“Nasci em Pecado” no Salmo 51
O Salmo 51 tem sido usado há bastante tempo em alguns círculos cristãos como se fosse uma comprovação de que o homem já nasce “alienado de Deus”, num estado espiritual corrompido e depravado. Porém, como vimos, as Escrituras se posicionam em sentido contrário a esta insinuação.
Meu entendimento é de que a má interpretação de um único texto relativamente ambíguo ou obscuro, não deveria servir de critério para modificar o sentido de todos os outros textos claros e objetivos que ensinam que as crianças são sem malícia e que desde o nascimento são pertencentes ao reino dos Céus, como disse Jesus.
A utilização deste salmo na cultura judaica nunca serviu de base para o argumento de que o homem nasce mal e depravado, ou para se afirmar que o homem criado à imagem e semelhança de Deus perdeu o livre-arbítrio. Excetuando-se os judeus messiânicos partidários do predestinismo calvinista, na história da interpretação judaica tradicional nunca se abandonou o conceito de que a imagem de Deus sempre esteve presente no homem, desde o primeiro dia da Criação. Para os estudiosos e sábios judeus, ao longo da história, esse texto é considerado o modelo supremo de arrependimento e retorno a Deus. O grandioso exemplo da responsabilidade individual, e nunca uma fundamentação para ideias paralelas ou parecidas com aquilo que Agostinho iria chamar de “pecado original”. Não existe qualquer coisa parecida com a concepção agostiniana no contexto puramente judaico.
Na cultura religiosa judaica se defende a existência de dois princípios ativos na natureza humana, um inclinado para o bem e outro inclinado para o mal. As tentações e todas as fragilidades do homem refletiriam essa inclinação ao mal inerente à natureza humana desde a Criação ou desde o nascimento. Na cultura judaica não existe o conceito de alteração estrutural do gênero humano supostamente ocasionada pelo pecado de Adão. A tradição judaica defende a fragilidade humana como característica inerente ao ser e o livre-arbítrio como dádiva divina definidora da responsabilidade humana. Sendo responsável por si e por suas escolhas, o homem deve decidir por qual caminho seguirá, se no caminho da justiça ou no caminho do pecado.
Quanto ao Salmo 51 especificamente, há basicamente duas interpretações principais no judaísmo, e ambas rejeitam a ideia de que a criança nasce amaldiçoada, que, na verdade, foi um conceito gnóstico mais popularizado no Maniqueísmo e trazido para dentro da comunidade cristã principalmente por Agostinho, que havia sido gnóstico maniqueísta por dez anos antes de se converter. Porém, a tradição judaica de forma geral não defende qualquer paralelo com a teoria agostiniana.
A famosa frase do verso cinco que fala sobre o nascimento na iniquidade e a concepção em pecado, é tratada essencialmente sob três perspectivas entre os estudiosos judeus. Às vezes como uma “hipérbole de arrependimento”, às vezes como referência à “natureza humana inclinada ao mal” e às vezes como menção às “circunstâncias do nascimento de Davi”. Nunca nem perto da ideia de transferência de culpa e pecado vindos dos pais ou de outros antepassados. Abaixo, as duas principais vertentes interpretativas presentes na tradição judaica.
Intensificação Dramática
Por um lado, alguns estudiosos e rabinos acreditam que o Salmo 51.5 se trata apenas de uma linguagem poética e dramática, uma espécie de “Hipérbole Poética da Dor”. Há comentaristas e rabinos que explicam que Davi está usando uma hipérbole literária para expressar a profundidade do seu remorso. Davi estaria tão esmagado pela culpa do adultério que teria dito, poeticamente: “Deus, eu sou tão propenso a falhar que parece que o erro me acompanha desde o útero”. É considerado como um desabafo emocional sobre a sua fraqueza humana. Não há qualquer ligação ou paralelos com a condenação espiritual e biológica de bebês como nas teorias de Agostinho.
Circunstâncias Históricas
Por outro lado, outros estudiosos judeus costumam interpretar o verso cinco do Salmo 51 como uma referência às circunstâncias históricas relacionadas ao contexto da concepção e do nascimento de Davi. A principal fonte judaica para esta interpretação vem do Tratado Yalkut Shimoni. Esse tratado é uma coletânea das tradições interpretativas antigas dos sábios judeus. Uma compilação que reúne milhares de interpretações rabínicas sobre toda a Bíblia Hebraica (Torá, Profetas e Escritos). O compilador, Shimon ha-Darshan (“Shimon, o Pregador”), também chamado de Shimon de Frankfurt, organizou os textos seguindo a ordem dos versículos bíblicos, como se fosse um comentário contínuo da Bíblia feito com material de fontes antigas. Ele contém mais de 10.000 trechos e citações tirados de dezenas de obras anteriores. Preserva trechos de interpretações, narrativas e ensinamentos cujos originais se perderam ao longo do tempo e só sobreviveram porque foram copiados nele. Tornou-se uma das antologias midráshicas mais populares e consultadas no judaísmo.
