Gogue, da Terra de Magogue

O CONTEXTO

Qual o cristão que nunca ouviu falar da expressão “Gogue e Magogue”? Mesmo que superficialmente a grande maioria sabe que se trata de alguma profecia relacionada à oposição de nações do mundo contra a vontade do Senhor. Se fôssemos abordar todos os pormenores desse texto certamente seria preciso escrever um livro tratando sobre o assunto, mas o objetivo aqui por enquanto não é este.

A expressão “Gogue, da terra de Magogue” realmente se refere à Rússia como sugerem alguns? Seria este um inimigo que viria contra Israel antes da investida final que haverá de ser feita pelo próprio Anticristo? Ou Gogue é mais uma figura bíblica usada como elemento profético apontando para o mesmo velho último inimigo de sempre: o Anticristo?

Um dos maiores problemas ao se tentar interpretar o texto de Ezequiel, se deve ao fato de não considerarmos o contexto imediato a respeito do qual o profeta fala. Antes de tentar relacionar os povos mencionados no texto com alguma nação moderna dos nossos dias, precisamos compreender que as nações a respeito das quais ele falava na ocasião existiam de fato (Ezequiel 27.12-16, 18). Ezequiel não estava descrevendo o nosso mundo; ele descrevia o mundo da sua época.

EZEQUIEL 38.2
Filho do homem, volve o rosto contra Gogue, da terra de Magogue, príncipe de Rôs, de Meseque e Tubal; profetiza contra ele…

Embora já faça aproximadamente 2600 anos que o texto de Ezequiel tenha sido originalmente escrito, até hoje não há indício algum de que tenha existido alguma nação cujo nome tenha sido “Rôs”, como sugere a tradução acima de João Ferreira de Almeida para a versão Revista e Atualizada. Infelizmente algumas pessoas sugerem essa versão pois imaginam que o profeta Ezequiel falava especificamente da Rússia, dizendo inclusive que a grafia semelhante é um indicativo deste fato. Todavia, tudo indica que uma possível melhor tradução para a expressão hebraica original seja:

EZEQUIEL 38.2
Filho do homem, dirige o teu rosto para Gogue, terra de Magogue, PRINCÍPE E CHEFE de Meseque e Tubal, e profetiza contra ele…

“Rosh”, palavra que aparece no versículo acima, erroneamente traduzida como “Rôs” para dar a ideia de local ou nação, é uma palavra hebraica comum que é usada centenas de vezes nas Escrituras do Antigo Testamento. É comumente traduzida por “chefe”, “cabeça”, “fonte”, “líder”, etc. Um bom exemplo se encontra na expressão “Rosh Hashanah” que marca o início do Ano Novo judeu. É considerado o “dia mais santo”, por ser o primeiro dia santo do ano. Significa literalmente “cabeça do ano” ou “início do ano”. Em Israel há sacerdotes e sumo sacerdotes, a palavra hebraica que é traduzida para “sumo” é a palavra “rosh”, significando algo como “sacerdote chefe” ou “principal sacerdote” (confira: 2 Reis 25.18, 2 Crônicas 19.11, Esdras 7.5, etc.).

A palavra “rosh” aparece 39 vezes no livro de Ezequiel e é traduzida em nossas Bíblias por “cabeça” em Ezequiel 1.22 e 5.1; por “cimo” ou “cume” em Ezequiel 6.13; por “os mais finos” ou “os mais refinados” em Ezequiel 27.22; por “princípio” em Ezequiel 40.1.

Alguns argumentam que a palavra hebraica “rosh” deveria ser traduzida como substantivo e não como adjetivo, dando a entender que isto justificaria a existência de uma nação supostamente ligada à atual Rússia. No entanto eruditos afirmam que a palavra hebraica rosh pode muito bem ser traduzida como substantivo e ainda assim significar a mesma coisa que tem significado por todo o Antigo Testamento. Seguindo este raciocínio Ezequiel 38.2 poderia ser traduzido: “[Filho do homem], vira o teu rosto contra Gogue, da terra de Magogue, o príncipe, chefe de Meseque e Tubal”. Quer rosh seja traduzido como adjetivo ou substantivo sempre significará “chefe”.

