corpo. A solução oferecida por Orígenes seria a crucificação do “Velho Homem” através da cruz de Cristo, para que assim a pessoa deixe de ser escrava desses membros do pecado, e passe a pertencer ao Novo Homem que ressuscitou, cuja cabeça é Cristo.
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.9.10
Mas se, em vez disso, o Apóstolo deve ser entendido como tendo se referido AO NOSSO CORPO como o “corpo do pecado”, isso certamente deve ser considerado em concordância com o entendimento que Davi expressa a respeito de si mesmo quando diz: “Pois fui concebido em iniquidades e em pecados minha mãe me concebeu”. E o próprio Apóstolo diz em outro lugar: “Quem me livrará do corpo desta morte?” e NOVAMENTE CHAMA NOSSO CORPO de “corpo de humilhação”. Além disso, ele diz do Salvador em certa passagem que ele veio “na semelhança da carne do pecado, para que, com respeito ao pecado, condenasse o pecado na carne”. Com isso ele mostra que A NOSSA CARNEé de fato uma carne de pecado, mas a carne de Cristo é semelhante à carne do pecado. Pois ele não foi concebido da semente de um homem, mas o Espírito Santo desceu sobre Maria e o poder do Altíssimo a cobriu com sua sombra, para que o que nascesse dela fosse chamado Filho do Altíssimo. Dessa forma, então, Paulo, pela inefável sabedoria de Deus que lhe foi dada, e olhando para algo secreto — sabe-se lá o quê —, chama o nosso corpo de “o corpo do pecado”, “o corpo da morte” e “corpo de humilhação”. Além disso, Davi, instruído nos mistérios celestiais pelo mesmo Espírito, falava DO CORPO: “E me fizeste descer ao pó da morte”; e novamente: “A nossa alma foi levada ao pó”. Jeremias também, consciente de um mistério semelhante pelo Espírito de Deus, diz em suas Lamentações que todos os homens são cativos da terra, NATURALMENTE POR CAUSA DO CORPO. Ele diz: “para que humilhasse todos os cativos da terra debaixo dos seus pés, porque perverteram o direito do homem na presença do Altíssimo e condenaram um homem no seu julgamento”.
Esta última citação pode parecer um pouco mais longa que o normal, mas acredito que desta forma conseguimos ter uma clareza ainda maior da perspectiva de Orígenes quanto ao assunto por causa do contexto. Observe como ele conecta todas as coisas que foram ditas afunilando-as na ideia de que o pecado está presente na condição atual do nosso corpo. É a isso que Orígenes se referia quando disse que “ninguém está livre do pecado, nem mesmo se a sua vida for de um dia”, pois, obviamente, a vida desta pessoa seria vivida dentro deste corpo considerado como “o corpo do pecado”, “o corpo da morte” e “corpo de humilhação”. Note também que quando Orígenes mencionou o famoso Salmo 51, comumente usado pelos calvinistas para “provar a teologia agostiniana do pecado original”, Orígenes não o citou como os calvinistas supõem que ele fazia. Jamais passou pela cabeça de Orígenes que Davi estaria dizendo que fora “concebido em pecados e iniquidades” para justificar a ideia de ser “totalmente depravado deste o ventre de sua mãe”. Orígenes não tinha nenhuma outra pretensão a não ser chamar a atenção para a realidade atual do nosso corpo. Exatamente por isso, estivesse ele falando de Jesus, dos santos e justos do passado, ou mesmo das criancinhas recém nascidas, ninguém jamais poderia estar isento do contato com a sujeira, da impureza ou do pecado, pois, enquanto estivermos dentro deste corpo de humilhação, o corpo do pecado, sempre teremos que enfrentar esta realidade.
As palavras de Orígenes na citação acima soam bem parecidas com algumas das declarações do apóstolo Paulo quando dizia: “O pecado habita em mim, isto é, não em mim, mas na minha carne” (Romanos 7.17, 18), ou quando afirmava que “mesmo que Cristo esteja em nós, o corpo, na verdade, está morto por causa da presença do pecado, ainda que nosso espírito esteja vivo por causa da justiça” (Romanos 8.10).
Comentário da Epístola aos Romanos, 5.9.11
Portanto, o nosso corpo é o corpo do pecado, pois não está escrito que Adão conheceu sua mulher Eva e se tornou pai de Caim até depois do pecado. Além disso, até mesmo na Lei é ordenado que se ofereçam sacrifícios pelo menino que nasceu: um par de rolas ou dois pombinhos; um dos quais era oferecido pelo pecado e o outro como holocausto. Por qual pecado é oferecida essa pomba? ACASO UMA CRIANÇA RECÉM-NASCIDA SERIA CAPAZ DE PECAR?E, no entanto, existe um pecado pelo qual se ordena que sejam oferecidos sacrifícios, e É POR ESTA RAZÃO que se nega que alguém esteja puro, mesmo que sua vida dure apenas um dia. Portanto, DEVE-SE CRER QUE FOI ACERCA DISSO que Davi também disse o que registramos um pouco acima: “em pecados minha mãe me concebeu”. Pois, segundo a narrativa histórica, nenhum pecado de sua mãe é declarado. É também POR ESTA RAZÃOque a Igreja recebeu dos apóstolos a tradição de dar o batismo até mesmo às criancinhas. Pois aqueles a quem foram confiados os segredos dos mistérios divinos sabiam que em todos existe a mancha inata do pecado, a qual precisava ser lavada pela água e pelo Espírito. POR CAUSA DESSA MANCHA, também O PRÓPRIO CORPO é chamado CORPO DO PECADO; não por causa de pecados que a alma teria cometido quando estava em outro corpo, como imaginam aqueles que introduzem a doutrina da metensomatose (a transmigração das almas, ou reencarnação). Mas porque a alma foi formada no corpo do pecado, no corpo da morte e da humilhação, e como ele disse: “Abaixaste a nossa alma até o pó”. Por ora, são estas as coisas que puderam nos ocorrer a respeito do “corpo do pecado”. Mas qual das duas explicações concorda com o sentido apostólico, ou se não é nenhuma delas, que o leitor examine.
Pergunte-se se as afirmações acima combinam com a visão pessimista defendida pelos agostinianos. Os calvinistas que insistem em colecionar frases de Orígenes para “comprovar suas afirmações” certamente não conhecem metade do que Orígenes realmente pensava. Isso é óbvio e muito claro. Tolos os que neles acreditam.