Durante algum tempo eu pensei que os cristãos deveriam estar alheios quanto aos planos de Deus para o homem sobre a terra. Refiro-me especificamente a saber do tempo da segunda vinda de Cristo à terra ou quanto ao tempo do estabelecimento do seu Reino físico neste mundo a partir de Jerusalém.

Embora existam inúmeras passagens nas Escrituras que fazem alusão a Deus revelando seus planos aos seus servos e também inúmeras outras onde o Senhor traz dicas e revelações quanto aos seus planos em relação ao tempo, eu havia sido convencido de que “não era da minha alçada saber coisa alguma sobre tempos ou épocas que o Pai havia estabelecido pela sua autoridade exclusiva”. Alguém pegou o texto de Atos 1.6,7 e me convenceu de que crente algum seria capaz de saber qualquer coisa sobre o que Deus houvesse estabelecido em relação ao tempo. Somente depois tive a coragem de admitir que talvez o versículo não estivesse sendo corretamente interpretado.

Enquanto alguns sugerem que Jesus estava dizendo que “ninguém pode saber coisa alguma sobre tempos ou épocas que Deus determinou pela sua autoridade exclusiva”, Paulo aparece em 1 Tessalonicenses 5 fazendo uma abordagem completamente diferente desta comum interpretação do texto de Atos. Isto talvez indique que a interpretação comum de Atos 1.6,7 talvez não seja a mais coerente com o restante da revelação das Escrituras quanto ao conhecimento humano sobre os tempos que Deus estabeleceu.

1 Tessalonicenses 5.1-5
1 IRMÃOS, relativamente AOS TEMPOS E ÀS ÉPOCAS, não há necessidade de que eu vos escreva;
2 POIS VÓS MESMOS ESTAIS INTEIRADOS COM PRECISÃO de que o Dia do Senhor vem como ladrão de noite.
3 Quando ANDAREM dizendo: Paz e segurança, eis que LHES sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão.
4 MAS VÓS, IRMÃOS, não estais em trevas, PARA QUE ESSE DIA COMO LADRÃO VOS APANHE DE SURPRESA;
5 porquanto vós todos sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das trevas.

As mesmas palavras, inclusive no texto grego, aparecem nos dois textos, tanto em Atos 1.7 quanto em 1 Tessalonicenses 5.1: “Tempos e Épocas”, “Cronos e Kairós”. A grande diferença é que Paulo sugere que os irmãos, exatamente pelo fato de não estarem em trevas, não serão surpreendidos quanto ao “Dia do Senhor”. Para os irmãos o Dia do Senhor não será como a vinda de “um ladrão de noite”. Não será uma surpresa e não será desagradável. Em Hebreus 10.25 o autor diz que “os irmãos devem admoestar aqueles que estão deixando de se congregar”, e ao falar do grau de insistência que os irmãos devem usar ao fazer as admoestações ele diz que deve ser “TANTO MAIS QUANTO eles VEREM que o Dia se aproxima”. O texto sugere que os irmãos “veriam” ou “saberiam” que o Dia estaria próximo! Jesus também disse algo semelhante em Lucas 21.34: “Acautelai-vos para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado de glutonaria, embriaguez e dos cuidados da vida, para que aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço”. A ideia nos textos de Tessalonicenses, Hebreus e Lucas é que os irmãos não precisam ser ignorantes a respeito do tempo da vinda do Dia do Senhor.

Seria muito estranho Jesus dizer que “os crentes” não poderiam saber coisa alguma sobre “tempos ou épocas” que o Pai havia estabelecido e ao mesmo tempo dizer que os que mantivessem seus corações sensíveis (não sobrecarregados com as coisas deste mundo) não seriam surpreendidos quanto tempo da vinda do Dia do Senhor. Além disso, foi Jesus mesmo quem disse “Sabeis discernir a face da terra e do céu; como não sabeis, então, discernir este tempo?” (Lucas 12.46, ARC). Jesus não os teria recriminado se o tempo para o aparecimento do Messias não fosse discernível pelas Escrituras.

