Agostinho Editou seus textos Antigos sobre o Livre-Arbítrio
Embora seja um assunto relativamente desconhecido, existe uma tese de que Agostinho teria editado alguns de seus textos antigos em data posterior, visando com isso a adequação de suas novas ideias às suas antigas publicações. O debate trata especilmente sobre os textos originais do livro Sobre o Livre-Arbítrio (De Libero Arbitrio) e nas respostas a Simpliciano (Ad Simplicianum).
Muitos eruditos modernos defendem que o texto que lemos hoje dessas obras não é o que Agostinho escreveu inicialmente nos anos 390 d.C., mas sim uma versão “revista e modificada” por ele mesmo décadas depois para se adequar à sua teologia posterior que havia sido desenvolvida durante a crise contra Pelágio.
A base da discussão acadêmica reside no fato de que o De Libero Arbitrio levou cerca de sete anos para ser concluído (o Livro I foi escrito em Roma por volta de 388 d.C., e os Livros II e III em Hipona entre 391 e 395 d.C.). [2, 3]
Eruditos que defendem a ocorrência de uma reescrita textual sustentam que Agostinho, ao perceber que Pelágio e outros cristãos usavam seus primeiros escritos como “arma” contra ele, revisitou os manuscritos físicos antes de autorizar novas cópias definitivas na velhice. Eles argumentam que as contradições gritantes entre o Livro I (focado na total autonomia da vontade contra os maniqueístas) e o Livro III (onde a ignorância e a dificuldade humana pós-queda já ganham contornos severos) não são apenas fruto de um “amadurecimento gradual”, mas sim de uma interpolação e reedição tardia do próprio autor. [1, 4, 5, 6]
Livros e Eruditos envolvidos na Discussão
Algumas das fontes acadêmicas que tratam do assunto são listadas abaixo:
Peter Brown
- Augustine of Hippo: A Biography
- Universidade da Califórnia
- Este é considerado o livro biográfico mais importante sobre Agostinho no mundo. No capítulo dedicado à controvérsia com Pelágio e à composição das Retratações, Brown detalha como Agostinho lidava com seus antigos livros circulando pelo Império. Ele reconstrói a pressão que o bispo sofreu quando o tribuno Marcelino o confrontou com cópias do De Libero Arbitrio que pareciam heréticas, desencadeando um processo frenético de releitura e recontextualização de seus próprios manuscritos. [5]
Simon Harrison
- Augustine’s Way into the Will:
- The Theological and Philosophical Significance of De libero arbitrio
- Oxford University Press
- Este livro é inteiramente dedicado a investigar a estrutura e o processo de composição dessa obra. Harrison aborda diretamente a hipótese de que Agostinho mudou de ideia e alterou o rumo dos argumentos ao longo da redação. É uma excelente fonte para mapear como os estudiosos modernos dividem os blocos do texto para tentar identificar o que foi escrito na juventude e o que teria sido editado ou acrescentado depois. [7]
Carol Harrison
- Beauty and Revelation in the Thought of Saint Augustine
- Oxford
- A autora é uma das maiores especialistas na chamada “Revolução Paulina” de Agostinho em meados da década de 390. Ela discute a descontinuidade do pensamento agostiniano e analisa se as mudanças foram apenas intelectuais ou se refletiram em revisões textuais profundas na transição de suas obras da juventude para as da maturidade. [3]
John Rist
- Augustine: Ancient Thought Baptized
- Cambridge University Press
- Rist analisa minuciosamente a evolução dos conceitos de vontade e livre arbítrio nas obras de Agostinho. Ele dedica seções inteiras à análise das Respostas a Simpliciano (Ad Simplicianum), demonstrando como a drástica mudança teológica ocorrida ali forçou Agostinho a reler e “ajustar” o significado de tudo o que havia escrito antes sobre a capacidade humana.
Material para análise interna
Para comparações e comprovações destas mudanças, existem as seguintes edições críticas:
- O Corpus Christianorum Series Latina, CCSL, Volume 29
- Contém a edição crítica em latim do De Libero Arbitrio. Os prefácios e o aparato crítico dessas edições acadêmicas europeias apontam as variantes textuais entre os manuscritos sobreviventes mais antigos, ajudando a identificar se há indícios de edições ou interpolações em blocos específicos do texto. [8]
- O texto das Retratações (Retractationes, Livro I, Cap. 9 e Livro II, Cap. 1) Este livro de Agostinho é uma das provas documentais mais valiosas que temos. Nele, Agostinho cita textualmente os trechos de Sobre o Livre-Arbítrio e de A Simpliciano que estavam gerando polêmica e passa páginas inteiras reescrevendo o sentido deles. Muitos eruditos argumentam que o que Agostinho fez nas Retratações foi o registro público e oficial de uma revisão que ele já vinha aplicando silenciosamente nos manuscritos que mantinha em sua biblioteca em Hipona. [5]
[4] https://periodicos.ufsc.br
[7] https://www.researchgate.net
[8] https://medieval.bodleian.ox.ac.uk
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