A Capacidade Humana em Reconhecer a Justiça e o Pecado
Segunda Apologia de Justino Mártir, 14.1,2
1 Portanto, nós vos suplicamos que, subscrevendo como vos pareça, deis publicidade a este livro, a fim de que também os outros conheçam a nossa religião e se vejam livres da vã opinião e da ignorância em relação ao bem. Por sua própria culpa, eles se tornam responsáveis pelo castigo, 2 pois na natureza humana existe a faculdade de conhecer o bem e o mal, e eles, que nos condenam sem saber se praticamos as coisas vergonhosas de que nos acusam, comprazem-se com deuses que as fizeram e ainda exigem dos homens coisas semelhantes. De modo que, pelo fato de nos condenar à morte, ao cárcere e a outra pena semelhante, como se tivéssemos feito tais coisas, eles dão a sentença contra si próprios, sem que sejam necessários outros juízes.
Justino pede aos romanos que sua apologia em defesa da fé cristã seja publicada. Seu interesse é que os homens conheçam melhor sobre a religião cristã, e que, assim, se vissem livres dos preconceitos quanto ao Cristianismo e compreendessem a importância da prática do bem.
Observe que não é a primeira vez que Justino menciona a futura prestação de contas à qual os homens serão submetidos. Observe os pontos que ele volta a repetir:
- Os homens se tornam responsáveis pelo castigo divino, por sua própria culpa. Qualquer punição divina para a qual o homem seja merecedor, não será decorrente do pecado de outros. Nem dos pais, nem de ancestrais distantes. Mesmo sendo filósofo de ofício, Justino não divagava sobre qualquer possibilidade de o homem sofrer algum castigo por causa de pecados de terceiros. A tradição cristã defendida por Justino afirmava que o homem sofre castigo apenas por causa de suas próprias escolhas e de seus próprios pecados.
- A razão de o homem ser plenamente responsável por seus pecados, decorre do fato de que, na natureza humana, existe a capacidade, que lhe foi divinamente concedida, para reconhecer tanto o bem, quanto o mal.
Justino também menciona o fato de que os romanos acusavam os cristãos de praticarem a impiedade e outros comportamentos imorais. A isso Justino responde dizendo que tais acusações são infundadas e baseiam-se em especulação, rumores e fofoca. Por outro lado, lembra Justino, os próprios romanos tinham prazer nas mitologias e histórias dos seus deuses que faziam exatamente as mesmas coisas das quais acusavam os cristãos. A conclusão lógica apresentada por Justino é que, “se eles nos condenam à morte por acharem que fazemos as mesmas coisas que seus deuses fazem, fica evidente que eles mesmos se condenam naquilo que aprovam”. Justino sabiamente demonstra a estupidez e incoerência dos romanos preconceituosos que acusam os cristãos.
Livro: “A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio”
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