Nesta coletânea existe uma tradição histórica que trata sobre a mãe de Davi. Embora o nome da mãe de Davi nunca seja citado na Bíblia, segundo esta tradição seu nome teria sido Nitzevet bat Adael. Conta-se que o pai de Davi, Jessé, havia se afastado dela após o sétimo filho por dúvidas sobre a pureza de sua própria linhagem, pois ele era descendente de Rute, a moabita. Por causa da proibição de Deuteronômio 23:3 que diz que “o amonita e o moabita não entrarão na congregação do Senhor; nem ainda a sua décima geração entrará…”, Jessé começou a duvidar se a sua descendência seria pura ou legítima. Como consequência destes questionamentos, ele decidiu parar de ter relações com a esposa Nitzevet, com medo de continuar gerando filhos a partir de uma linhagem que ele considerava questionável.
A partir de então, planejou ter filhos com uma serva cananeia, para “garantir” uma linhagem que ele considerasse mais aceitável. Compadecendo-se de Nitzevet, a serva propôs um plano: elas trocariam de lugar secretamente na noite de núpcias, permitindo a Nitzevet mais uma oportunidade de estar com Jessé. Nitzevet, com a ajuda da serva, planejou a troca de camas às escuras para se deitar com o próprio marido, semelhante ao que havia acontecido entre Lia e Jacó em Gênesis 29.21-25. Assim, Nitzevet acabou engravidando de Davi, seu oitavo filho. Apesar da gravidez aparente, Nitzevet nunca teria revelado a troca a Jessé. Como resultado, ela teria sido desprezada como imoral, e seu filho Davi excluído dentro da própria família. Jessé então teria passado 28 anos achando que Davi era fruto de uma traição, um bastardo, e o próprio Davi teria crescido marginalizado pelos irmãos e pela família por causa desse boato.
Diversas fontes antigas da interpretação judaica relatam que “aquele assunto permaneceu em segredo por vinte e oito anos”, ou que “foram necessários vinte e oito longos anos de isolamento, rejeição e sofrimento até que a justiça começasse a se manifestar”. Estes 28 anos mencionados nas fontes judaicas, consideram os anos desde o nascimento até o momento em que Samuel ungiu Davi, que, segundo a orientação divina, deveria ser um dos filhos de Jessé. Este fato teria, finalmente, sanado todas as dúvidas e desconfianças.
Relato Bíblico do Desprezo a Davi
Embora não possamos afirmar, categoricamente, que as tradições judaicas quanto ao assunto sejam inquestionavelmente corretas, ao mesmo tempo, curiosamente, vemos algum paralelo nos textos das Sagradas Escrituras que apontam para um desprezo consideravelmente acentuado em relação a Davi dentro de sua própria família.
Alguns acreditam que o Salmo 27.10 reflete alguns dos sentimentos de Davi quanto às possíveis dificuldades que ele experimentava no contexto familiar, quando ele diz: “Ainda que meu pai e minha mãe me abandonem, o Senhor me acolherá”. Além disso, alguns textos parecem revelar apenas a camada mais superficial de certa dificuldade que Davi costumava experimentar com seus familiares. Observe o texto abaixo.
I Samuel 17.28-29
28 Ouvindo-o Eliabe, seu irmão mais velho, falar àqueles homens, acendeu-se-lhe a ira contra Davi, e disse: Por que desceste aqui? E a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Bem conheço a tua presunção e a tua maldade; desceste apenas para ver a peleja. 29 Respondeu Davi: Que fiz eu agora? Fiz somente uma pergunta.
Pela forma que Davi responde ao irmão, pode-se deduzir que havia algum tipo de abordagem constrangedora recorrente: “Que foi que eu fiz agora? Foi só uma pergunta”. Por fim, de acordo com 1 Samuel 16, Deus enviou o profeta Samuel à casa de Jessé, pai de Davi, para uma cerimônia de consagração e sacrifício. Estranhamente, para este evento tão significativo, Jessé parece ter convidado todos os seus filhos, exceto Davi. Em I Samuel 16.5 está escrito que “Samuel santificou a Jessé e os seus filhos e os convidou para o sacrifício”. Neste primeiro momento, Jessé já poderia ter mencionado que ainda faltava mais um filho. Porém, a única ocasião em que Jessé mencionará o nome de Davi, será mais tarde quando o próprio Samuel, insistindo numa orientação divina, perguntará se não há mais algum filho: “Estes são todos os filhos que você tem?” (I Samuel 16.11). O episódio parece demonstrar que Jessé não considerava Davi importante o suficiente para estar na mesa com o profeta de Deus. Ele foi simplesmente esquecido no campo.
