PERGUNTA:

Em Apocalipse 7.9-14 está escrito: “Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão de todas as nações e povos que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos… E um dos anciãos me falou, dizendo: Estes são os que vieram da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro.” Este texto não dá a entender que passaremos pela Grande Tribulação?

 

RESPOSTA:

Anderson, eu acho que é preciso entender cada texto das Escrituras dentro do seu contexto, e, ainda que cada um deles tenha alguma lição ou verdade que possa ser usada indistintamente por qualquer cristão, em qualquer época, os textos também tem suas particularidades e nem sempre dá certo tentar aplicar o texto a qualquer situação fora da sua própria realidade. Não é porque o texto de Apocalipse que você citou está falando de pessoas que serão salvas durante a Tribulação que isso signifique que qualquer pessoa que vier a ser salva tenha que ter estado na Tribulação ou que o Corpo de Cristo esteja destinado a ter que passar também pela Tribulação porque algumas pessoas que passarão serão salvas. Uma coisa não está necessariamente relacionada a outra. Usar esse tipo de lógica seria mais ou menos como raciocinar da seguinte forma: “Um amigo me disse que seu tio Marcos tem duas filhas Gêmeas. Acontece que ontem eu conheci uma moça que tem uma irmã gêmea; logo, esta moça deve ser a filha do Marcos”. Como eu disse, uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra. Muita gente usa esse mesmo tipo de raciocínio com passagens bíblicas onde aparecem palavras semelhantes ou que PARECEM fazer alusão a um mesmo assunto.

Voltando à sua pergunta, a própria narrativa do capítulo em questão deixa claro que João está se referindo à salvação de judeus e gentios dentro daquela situação específica, no período da Tribulação, e não sobre uma suposta Igreja que já existia antes da Tribulação começar. Se João quisesse mesmo falar que estes salvos do capítulo 7 (judeus e gentios) eram os mesmos crentes que já faziam parte do Corpo de Cristo antes do início da Tribulação, ele não precisaria dar a entender que as pessoas estavam sendo salvas naquele instante; afinal, eles não seriam crentes que “vieram da grande tribulação”, mas crentes que já estariam na terra ANTES da Tribulação. A verdade é que em Apocalipse 7.3, 4 o texto fala sobre judeus sendo selados e somente “depois destas coisas” é que aparece a grande multidão de outras nações e povos (Ap 7.9). Não faria sentido os versículos de 9 a 14 estarem falando da Igreja somente DEPOIS dos judeus “terem sido selados”, pois se o tempo profético a respeito do qual o texto fala fosse ainda a era da igreja, não haveria tal distinção entre judeus e gentios pois “judeus selados” já seriam parte da própria igreja. Na era que vivemos atualmente (a era da Igreja) não há esta distinção entre judeus cristãos e gentios cristãos, pois a Igreja, que é um corpo só, o Corpo de Cristo, é constituída por judeus e gentios crentes. Se fosse ali a intenção de João escrever sobre o Corpo de Cristo, ele não teria feito tamanha distinção entre judeus e gentios como a que está presente no texto.

Outro exemplo bíblico dessa associação sem sentido real que fazem entre textos que contém palavras semelhantes pode ser demonstrado com o que fizeram com a expressão “última trombeta”, usada por Paulo em 1 Coríntios 15 e as trombetas que aparecem no texto de Apocalipse. Alguém viu que em Apocalipse aparecem 7 trombetas e por acaso lembraram que Paulo usa a expressão “última trombeta”; daí, raciocinaram que “Paulo só poderia estar falando da última trombeta da série de trombetas apresentada por João”. Olha que loucura! Dá até preguiça pensar em explicar a precipitação desse raciocínio, mas você pode usar o exemplo das gêmeas, citado mais acima, como elucidação do caso e ficará fácil perceber que é a mesma “lógica” usada. Além disso, bastaria apenas lembrar que Paulo escreveu a carta aos irmãos de Corinto por volta do ano 55 d.C. e João só iria escrever o Apocalipse entre os anos 90 e 96 d.C.! Ou seja, achar que Paulo está se referindo à sétima trombeta mencionada por João, chega a ser infantil, pois o texto de Apocalipse sequer existia ainda. O único “recurso” que resta para tentar criar essa suposta ligação entre as “trombetas” de Paulo e João seria dizer que “Deus, o único que sabia que as trombetas mencionadas seriam as mesmas, estava fazendo Paulo falar sobre isso sem que este tivesse consciência total do que estava fazendo”; ou… “mesmo que Paulo supostamente soubesse das trombetas de João teria resolvido não mencionar tudo claramente, porque não queria fazer com que seus leitores fossem informados antes da carta de João começar a circular 41 anos depois”. E sabe-se lá mais o que poderiam dizer para justificar o argumento.

Eu acho que o grande problema das pessoas é não ter a paciência de estudar e orar até receber do Espírito Santo alguma luz sobre textos que são aparentemente difíceis de serem interpretados. Não é vergonhoso dizer “eu ainda não entendo sobre isso”, “eu ainda não estudei a respeito do assunto”, “não tenho convicções sobre essa questão”. Às vezes parece que alguns irmãos estão desesperados tentando “produzir revelações” que deem algum sentido a textos bíblicos que eles não conseguem encaixar no sistema teológico que abraçaram.

Por essas e por outras é que na arte de interpretação de textos considero importante “deixar as primeiras coisas em primeiro lugar”; ou seja, aquilo que é claro, objetivo e inconfundível deve nortear outros textos mais obscuros. No processo de eliminação de ideias concorrentes que surgem associadas a certas passagens bíblicas, deveríamos buscar harmonizar o que é confuso com aquilo que é claro e inconfundível, e jamais o contrário.

Quando estava me formando em programação de computadores meu professor sempre dizia: “se o problema parece grande demais, quebre-o em dois pedaços; mas se cada pedaço ainda parecer muito grande, quebre-o mais uma vez”. A pergunta é: até que ponto teremos paciência de continuar “dividindo o problema em dois” para evitar que venhamos a dar um passo maior que as pernas? É essa a paciência que muitas vezes nos falta no processo de estudo da Palavra de Deus.