O ANTICRISTO FOI PREDESTINADO PARA SER O ANTICRISTO?

PERGUNTA:

Amado irmão Natan, não existe predestinação individual tanto para salvação quanto para perdição. Pensando nisso, se o Sr. puder, por favor me tire uma duvida. O homem que nascerá e será o Anticristo é predestinado a isso? E também predestinado à perdição?

RESPOSTA:

Amigo, os princípios bíblicos de liberdade humana e responsabilidade individual são muito claros em toda a Bíblia. Uma vez que entendemos isso de forma inabalável, dificilmente nos pegaremos confusos sobre esse tema novamente, mesmo diante de passagens relativamente obscuras. Sendo assim, nos faltaria apenas definir, pela compreensão que as Escrituras nos trazem, se o Anticristo, do qual a Bíblia fala, seria um ser humano ou um demônio encarnado. Se a Bíblia ensinasse que ele seria “Satanás em carne”, talvez precisássemos de regras específicas de interpretação a respeito das escolhas que ele viesse a tomar, mas, se ele será realmente um homem como inúmeras passagens testemunham claramente, então, não podemos agora invalidar a fundamentação bíblica da responsabilidade humana individual que também estará presente em sua vida. Assim, dentro dos princípios bíblicos gerais quanto ao assunto, obviamente que o “homem do pecado”, também chamado de “anticristo” poderia se arrepender, se converter, confessar Jesus como senhor da sua vida, etc. O que nos confunde a respeito desse assunto específico não são estas regras gerais de responsabilidade humana estabelecidas claramente na Bíblia, mas as referências que a Bíblia faz a acontecimentos futuros a partir de uma perspectiva atemporal. Em outras palavras, é a narrativa a partir de uma perspectiva atemporal que nos confunde. Apenas para exemplificar o que acabei de dizer, veja o versículo abaixo:

APOCALIPSE 20.4
VI também tronos, e nestes SENTARAM-SE aqueles aos quais FOI DADA autoridade de julgar. VI ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos NÃO ADORARAM a besta, nem tampouco a sua imagem, e NÃO RECEBERAM a marca na fronte e na mão; e VIVERAM e REINARAM com Cristo durante mil anos.

Observe que no texto de Apocalipse João não disse “viverão”, no futuro, e sim “viveram”, no passado. João escreveu o livro de Apocalipse por volta do ano 90 d.C. e 96 d.C., mas, ao falar destes acontecimentos futuros, observe que ele os apresenta como se fizessem parte do passado. Imagino que a razão de ele fazer isso seja porque Deus compartilhou com ele a perspectiva divina das coisas vistas. Nós estamos no ano de 2019 d.C., mas João, por volta do ano 96, já tinha dito “eu vi, sentaram-se, não adoraram, não receberam a marca, viveram e reinaram durante mil anos”, como se tudo isso já tivesse passado. Agora, o fato de Deus compartilhar através dos profetas coisas que para ele já passaram, não são determinações ou decretos para que tais coisas aconteçam; são, na verdade, revelações de coisas que já aconteceram no tempo que nós chamaríamos de futuro, mas que, para Deus, já passou, pois não há diferença alguma para ele. Analogamente, poderíamos brincar com as palavras dizendo que algumas das revelações que Deus traz pelos profetas são como “furos de reportagem” divinos.

Tendo dito isto, precisamos entender que todas as decisões das pessoas que são mencionadas em profecias desta natureza, foram tomadas por elas mesmas, e elas mesmas serão responsáveis pelas decisões que tomaram no tempo em que viveram. As pessoas que “não adoraram a besta” foram manipuladas por uma espécie de força divina que as obrigou a agirem assim contra sua própria vontade e escolha? Obviamente que não! Da mesma forma, tudo aquilo que o Anticristo fez durante a sua vida, ele o fez por motivações que lhe eram próprias. Embora os feitos do Anticristo estejam associados ao tempo que, para nós, seria chamado de futuro, para Deus isso não faz a menor diferença. O senhor nos trouxe algumas revelações das coisas que o Anticristo fez, mas isso não significa que Deus o fez fazer isso, e embora Deus tenha permitido que tais coisas fossem feitas por ele, isso não é sinônimo de vontade divina, como alguns tolamente raciocinam.

Muita gente supõe que pelo fato de as coisas simplesmente acontecerem, isso já prova que, de alguma forma, aquilo foi a “vontade de Deus”; porque “se Deus não tivesse querido ou desejado, ainda que indiretamente, tais coisas jamais teriam acontecido”. Alguns até usam uma expressão engraçada tal como a “vontade permissiva” de Deus, que é uma forma de tentar dizer que a situação em questão não seria a “vontade de Deus mais maravilhosa”, mas que, mesmo assim, Deus “arrumou as coisas” do jeito que pode. É a mesma coisa de dizer que “foi sem querer, querendo”. Embora Deus tente abençoar os homens até onde pode, isso não quer dizer que tudo que acontece, só acontece porque Deus quis. Deus ter permitido que certa coisa tenha acontecido não faz com que isso tenha ligação direta com seus propósitos. A teologia da “vontade permissiva” soa não apenas engraçada, mas também sem lógica e sem sentido. Permitir não é sinônimo de querer.

Bom, penso que se entendermos as coisas da forma como expus acima resumidamente, não é tão difícil de entender a situação do Anticristo. Podemos dizer que sim, como qualquer ser humano, ele poderia ter se arrependido e ter tido uma vida bem diferente da que ele viveu; mas, uma vez que o homem tenha vivido sua vida e feito suas escolhas, é impossível mudar o passado que ele criou. Como você poderia mudar aquilo que você já viveu? Como mudar aquilo que você já fez? Não tem como! O princípio em relação a uma possível mudança do Anticristo é exatamente esse. Ele viveu sua vida, tomou suas decisões, fez suas escolhas e deixou a história do seu passado exatamente como ficou conhecida através da revelação divina. Deus revelou o que ele fez e como ele viveu, não simplesmente o que ele fará ou como viverá. Se fosse possível mudar o que fizemos no passado, o Anticristo também poderia ter mudado o seu; no entanto, ele viveu e morreu e não tem como ele mudar aquilo que já passou. Pense um pouco: quando lemos sobre a história de Adolf Hitler aprendemos sobre as escolhas que ele fez, as decisões que tomou e descobrimos sobre as inúmeras coisas que ele fez. Seria possível que hoje esta história fosse alterada de alguma forma? Prontamente responderíamos que não! Afinal de contas, já passou! Não tem como desfazer o que já foi feito, certo? Da mesma forma que uma história que está em nosso passado não pode ser mudada, tente entender que Deus já viu tudo aquilo que aconteceu, e, o que passou, passou; embora ele, pela sua sabedoria infinita e insondável, tenha querido revelar partes do que ele sabe de acordo com seus planos e propósitos.

O elemento complicador na questão se encontra apenas no fato de que Deus nos apresenta coisas do futuro a partir de uma perspectiva atemporal e, em algumas situações, a narrativa do texto profético mostra o acontecimento como algo do passado. Embora consideremos alguns destes acontecimentos como coisas do futuro, para Deus tudo já passou!