Orígenes e a Homilia de Lucas 2.21-24
É comum que alguns calvinistas gostem de citar textos de Orígenes para defender suas interpretações pessimistas sobre o gênero humano como um todo. Uma das razões porque fazem isso é tentar aproximar a ideia do pecado original de Agostinho com as ideias anteriores de outros escritores cristãos. Alguns já sugeriram pontos de semelhança entre declarações de Orígenes com Agostinho, porém, nenhuma semelhança aparente justificaria a defesa de que Orígenes acreditasse na mesma “maldição hereditária” ou na “herança da culpa” transmitida por Adão a todo ser humano, que foi defendida por Agostinho.
Quando calvinistas usam frases de Orígenes para defender suas visões pessimistas sobre o homem, obviamente que eles não fazem isso a partir da perspectiva do próprio Orígenes. Eles apenas sequestram frases e textos de Orígenes em prol da sua causa. As frases de Orígenes que eles gostam são aquelas que estão fora de seu contexto original, pois só assim eles conseguem transformá-las no que quiserem.
Em recente debate com um calvinista vi meu debatedor sacar da cartola a seguinte frase: “Nenhum homem está limpo de mancha, nem mesmo que a sua vida tenha durado apenas um único dia”. Seu objetivo seria provar que esta frase de Orígenes mostrava que ele tinha o exato mesmo sentimento de Agostinho a respeito do homem. De fato, ele defendeu que Orígenes havia dito isso referindo-se às crianças e que seu objetivo teria sido explicar porquê os bebês recém nascidos deveriam ser batizados nas águas. Com isso, o calvinista pensava estar provando que o motivo de Agostinho exigir o batismo de bebês recém nascidos seria o mesmo que havia levado Orígenes a fazer tal declaração. No entanto, como iremos observar, nada poderia estar mais longe da verdade do que manter esta ideia e este sentimento. É necessário que se diga que Agostinho afirmava que um bebê recém nascido que morresse sem o batismo estaria eternamente condenado no inferno, coisa que Orígenes mesmo nunca afirmou, muito pelo contrário, como veremos em breve.
Primeiro, vejamos alguns exemplos das ideias de Agostinho quanto aos bebês recém nascidos:
Agostinho, A Graça (II), A Correção e a Graça, VIII.18
Não causa menos admiração, e, no entanto, é fato verdadeiro e evidente (…) que Deus permite que deixem este mundo sem receber o batismo alguns filhos de seus amigos, ou seja, de fiéis regenerados e bons, aos quais, se quisesse, não faltaria a graça da regeneração, pois é todo-poderoso, e os afasta do Reino aonde conduz seus pais.
Deixe-me traduzir: Entenda que na cabeça de Agostinho um bebê que não havia sido batizado nas águas e morria, era o mesmo que estar morrendo “sem salvação”. Assim, na citação acima, Agostinho está dizendo que Deus supostamente “permite” que recém nascidos, filhos de crentes, deixem o mundo sem o batismo, isto é, “sem a salvação”, enviando-os desta forma para o inferno. Isso porque, segundo Agostinho, “Deus não quis lhes conceder a graça da regeneração”. Deus seria “todo-poderoso” para salvar estas crianças, se quisesse, mas preferiu “afastá-las do seu Reino” aonde conduz seus pais evangélicos. A pergunta que merece ser feita é: Que diabo de Deus é esse que deseja enviar um filho de pais evangélicos para o inferno? Observe também que Agostinho faz questão de dizer que não são pais carnais e desobedientes, mas pais cristãos a quem ele chama de regenerados, bons, fiéis e amigos de Deus. Quem seria tão estúpido a ponto de querer servir um Deus como este? Que tem vontade de fazer esse tipo de coisa com os filhos dos seus amigos?
No texto acima, Agostinho afirmou que “se Deus quisesse”, teria feito o recém-nascido ser batizado, pois em sua visão, Deus seria “todo-poderoso” para fazê-lo. No entanto, concluiu que o recém-nascido foi condenado porque o próprio “Deus havia afastado aquele bebê do seu Reino”. É digno de nota que este não é o único lugar onde Agostinho, por conta própria, “afasta do Reino de Deus” aqueles a quem o reino pertence. Jesus disse: Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus (Mateus 19.14). Agostinho, com sua teologia pervertida e doentia, fazia exatamente o oposto do que Jesus recomendou.
