Eu sei que existe muito conflito ideológico a respeito da natureza humana de Jesus Cristo. Tenho ciência do sangue derramado em meio a guerras inflamadas por causa do tema ao longo da história da igreja. Independente das diferenças de opinião, meu objetivo aqui não é desenvolver um tratado a respeito da questão. Quero apenas mencionar algo muitas vezes desconsiderado ao se falar sobre o assunto: As Escrituras testemunham que Jesus, ao longo da sua existência eterna, passou por três estados diferentes.

Creio que não discernir isso na Bíblia pode gerar confusão e conflitos de interpretação na cabeça de qualquer leitor cristão, mesmo bem intencionado.

Meu desejo não é ser dogmático no que digo aqui, mas vejo que as Escrituras ensinam sobre três tempos na existência de Jesus; nos quais ele se encontrou em três estados distintos:

  1. Antes de descer do céu e viver entre os homens;
  2. Os dias da sua carne, após ter descido do céu;
  3. E o período depois da sua ressurreição, tendo voltado ao céu, assentando-se à direita da majestade nas alturas.

Há muitos textos para cada uma das fases mencionadas nos parágrafos acima, mas citarei apenas alguns deles para que percebamos a distinção sobre cada um desses períodos.

1. Antes de encarnar: A Bíblia diz que ele “estava com Deus e era Deus” (João 1.1). Era um ser completamente espiritual, pois “Deus é espírito” (João 4.24) e “um espírito não tem carne nem ossos” (Lucas 24.39). Ele estava na “forma de Deus” (Filipenses 2.6) antes de “se esvaziar de sua igualdade com Deus” (Filipenses 2.6, 7) e “assumir outra forma” (Filipenses 2.7).

2. Os dias da sua carne: A Bíblia ensina que ele “desceu do céu” (João 6.38) e passou a ter vontades humanas que deveriam ser controladas de forma semelhante ao que experimentamos em relação à nossa natureza terrena (João 6.38, Colossenses 3.5). A Bíblia diz que “ao entrar no mundo um corpo lhe foi preparado” (Hebreus 10.5). Por isso Jesus é considerado “nosso sumo sacerdote podendo compadecer-se das nossas fraquezas, porque ele foi tentado em todas as coisas como nós” (Hebreus 4.15). Desde a infância ele “cresceu em graça e estatura” (Lucas 2.52), diferentemente de nós que crescemos por fora e atrofiamos e morremos por dentro, e depois precisamos voltar a nascer de novo espiritualmente. Ele fôra “ungido com o Espírito Santo e com poder” (Atos 10.38). Enquanto na Terra a Bíblia diz que ele teve sono, sede, fome, foi tentado, inclusive até morreu, pois “aos homens está ordenado morrerem” (Hebreus 9.27). A Bíblia diz também que “ele foi aperfeiçoado” (Hebreus 2.10; Hebreus 5.9), que “aprendeu a obedecer” (Hebreus 5.8), que “se fortaleceu espiritualmente”, e que “sua sabedoria aumentava” e que “ele crescia na graça” (Lucas 2.40, Lucas 2.52). Todo o período em que ele esteve na Terra antes da morte é chamado de “os dias da sua carne” (Hebreus 5.7).

3. Após a ressurreição: A Bíblia ensina que após a ressurreição ele “entrou no mesmo céu, mas agora para comparecer por nós, diante de Deus” (Hebreus 9.24). Ele desceu do céu sem corpo e “recebeu um corpo ao entrar no mundo” (Hebreus 10.5), mas quando voltou ao céu o corpo não foi deixado aqui, ele o levou consigo. Por isso “ele está sentado à direita de Deus e também intercede por nós” (Romanos 8.34). Ao mesmo tempo ele é o ícone e representante do futuro de todos os que nele creem (Romanos 8.29).  Por isso a Bíblia diz que “ainda não se manifestou o que haveremos de ser, mas quando ele se manifestar seremos semelhantes a ele” (1 João 3.2), pois o que ele é hoje ainda não está manifesto e sim “oculto em Deus; porém quando ele se manifestar, seremos também manifestados com ele, em glória” (Colossenses 3.4). Ele já teve um corpo como o nosso, mas um dia nós teremos um corpo como o dele (Filipenses 3.20). Hoje ele está “glorificado com a glória que teve junto ao Pai antes que houvesse mundo” (João 17.5). Paulo falando de sua realidade atual diz que “nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2.9). De fato, ao falar de Jesus no estado em que ele se encontra hoje as Escrituras o chamam de “Deus verdadeiro” (1 João 5.20).

Cada um desses estados em que Jesus esteve ao longo de sua eternidade tem características específicas. Quando lemos as Escrituras precisamos discernir a respeito de qual tempo ou estado de Cristo o texto se refere. A Bíblia trata de muitas verdades atemporais, e por isso é comum encontrarmos passagens que parecem misturar as três “fases” de Cristo, o que nos faz ficar confusos sem perceber que há uma diferença a respeito da realidade de cada uma delas.

Extraído do livro “A Força Divina da Fé”, para saber mais clique aqui.