Apesar da importância da ocasião, o próprio Jessé inicialmente não se preocupou em chamar Davi para participar. Somente após a insistência de Samuel foi que Jessé mandou buscá-lo. Esse incidente ressalta a posição peculiar que Davi ocupava dentro da própria família, sendo ignorado e subestimado até mesmo em momentos decisivos. Deus havia enviado um profeta para visitar aquela família, uma cerimônia importante está prestes a acontecer, e só Davi não foi convidado! Pode-se perceber os indícios de rejeição que Davi parecia sofrer.
O histórico do nascimento e do relacionamento familiar de Davi, retratam um pano de fundo complexo e cheio de nuances, que, neste sentido, justificariam a interpretação da declaração de Davi no Salmo 51.5, como algo que envolvia circunstâncias pessoais específicas. Nada que sugerisse uma doutrina de “pecado original” transmitido pela relação sexual dos pais, como queria Agostinho. Ao considerarmos todos os dados, é mais provável que no Salmo 51.5 Davi estivesse se referindo à situação vexatória relacionada ao seu nascimento.
“Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu Minha Mãe”
A declaração “eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe”, nunca poderia estar afirmando o contrário do que todos os demais textos das Escrituras ensinam sobre a pureza espiritual das crianças. Seria uma contradição gritante o Salmo 58.3 afirmar que “os ímpios se desviam e se desencaminham depois que nascem, proferindo mentiras” e no Salmo 51.5 dizer que “Davi já nasceu pecador”. Por que os ímpios só se desviariam depois do nascimento quando começassem a mentir, e Davi, diferentemente dos ímpios, já teria nascido pecador? Que discrepância seria essa?
Eu sei que dependendo da versão que o leitor estiver usando para ler o Salmo 51.5, ele se sentirá mais ou menos induzido a pensar que o verso esteja insinuando as mesmas ideias pessimistas de Agostinho. Todo tradutor, como qualquer ser humano, tem seu viés ideológico próprio e uma teologia de sua predileção. Se o sentimento agostiniano predominar entre os membros do comitê de tradução, pode-se esperar uma versão mais próxima das ideias de Agostinho. Veja o exemplo da Nova Versão Internacional:
Salmos 51.5 | NVI
Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe.
Versões como esta, que apresentam o português na forma interpretativa, são excelentes pois em diversas ocasiões e contextos diferentes, ajudam a vencer muitas dificuldades linguísticas e culturais. Porém, quanto mais distante o texto traduzido fica do original, mas risco também se corre em relação à perda do sentido pretendido. Compare com a versão Literal do Texto Tradicional ou Almeida Corrigida Fiel:
Salmos 51.5 | LTT | ACF
Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.
Embora o sentido do texto original não seja dizer que Davi “nasceu pecador”, se não entendêssemos as dificuldades relacionadas ao processo de tradução e não tivéssemos qualquer acesso a outras versões para conferir outras possibilidades para o texto, seríamos induzidos ao erro através de versões que optaram por seguir o caminho mais obscuro.
Além disso, o Salmo 51.5 contêm certa ambiguidade, especialmente na frase “em pecado me concebeu minha mãe”. Por si só, sem levar em consideração quaisquer outros detalhes técnicos ou teológicos, a frase poderia ser facilmente compreendida como se Davi estivesse se referindo à sua mãe, e não necessariamente a ele mesmo: “Minha mãe me concebeu em pecado”. Talvez, exatamente por isso, alguns tradutores preferiram modificar levemente o texto para que a ideia fosse de que “Davi já nasceu pecador” e não que as circunstâncias do nascimento de Davi envolveram qualquer tipo de comportamento enganoso por parte da mãe, como relatado na tradição histórica da comunidade judaica.
A linguagem poética do Salmo 51
Talvez o ponto mais importante desse debate, que não deveria ser esquecido, é que o Salmo 51, assim como todos os salmos que vimos anteriormente, fazem uso de linguagem poética e dramática. O objetivo é comunicar um sentimento hiperbólico, intenso e exagerado. Lembre-se que o contexto do Salmo 51 envolve Davi num processo de contrição e arrependimento por pecados cometidos na ocasião. Ele está buscando perdão pelo que fez e não se justificando do porquê tinha agido assim. Davi não estava querendo “explicar porque pecava”, como se houvesse nascido nesta condição e não tivesse muito o que fazer.