Agostinho, A Graça (II), O Dom da Perseverança, XIII.32,33
Por que Deus socorre a um moribundo não batizado, evitando que morra sem o batismo, e não socorre a um batizado prestes a pecar retirando-o antes deste mundo? (…) Isso porque [vocês] estão vendo algumas crianças não batizadas serem levadas desta vida para a morte eterna e outras para a vida eterna tendo sido regeneradas (…) outros são mantidos com vida até pecarem, os quais não teriam pecado, se fossem retirados do mundo antes de se mancharem (…) Todo este arrazoado demonstra que tanto para começar como para perseverar, a graça de Deus é concessão não de acordo com nossos merecimentos, mas é uma dádiva conforme à sua oculta, justa e misericordiosa vontade.
Vemos na citação acima que Agostinho acreditava que tudo que acontece às pessoas, incluindo bebês, acontece por determinação e capricho de Deus. Seja bom, seja mau, se aconteceu, é porque “Deus quis que acontecesse”. Seguindo esta linha de raciocínio que se baseia unicamente na experiência e não na revelação das Escrituras, Agostinho concluiu que:
- Há pessoas a quem Deus não quer que morram sem o batismo, ou seja, sem a salvação, e, por isso, Deus as socorre evitando que morram sem antes terem sido salvas.
- Há outros que mesmo tendo sido salvos, depois do batismo, Deus sabe que vão se desviar entregando-se ao pecado. Porém, Deus não socorre a estas pessoas retirando-as do mundo antes de apostatarem.
- Os bebês ou crianças que morrem sem o batismo, estão condenadas à morte eterna, e isso acontece porque Deus assim o quis! Afinal, Deus permite que estas crianças deixem este mundo sem receber o batismo porque, estas crianças, especificamente, ele não quer salvar! Pois, se quisesse, não lhe faltaria a graça da regeneração a oferecer, pois é todo-poderoso, mas, o que ele realmente quer, é afastá-las do seu reino.
- Por outro lado, alguns dos batizados são mantidos com vida até se desviarem da fé e se entregarem ao pecado. Deus poderia ter retirado tais pessoas do mundo enquanto ainda estavam fiéis e firmes, mas, não era isso que Deus queria para elas. Ele queria mesmo era que elas se desviassem para que, finalmente, pudesse matá-las e enviá-las para o inferno.
Se perguntássemos a Agostinho porque um bebê recém nascido que morre sem o batismo deve ser condenado à morte eterna no inferno, ele responderia: “é uma dádiva conforme à oculta, justa e misericordiosa vontade de Deus”. Dádiva? Vontade divina misericordiosa? Que loucura!
O quão longe pode ir a cegueira de um homem e o quão cegos outros homens podem estar a ponto de não perceberem a cegueira daquele? Se Agostinho pensava que podia criar um deus à sua própria imagem, que ele não tivesse inventado de querer que este deus dominasse sobre os outros homens! Eu preferiria ter sido condenado ao inferno por Agostinho por zombar do seu deus patético, do que ter sido honrado por ele de ter sido “um grande defensor da verdade evangélica”. Há elogios nesta vida que são verdadeiros atestados de incompetência, e há condenações proferidas por juízes iníquos que se constituem na mais alta forma de elogio terreno.
Orígenes Versus Agostinho
Ao longo de pelo menos três de suas obras, Orígenes usou por onze vezes a frase “Nenhum homem está limpo de mancha, nem mesmo que a sua vida tenha durado apenas um único dia”. Orígenes usou a frase inclusive associando-a às crianças que seriam batizadas nas águas. No entanto, diferentemente do que pensam alguns calvinistas, em nenhuma das onze ocasiões em que Orígenes fez uso da frase, ele se referia à qualquer suposta depravação espiritual ou moral inerente ao ser humano.
Orígenes usou a frase uma vez na Homilia 2 do Evangelho de Lucas, duas vezes na Homilia 14 do mesmo Evangelho, duas vezes na Homilia 8 do Livro de Levítico, mais uma vez na Homilia 12 do mesmo livro, e cinco vezes em seu comentário da Epístola de Paulo aos romanos, nas seguintes passagens: 5.1.21, 5.5.4, 5.9.4, 5.9.11 e 7.18.3, leia-se Livro 1, capítulo 1, verso 21 e assim sucessivamente. Ao todo, considerando apenas estas ocasiões, como já foi dito, Orígenes usou a frase onze vezes, e como veremos em outro artigo sobre este assunto, em nenhuma das vezes ele usou a frase com o mesmo sentido pretendido pelos calvinistas que a citam.
Homilia 2
Apenas para ilustrar a afirmação, observe como Orígenes faz uso da frase na homilia 2 do Evangelho de Lucas:
Lucas 1.5,6
5 Nos dias de Herodes, rei da Judeia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão e se chamava Isabel. 6 Ambos eram justos diante de Deus, vivendo irrepreensivelmente em todos os preceitos e mandamentos do Senhor.
Com respeito ao texto do Evangelho de Lucas citado acima, Orígenes diz:
“Os que querem dar a seus pecados alguma desculpa, julgam que não existe ninguém isento de pecado e invocam o testemunho que se acha escrito em Jó: “Ninguém está imune da sordidez, nem se fosse de um só dia sua vida sobre a terra; seus meses, porém, são contáveis”. Deste testemunho, só proferem o conteúdo verbal, mas ignoram profundamente seu conteúdo. Em resposta a esses, brevemente responderemos, haja vista queser sem pecadonas Escrituras deve ser entendido de dois modos, seja [o primeiro] não ter nunca pecado, e o outro ter cessado de pecar. Se afirmam, pois, que não se pode dizer isento de pecado senão aquele que nunca pecou, nós estamos de acordo em que ninguém está isento do pecado, porque todos os homens pecamos uma vez ou outra, embora em seguida tenhamos seguido a senda da virtude. Se, na verdade, assim entendem que não há homem isento de pecado, a tal ponto que neguem que alguém com uma vida pregressa nos vícios possa se voltar para as virtudes, para que nunca mais peque, é falsa opinião destes. Pode acontecer, com efeito, que um pecador veterano, ao cessar de pecar, seja declarado sem pecado.
Orígenes argumenta que há quem use a frase para dizer que é impossível não pecar, que todos os homens vivem pecando irremediavelmente e que por isso não se pode dizer que exista algum homem “sem pecado”, pois “Nenhum homem está limpo de mancha, nem mesmo que a sua vida tenha durado apenas um único dia”. Observe, porém, que o argumento de Orígenes é o exato oposto daqueles que usariam esta frase para afirmar isto. De fato, no ponto dois da mesma homilia (2.2), Orígenes afirma o seguinte: “Fizemos todas essas observações, com efeito, para que fizéssemos entender que o homem, pelo fato de ter cessado de pecar, pode ser chamado isento de pecado e imaculado”. Em outras palavras, o homem que para de pecar, pode ser considerado imaculado, ou, sem pecado. Você acha mesmo que Agostinho, durante a fase da sua vida em que já estava radicalizado, ou qualquer outro calvinista, ousaria fazer afirmação no mínimo semelhante a esta? Jamais! Sua visão pessimista quanto à natureza do homem os impede de chegar perto de qualquer coisa parecida com isso. Até mesmo para interpretarem Lucas 1.6, motivo da homilia de Orígenes, seria preciso muitas cambalhotas e piruetas para que pudesse fazer algum sentido dentro das suas filosofias e considerações sobre a vida.
Homilia 14
Orígenes ainda vai usar mais duas vezes a frase sobre a qual estamos falando em suas homilias do Evangelho de Lucas. Na homilia 14, em seu texto sobre a passagem de Lucas 2.21-24, Orígenes cita que Maria, após dar à luz, precisou passar por um período de purificação, como havia sido estabelecido na Lei de Moisés. Porém, como o texto em questão fala sobre a “purificação deles”, no plural, Orígenes sente necessidade de explicar como “Jesus também requeria purificação”. Orígenes sugere que Jesus estava manchado porque havia assumido um corpo humano. Inclusive para corroborar suas colocações, Orígenes cita a passagem de Zacarias segundo a qual “Jesus estava vestido com vestes sujas” (Zacarias 3.3). Em nossas versões aparece a palavra “Josué”, mas por questões linguísticas do texto original, poderia se usar literalmente o nome “Jesus”. É exatamente neste contexto que Orígenes citará a frase de nosso estudo pela primeira vez nesta homilia, observe:
Homilia 14.3
Jesus, então, precisava de purificação? Estava ele impuro ou manchado por alguma mancha? Talvez eu pareça falar de modo precipitado, mas a autoridade da Escritura me leva a perguntar. Vede o que está escrito no livro de Jó: “Nenhum homem está limpo de mancha, nem mesmo que a sua vida tenha durado apenas um único dia”. O texto não diz “Nenhum homem está limpo de pecado”, mas “Nenhum homem está limpo de mancha”. “Mancha” e “pecados” não significam a mesma coisa. “Mancha” é uma coisa, “pecado” é outra.
Para Orígenes, o simples fato de Jesus ter possuído um corpo humano, já o tornava qualificado para a frase de que “ninguém é isento de impureza, nem se de um único dia tiver sido sua vida”. Orígenes ainda faz questão de dizer que as impurezas, sujeiras ou manchas sobre as quais ele fala, são diferentes do pecado propriamente dito. Quando Orígenes usava a frase, ele não estava querendo se referir necessariamente ao pecado como estado ou condição espiritual. Em seu comentário do livro de Romanos, por exemplo, quando ele também usará diversas vezes a mesma frase, ele a usa basicamente para explicar o que para ele significava a expressão de Paulo “o corpo do pecado”. Orígenes usava esta frase para se referir à imperfeição e corrupção da carne humana, e que, por isso, mesmo que a vida de um homem se resumisse a um único dia, não teria como ele estar isento de impureza. Ele nunca usou a frase para dizer que homens ou bebês não estão isentos de culpa.
A impureza mencionada por Orígenes na frase citada, diz respeito estritamente à condição inferior da natureza do corpo humano, segundo as suas considerações. De fato, no verso 6 da homilia 14, ele chega ao extremo de dizer que talvez até mesmo o corpo ressuscitado precisará de alguma purificação.
Homilia 14.6
Penso que precisaremos de um sacramento para nos lavar e purificar até mesmo depois da ressurreição dos mortos. Ninguém poderá ressuscitar sem manchas, nem se encontrará alma alguma que imediatamente esteja livre de todos os vícios. Assim, o renascimento do Batismo contém um mistério: assim como Jesus, na economia da carne, foi purificado por uma oferenda, também nós somos purificados pelo renascimento espiritual.
Embora eu não concorde com tudo que Orígenes acreditasse ou tivesse a coragem de pronunciar, eu não sou imbecil a ponto de tirar suas frases do contexto e me esforçar para não querer entender o que ele realmente queria dizer quando usava a frase em questão. Orígenes estava simplesmente querendo dizer que qualquer pessoa dentro de um corpo carregaria manchas e impurezas.
Homilia 14.4
Toda alma que foi revestida de um corpo humano tem a sua própria “mancha”. Mas Jesus foi manchado por sua própria vontade, porque assumiu um corpo humano para a nossa salvação. Escutai o profeta Zacarias. Ele diz: “Jesus estava vestido com vestes manchadas”. Zacarias diz isso para refutar aqueles que negam que o nosso Senhor teve um corpo humano e afirmam que o seu corpo era feito de substância celestial e espiritual. Eles dizem que esse corpo era feito de matéria celestial ou, falsamente, de matéria sideral, ou de alguma natureza mais sublime e espiritual. Que eles expliquem como um corpo espiritual poderia ser manchado, ou como interpretam a passagem que citamos: “Jesus estava vestido com vestes manchadas”.
Na citação acima, vemos Orígenes rebatendo interpretações gnósticas que diziam que Jesus não poderia ter de fato vindo em carne humana como a nossa. Por acreditarem que o corpo humano mortal e corruptível era mau e indomável, feito de substância inconversível e antagônica da substância divina, os gnósticos diziam ou que Jesus não tinha corpo humano como o nosso, que apenas parecia ser, mas não era, ou diziam que Jesus era um homem sobre o qual o Cristo teria vindo. Orígenes está se referindo a estes gnósticos que diziam que Jesus possuía um “corpo espiritual”, um corpo pneumático, supostamente constituído de uma substância astral ou do espaço sideral. Orígenes afirma a encarnação literal de Jesus e acrescenta que seu corpo era tão humano e corruptível quanto o de qualquer outro. Por isso seus argumentos em favor das impurezas humanas que Jesus teria levado sobre si, em seu corpo. Orígenes ainda acrescenta que “O corpo é semeado na corrupção, mas ressuscitará na incorrupção; é semeado na obscuridade, mas ressuscitará na glória; é semeado na fraqueza, mas ressuscitará na força; semeia-se o corpo animal, mas ressuscitará o corpo espiritual” (Homilia 4.4).
Homilia 14.5
Por isso, era conveniente que se fizessem as oferendas que, segundo a lei, costumam purificar a mancha. Elas foram feitas em favor do nosso Senhor e Salvador, que tinha sido “revestido de vestes manchadas” e assumido um corpo terreno. Os irmãos cristãos frequentemente fazem uma pergunta. A passagem da Escritura lida hoje me encoraja a tratá-la novamente. As criancinhas são batizadas “para a remissão dos pecados?” De quais pecados? Quando elas pecaram? Ou como se pode manter essa explicação da lavagem batismal no caso das criancinhas, senão segundo a interpretação que mencionamos há pouco?“Nenhum homem está limpo de mancha, nem mesmo que a sua vida sobre a terra tenha durado apenas um único dia”. Pelo mistério do Batismo, as manchas do nascimento são afastadas. Por isso, até mesmo as criancinhas são batizadas. Pois “se alguém não nascer de novo da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino dos céus”.