Existia uma profecia clara, e bem específica, quanto ao tempo do surgimento do Cristo no livro do profeta Daniel. Primeiramente Daniel diz que “entendeu, PELOS LIVROS, que o número de anos que haviam de durar as assolações de Jerusalém era de setenta anos” (Daniel 9.2). Daniel se põe a orar especificamente a este respeito, quando então lhe aparece um anjo com uma mensagem em relação aos tempos e às épocas, dizendo: “Daniel, saí para fazer-te entender o sentido… considera pois a coisa e entende… setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade e, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos santos. Entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, sete semanas e sessenta e duas semanas… depois das sessenta e duas semanas, será morto o Ungido e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o tempo…” (Daniel 9.21-26). Ora, com tanta precisão assim como errar o tempo do aparecimento do Ungido? O Anjo disse claramente “setenta semanas estão determinadas”, disse também o ponto de partida para a contagem: “desde a saída da ordem para restaurar Jerusalém”. Trocando em miúdos, e já esclarecendo o seu significado, o anjo estava claramente dizendo o seguinte: “desde a saída da ordem para a restauração da cidade de Jerusalém até o aparecimento do Cristo estão determinadas 70 semanas de anos”. Bastaria então identificar as referências mencionadas pelo anjo, fazer as contas com os números que ele oferece e esperar acontecer!

É por isso que os conhecedores das Escrituras contemporâneos de Cristo não poderiam dizer que não sabiam quando o Messias iria aparecer, pois o dia exato para o seu aparecimento em Israel já havia sido previamente determinado e revelado por Deus em sua santa Palavra. Observe o texto abaixo:

Mateus 16.1-4
1 Aproximando-se os fariseus e os saduceus, tentando-o, pediram-lhe que lhes mostrasse um sinal vindo do céu.
2 Ele, porém, lhes respondeu: Chegada a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado;
3 e, pela manhã: Hoje, haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Sabeis, na verdade, discernir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?
4 Uma geração má e adúltera pede um sinal; e nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. E, deixando-os, retirou-se.

Por que Jesus disse que lhes deixaria apenas o sinal de Jonas? Por que o “sinal de Jonas” era uma figura da morte de Cristo, que havia sido prevista na profecia das setenta semanas do livro de Daniel: “depois das sessenta e duas semanas, será morto o Ungido”; por isso Jesus disse que “assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o filho do homem estaria três dias e três noites no coração da terra” (Mateus 12.40).

No texto de Lucas está escrito que Jesus disse: “Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu e, entretanto, não sabeis discernir esta época?” (Lucas 12.56). Por que Jesus os chamou de hipócritas? Exatamente porque eles SABIAM DISCERNIR umas coisas, mas propositalmente não estavam querendo discernir outras. Eles eram capazes de discernir tempos e épocas através das Escrituras, mas se faziam de desentendidos. Afinal, bastava que tivessem feito as contas explicitamente registradas no livro das profecias de Daniel.

Além da possibilidade de homens saberem sobre o tempo exato da aparição do Messias pelas Escrituras, existia a possibilidade de reconhecê-lo por meio da sensibilidade espiritual de seus corações. Em Lucas 2 vemos a história de Simeão a quem o “Espírito tinha revelado que não passaria pela morte antes de ver o Cristo” (Lc 2.25-35). Além dele, uma outra senhora chamada Ana, que chegou ao templo no exato momento em que Simeão estava falando sobre Jesus, ao ouvi-lo, “dava graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (Lucas 2.38).

Ao considerarmos os textos acima apresentados, vemos que, segundo as Escrituras, era possível reconhecer o tempo exato da primeira vinda de Cristo à terra: tanto pelas Escrituras proféticas, quanto pela sensibilidade espiritual de cada um. Acredito que da mesma forma será possível discernir o tempo para a segunda vinda de Cristo à terra também: tanto pelo testemunho das Escrituras proféticas, quanto pela sensibilidade do nosso coração. Pois, assim como “ao se cumprir o tempo, Jesus se manifestou a primeira vez” (Hebreus 9.26), da mesma forma, a segunda aparição de Cristo acontecerá na “época determinada” (1 Timóteo 6.14-16).