Salmo 51.10-13
10 Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável. 11 Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. 12 Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário. 13 Então, ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti.
Pelos versos acima podemos perceber que Davi estava espiritualmente bem pouco antes de ter cometido seus erros mais recentes para os quais busca perdão. O que significa que ele não esteve necessariamente pecando sem parar desde que nasceu até então. Pelo menos imediatamente antes das palavras que se encontram neste Salmo, ele estava espiritualmente bem.
- Davi está querendo voltar a uma condição na qual estava antes: “Renova dentro de mim um espírito inabalável”.
- Davi se reconhece na presença de Deus e mesmo tendo cometido alguns pecados recentemente, ele suplica para não ser expulso da presença de Deus: “Não me repulses da tua presença”.
- Davi faz menção ao Espírito de Deus que havia vindo sobre ele desde quando Deus o havia separado e está pedindo para que ele não seja retirado: “Não me retires teu Santo Espírito”.
- Davi deseja uma restauração ao estado imediatamente anterior à ocasião em que ele havia pecado: “Restitui-me a alegria da tua salvação”.
- Agora que Davi havia pecado, ele busca por perdão e restauração. Ele deseja servir de exemplo aos pecadores com quem ele terá contato ou que saberão da graça de Deus que viria sobre sua vida mesmo depois de ter errado gravemente: “Então ensinarei aos transgressores e os pecadores se converterão”.
Além disso, Davi havia dito anteriormente: “Lava-me da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado” (v. 2). Depois ele praticamente repete o mesmo pedido dizendo: “purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais alvo que a neve” (v.7). Como Davi poderia “ficar limpo” e ficar “mais alvo que a neve” se ele houvesse “nascido em pecado” e isso significasse que desde bebezinho sua natureza espiritual já era depravada e corrompida? Apenas a título de ilustração, e se Deus tivesse dito: “Davi, eu vou te lavar e você vai voltar a ser como criança. Você vai ficar do mesmo jeitinho que você nasceu”. Isso seria bom ou seria ruim?
Também no verso sete, Davi pediu para Deus “apagar todas as suas iniquidades”. Como Deus poderia “apagar tudo” se ele já tinha nascido com defeito de fábrica? Deus apagaria “tudo”, menos o pecado que veio no nascimento? Davi estaria querendo que “Deus apagasse tudo”, mas “tudo” no sentido de somente apagar até o pecado inicial, com o qual ele supostamente teria nascido?
Qual o sentido em buscar esta purificação se não fosse para voltar a um estado de pureza e condição favorável diante de Deus? Se Davi tivesse a ideia de possuir uma condição espiritual pecaminosa irrecuperável na qual nasceu, seu linguajar em busca de purificação não faria muito sentido. Se ele houvesse nascido depravado, espiritualmente morto, corrompido e em pecado, a sua busca por purificação aponta para algum momento em que ele pôde resolver isso, pois, afinal, está pedindo para voltar para esse tempo em que estava tudo bem entre ele e Deus.
Davi não poderia estar falando literalmente sobre ter nascido em pecado, pois ao longo do salmo ele enfatiza as coisas erradas que ele fez, e não sobre um estado no qual teria nascido. Ele trata sobre coisas erradas que ele havia escolhido e decidido fazer. Observe abaixo a pequena lista de decisões e escolhas pensadas de Davi.
- Verso 1: Ele fala das “minhas transgressões”;
- Verso 2: Ele fala da “minha iniquidade”, do “meu pecado”;
- Verso 3: “Minhas transgressões”, “meu pecado”;
- Verso 4: Ele diz: “Pequei contra ti”, “fiz o que é mal”;
- Verso 9: “Meus pecados”, “minhas iniquidades”.
Quando ele diz “em iniquidade fui formado” ou “em pecado me concebeu minha mãe”, sempre me pareceu muito claro que ele estava usando um recurso de oratória para trazer um sentimento de intensificação ao contexto abordado por ele. Parece-me mais uma hipérbole do que qualquer outra coisa. Afinal, não é exatamente a mesma ideia que ele parece repetir, por exemplo, no Salmo 58?
Salmo 58.3
Desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham, proferindo mentiras.
