Cristão que casa de novo estará sempre em pecado?

PERGUNTA:
Nunca, como agora, se viu na igreja cristãos entrando em seus segundos e terceiros casamentos, alguns já com filhos adultos; se estas pessoas deixaram seus maridos ou esposas por outro motivo que não tenha sido a traição, eles estão em pecado?

RESPOSTA:
Nos Evangelhos encontramos a história de João Batista que repreendia Herodes por causa da mulher de seu irmão Filipe, com quem aquele havia se casado (Lucas 3.19, Marcos 6.17). De fato, João lhe dizia: “Não te é lícito possuí-la” (Mateus 14.3).

Embora devamos considerar a seriedade com a qual João tratou o assunto, existem alguns pontos que também não podem ser desprezados. Não quero descartar a possibilidade do profeta tê-lo repreendido pelo fato de ele estar possuindo “a mulher de outro que ainda estava vivo”, mas, ao mesmo tempo, também é possível que ele estivesse considerando uma outra questão mais específica. Observe que Marcos 6.18 relata que João lhe dizia: “não te é lícito possuir A MULHER DE TEU IRMÃO”. É possível que isto seja uma referência a textos como Levíticos 18.16 e Levítico 20.21 que diziam basicamente que “a nudez da mulher de teu irmão não descobrirás” ou “se um homem tomar a mulher de seu irmão, imundícia é”. Muito embora esta seja uma possibilidade, é provável que a única razão pela qual João repreenderia Herodes por ter se casado com a mulher do seu irmão é porque este ainda estaria vivo, pois outros textos bíblicos aceitam a possibilidade de um irmão casar com a viúva do irmão falecido (Mateus 22.24, Deuteronômio 25.5). Se João estivesse repreendendo Herodes mesmo que seu irmão já estivesse morto, seria uma abordagem ainda mais dramática e deveria chamar nossa atenção ainda mais. Um coisa não podemos negar: João ousou repreender Herodes porque o considerava culpado em seu relacionamento matrimonial.

Não obstante tudo isso, acredito que existem casos que exigem respostas específicas. Veja que no texto de Mateus 19.3-12 Jesus primeiro fala apenas sobre não separar, sem qualquer exceção, somente depois, ao ser novamente questionado pelos fariseus, ele acrescenta a possibilidade da separação por causa da traição. Inicialmente poderia parecer que novamente não há qualquer exceção, mas, posteriormente, as Escrituras também apresentam outras exceções. Paulo diz que a mulher viúva está livre para casar com quem quiser (1 Coríntios 7.39,40) e também diz que se alguém se converte e o incrédulo decide deixá-lo especificamente por causa disso, Paulo diz que “EM TAIS casos” nem o irmão ou a irmã devem ficar sujeitos à servidão (1 Coríntios 7.15). Ou seja, não devem viver como escravos dos votos matrimoniais; o que abre um precedente para um possível novo casamento. Embora o texto se refira a incrédulos que “abandonam o lar”, Paulo diz em 1 Timóteo 5.8 que se um crente “não tem cuidado dos seus, especialmente os da própria casa, tem negado a fé e É PIOR DO QUE O DESCRENTE”. Ora, isto quer dizer que se um “cristão” abandona o lar, desprezando sua família, ele se assemelha ao incrédulo que “se aparta”, deixando assim o cristão abandonado na mesma situação e com o mesmo direito daquele irmão mencionado em 1 Coríntios 7.15.

Embora tais passagens demonstrem que existem exceções para certos casos, é bom lembrar que há uma ordem clara do Senhor Jesus para os crentes que são casados: “Não se separem!”. Esta ordem pode ser encontrada não somente em Mateus 19, como também na citação de Paulo em 1 Coríntios 7.10,11: “Aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido; e que o marido não se aparte de sua mulher”.

Sendo assim, um crente que “simplesmente” separa e casa com outra pessoa está desobedecendo uma ordem direta do Senhor Jesus. No entanto, tal desobediência não é um “pecado sem perdão”, mas futuramente ele prestará contas por essa desobediência no tribunal de Cristo, quando todos nós seremos julgados pelo que houvermos feito “de bom e de mal por meio do nosso corpo” (2 Coríntios 5.10). Os estudiosos acreditam que tal julgamento não esteja relacionado à perda da salvação, mas sim à aprovação ou reprovação do Senhor e também ao que cada um receberá de acordo com suas obras.

Também acho que existe uma diferença entre uma pessoa que não é cristã (como a mulher samaritana) e uma pessoa que confessou o nome do Senhor; a responsabilidade só aumenta quando o conhecimento aumenta: “a quem é dado, desta pessoa será cobrado”. Cada um deve andar na luz que tem, e é com base nessa luz particular que cada um será cobrado.

Apenas para finalizar, ainda penso que há uma diferença entre “cometer adultério” e “viver em adultério”. Alguém poderia ter cometido adultério e posteriormente se arrepender e ainda assim não ter condições (por diversas razões da vida) de restaurar seu casamento, e tal pessoa, mesmo casando novamente não seria necessariamente “adúltera” se estivesse vivendo com uma única pessoa. Por outro lado, alguém que mantém um relacionamento extraconjugal ao mesmo tempo em que permanece casado com outra pessoa, esta sim, se encaixaria na classificação de adúltera.

A verdade é que, infelizmente, muitos cristãos tem tido “seus corações endurecidos pelo engano do pecado” (Hebreus 3.13). Na época da Lei de Moisés “um coração duro” justificava a “permissão” para uma possível separação e um novo casamento, contudo, agora na Nova Aliança, o “endurecimento do coração” de um cristão pode ser a “explicação” do porquê tantos estão se separando e casando novamente, muito embora esta explicação, aos olhos de Deus, não sirva de PERMISSÃO.