EXTREMO NORTE
Alguns irmãos acreditam que os textos de Ezequiel 38 e 39 falam sobre um futuro ataque de forças Russas contra a terra de Israel. Acreditam nisso por causa de uma expressão encontrada em Ezequiel 38.6 e15 e Ezequiel 39.2 que fala sobre Gogue junto com seus aliados descendo contra Israel vindo “do lado do norte”, ou como dizem algumas versões “do extremo norte”. Assim, supõem que o texto esteja falando da Rússia. No entanto, seria perigoso interpretar terminologias bíblicas, principalmente de épocas tão longínquas quanto estas, forçando-as a se adequarem à realidade geográfica do mundo do século 21 D.C. A grande verdade é que para Ezequiel “o extremo norte” se encontrava exatamente na Ásia Menor (atual Turquia), esse era o limite norte do seu ponto de vista. Estender a perspectiva de Ezequiel fazendo referência a qualquer outro lugar mais distante, sem qualquer garantia bíblica, não é seguro.

Além disso, se a Ásia Menor não deve ser considerada o “extremo norte” do texto de Ezequiel, então por que parar na Rússia? Por que não seguir em frente até o Pólo Norte? Se isto parecer ridículo para alguns, então por que não Finlandia? Noruéga? Suécia? Todas estas se encontram diretamente acima de Moscou. Se estes irmãos não pretendem se limitar à perspectiva geográfica da época de Ezequiel, pois a suposta compreensão “mais literal” para a expressão “extremo norte” exige que eles interpretem assim, então seguindo a sua própria lógica hermenêutica, eles devem ir mais longe do que Moscou.

É interessante observar também que no versículo 6 de Ezequiel 38 a mesma descrição geográfica “lado do norte” ou “extremo norte” é usada para Togarma, cuja localização é virtualmente aceita por todos os estudiosos como sendo na região leste da Ásia Menor. Se a região da Ásia Menor foi considera suficientemente ao norte para Togarma, por que não considerá-la suficientemente ao norte para Gogue?

GOGUE É O ANTICRISTO?
Uma das razões porque surgiu a teoria da invasão de Gogue como algo à parte do ataque do Anticristo, se deve ao fato de muitos intérpretes bíblicos acreditarem que o Anticristo será um italiano que surgirá da mesma região de onde um dia surgiu o antigo império Romano. Como o texto de Ezequiel não fala sobre um inimigo vindo da região da Itália, foi preciso elaborar uma teoria que justificasse este futuro ataque ainda não cumprido na história.

Todos os profetas que falaram sobre o último inimigo do povo judeu apontam para um inimigo que virá do norte da terra de Israel. Alguns tentam introduzir a Rússia no texto de Ezequiel 38 e 39 simplesmente por não perceberem que o texto de Ezequiel fala sobre “o mesmo [inimigo do povo de Deus] a respeito do qual todos os outros profetas já tinham falado” como diz Ezequiel 38.17. Ora, NENHUM dos outros profetas antes (ou depois) de Ezequiel jamais falou sobre um último inimigo dos judeus vindo da Rússia ou mesmo da Itália.

EZEQUIEL 38.17
Assim diz o SENHOR Deus: [Gogue], Não és tu aquele de quem eu disse nos dias antigos, por intermédio dos meus servos, os profetas de Israel, os quais, então, profetizaram, durante anos, que te faria vir contra eles?

Todos os textos apontam para a antiga região do império Assírio (Isaías 7.15-20, Isaías 8.7,8, Isaías 10.12 e Miquéias 5.1-6), que é a mesma região da antiga divisão norte do falido império grego, também mencionada nas famosas profecias de Daniel (Daniel 7, 8, 9, 11). Todos estes textos apontam para o mesmo lugar ao norte de Israel: Anatólia, Ásia Menor ou como é chamada atualmente: Turquia; juntamente com outras partes da Síria, Líbano, Irã, Iraque, etc. Estes são naturalmente os “eternos” inimigos de Israel. Os árabes, em grande parte descendentes de Ismael, são a última ameaça contra o povo judeu na história das profecias bíblicas.

Este império do anticristo que os cristãos acreditam que vai surgir nos últimos dias se levantará a partir do oriente médio, a princípio numa confederação de 10 nações islâmicas, que se unirão (mesmo que continuem divididos) com o objetivo de “empurrar Israel para o mar” e decapitar todos os “blasfemadores cristãos” junto com outros “infiéis” que residam nos limites do seu domínio.