Se Orígenes afirmava que toda alma que foi revestida de um corpo humano tem a sua própria “mancha”, e se, segundo ele, o próprio Jesus, por ter encarnado, também levou sobre si as nossas impurezas em seu corpo, por qual razão Orígenes não mencionaria as criancinhas? Para Orígenes, tudo está interligado. Para Orígenes, a mancha ou impureza, da qual ser humano algum consegue fugir, está ligada à condição atual do corpo humano.
Observe que por estar tratando da purificação de Jesus Cristo, Orígenes achou por bem tocar na questão da purificação das crianças, pois, para Orígenes, tanto Jesus quanto as crianças estavam num mesmo patamar de pureza e inocência. Mas, por causa da carne, tanto Cristo, quanto as crianças, passariam pela purificação. Na versão em português publicada pela Editora Paulus, o verso 5 diz que “Movido pela ocasião da passagem, volto a tratar uma questão sobre a qual [nossos] irmãos frequentemente se interrogam entre si”. Ou seja, como Orígenes estava tratando sobre a purificação de Cristo, ele achou por bem tocar no assunto da purificação das crianças, já que, para ele, uma coisa estava ligada com a outra.
A questão sobre a qual os irmãos frequentemente se interrogavam era: As crianças são batizadas “para a remissão dos pecados?” De quais pecados? E quando poderiam ter cometido qualquer pecado? Pergunta justa, uma vez que criança alguma havia pecado pelo simples fato de haver nascido, e muito menos havia pecado antes de nascer. Embora na homilia de Lucas, Orígenes não esteja falando especificamente de bebês recém nascidos, sabemos pelos registros históricos que em alguns casos, bebês adoentados e acometidos de algum mal, chegaram a ser batizados nas águas, inclusive fazendo com que esta exceção se transformasse em regra posteriormente, ao longo dos anos. Observe, porém, que Orígenes não estava afirmando que as crianças eram batizadas para remissão de pecados, ele está citando o questionamento levantado pelos irmãos que queriam entender porque algumas vezes as crianças também eram batizadas, seria para remissão de pecados? Esta era a indagação de alguns, não a resposta de Orígenes. Orígenes ainda vai explicar que resposta ele daria para suas dúvidas.
A ideia de uma criança inocente se batizar para “remissão de pecados” é tão absurda que Orígenes só tem uma forma de tratar sobre o assunto: Comparando o batismo da criança com a purificação do próprio Senhor Jesus. É por esta razão que Orígenes indaga: “Como se pode manter essa explicação da lavagem batismal no caso das criancinhas, senão segundo a interpretação que mencionamos há pouco?” O que Orígenes quer dizer com isso? Ele está se referindo à explicação que deu sobre Jesus ter sido purificado pelo fato de ter recebido um corpo humano sobre si, e que por isso, como se diz, “nenhum homem está limpo de mancha, nem mesmo que a sua vida sobre a terra tenha durado apenas um único dia”. Orígenes está afirmando que esta seria a única razão justificável pela qual se batizaria uma criança inocente. Assim como Cristo, ao ter nascido como homem, teria sido manchado pelas impurezas do corpo humano e por isso teve de ser purificado, da mesma forma, as criancinhas pelo mistério do Batismo, teriam as manchas do nascimento afastadas. Orígenes estava encarando o batismo como um ritual de purificação para a entrada no reino de Deus, e para ele, a única forma de justificar o batismo de alguma criança seria por meio do entendimento que ele ofereceu, comparando-o com a purificação do próprio senhor Jesus.
Ora, se Orígenes usava a frase para Jesus, por que não usaria para crianças? Por outro lado, se ele a usava para crianças e para Jesus, ele queria dizer que as crianças eram tão puras quanto Jesus, ainda que estivessem sob as mesmas condições ruins de possuir um corpo mortal e corruptível, sujeito a tentações e inclinações impuras.
A frase, “nenhum homem está limpo de mancha, nem mesmo que a sua vida tenha durado apenas um único dia” é uma tradução da versão grega de Jó 14.4. Embora alguns calvinistas usem a frase, muito citada por Orígenes, para justificar a ideia de que bebês já nascem corrompidos e depravados, e que exatamente por isso, precisam ser batizados, talvez eles mesmos nunca tenham lido o contexto para tentar compreender o que Orígenes realmente queria dizer quando falava isso.