Já tratamos sobre este texto anteriormente, mas não custa nada repetir que não se pode interpretar isso literalmente. Como um bebê se desviaria desde o momento da concepção? Como um bebê poderia nascer e se desencaminhar falando mentiras? Isso não pode ser literal, pois recém-nascido algum seria capaz de falar qualquer coisa. Se, porém, o bebê vai falar de fato e de verdade, por que nesse milagre o bebê não falaria uma coisa boa? Por que teria logo que mentir? É lógico que isso não é literal! Davi estava dizendo que aqueles juízes iníquos do Salmo 58 eram tão corruptos que “deveriam ter começado a mentir desde que nasceram”. Com isso sua pretensão era afirmar que os ímpios se aperfeiçoam no pecado desde cedo, mas não literalmente no dia que nascem. Da mesma forma, um recém-nascido jamais poderia ter nascido pecador. Isso não tem nem sentido.
O Salmo 58 não confirma a interpretação negativa do Salmo 51, como se o bebê nascesse “pecador”, “alienado de Deus” e “culpado pelo pecado que Adão cometeu”. Na verdade, o mais correto seria fazer o raciocínio no sentido inverso, ou seja, em vez de se usar o Salmo 51 para se interpretar o Salmo 58, deveríamos usar o Salmo 58 para entender o Salmo 51.
Pense um pouco. O Salmista disse que “os ímpios se desviam e se desencaminham, proferindo mentiras”. Você acha mesmo que o autor desse texto estava querendo dizer que os recém-nascidos são mentirosos? É evidente que ele está usando uma figura de linguagem, pois seria simplesmente impossível que no dia do parto qualquer criança já pudesse abrir a boca e “proferir uma mentira”. Parece muito evidente que o salmista está exagerando a situação para dizer que “desde muito novo” o homem já começa a mentir e a pecar, não no dia que nasce, óbvio.
No Salmo 51, Davi está reconhecendo o pecado que havia cometido – um acontecimento específico e pontual. Ele não está procurando se justificar ou procurando perdão pelos erros de toda a sua vida. Ele não está sugerindo que suas ações atuais estejam literalmente vinculadas a um suposto estado depravado no qual ele teria nascido.
Davi tratava neste salmo sobre os acontecimentos relacionados a Bate Seba e Urias. Davi havia adulterado com Bate-Seba, tentou encobrir seu pecado e ainda ordenou que Urias fosse colocado na linha de frente da batalha para garantir sua morte. Quando confrontado pelo profeta Natã, Davi caiu em si, e envergonhado, entrou num processo de arrependimento profundo.
Obviamente que Davi nunca teve a intenção de transmitir a ideia de que “peca desde que foi concebido” ou que “nasceu pela manhã e à tarde já estava mentindo”. Alguns poderiam dizer: “Tudo bem, admito que ele não nasceu cometendo pecados, pois seria realmente impossível. Porém, acho que qualquer bebê já é pecador desde o nascimento”.
Um bebê pecador sem nunca ter cometido um único pecado sequer? Como isso seria possível? Esse tipo de ideia não parece estar em harmonia com a justiça de Deus revelada nas Escrituras. Se Deus “jamais consideraria o culpado como inocente”, certamente ele jamais faria o contrário. Como Deus poderia tratar o inocente como se culpado fosse?
Os Salmos 51 e 58 estão usando linguagem hiperbólica, cuja intenção seria transmitir a ideia da influência que, desde cedo, o pecado exerce sobre as crianças no ambiente que crescem.
Agostinho foi um dos principais responsáveis por trazer para a comunidade cristã um sentimento diferente do que é ensinado nas Escrituras em relação às crianças. Seria um erro se apegar a um ou dois versículos isolados e mal interpretados, e por causa deles, desprezar todo o testemunho bíblico sobre a natureza espiritual das infantes.
Davi não atribuiu seus erros a uma suposta “condição da qual ele não pudesse fugir”. Davi estava simplesmente dizendo que, a despeito do contexto pecaminoso no qual havia nascido, ele reconhecia que tinha a responsabilidade de fazer o que era certo diante de Deus. A culpa do seu pecado era dele mesmo e não dos seus pais, que num ambiente de pecado, o haviam gerado.
É como se ele estivesse dizendo mais ou menos o seguinte:
“Eu sei que estou cercado pelo pecado desde que nasci, mas não quero usar isso como desculpa para justificar meus erros. Meus pecados e minhas transgressões estão sempre diante de mim. Eu sei o que eu fiz. Quando procedo bem, sei que serei aceito, todavia, quando procedo mal, o pecado está à porta, e esse desejo se vira contra mim. Todavia, meu dever é dominá-lo. Eu pequei, sei que estou em falta para contigo e a ti estou prestando contas. Perdoa-me, lava-me e purifica-me. Restitui a minha alegria de estar na tua presença e de experimentar a tua salvação”.
Extraído do Livro: “A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio”