O que realmente diz Atos 13.48?

ACEITAÇÃO OU REJEIÇÃO DA VIDA ETERNA

Atos 13.48
Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna

Sobre o versículo acima é preciso dizer o seguinte: ainda que algumas versões em Português e outras traduções apresentem um sentido tendencioso de que supostamente “só creram aqueles que estavam espiritualmente predestinados a isso”, existem outras traduções possíveis do texto original que não podem ser ignoradas. De fato, existe mesmo um debate acadêmico entre os especialistas no grego do Novo Testamento se qualquer ideia de predestinação e determinismo poderia sequer ser acrescentada ao texto grego em questão. Digo acrescentada, pois, segundo argumentos de alguns estudiosos, não há nada disso no texto original. A ideia determinista, que hoje se encontra em algumas das nossas Bíblias, somente passou a aparecer em traduções ou versões que penderam à influência deste pensamento muitos anos atrás no início da idade média.

Citando apenas algumas versões em Português onde os linguistas optaram por traduções diferentes, temos os seguintes exemplos:

Atos 13.48 – Bíblia Viva
Quando os não-judeus ouviram isto, ficaram muito contentes e se alegraram com a mensagem de Paulo; e todos os que queriam a vida eterna, creram.

Atos 13.48 – Tradução do Novo Mundo
Quando os das nações ouviram isso, começaram a alegrar-se e a glorificar a palavra de Jeová, e todos os corretamente dispostos para com a vida eterna tornaram-se crentes.

Atos 13.48 – Bíblia Ave Maria
Estas palavras encheram de alegria os pagãos que glorificavam a palavra do Senhor. Todos os que estavam predispostos para a vida eterna fizeram ato de fé.

Atos 13.48 – Bíblia Livre
​E os gentios, tendo ouvido isto, alegraram-se, e glorificavam ao Senhor; e creram todos quantos estavam determinados para a vida eterna.

Talvez não fosse necessário dizer isso, mas pelo bem dos desavisados é importante mencionar que a palavra aí traduzida por “destinados” ou “ordenados” ou “apontados” ou “determinados” ou “designados” não é a mesma palavra grega que aparece traduzida por “predestinados”, e suas variações, nos textos de Efésios 1.5, Efésios 1.11 ou Romanos 8.29 ou mesmo Atos 4.28, 1 Coríntios 2.7 e Romanos 8.30.

Efésios 1.5, 11; Romanos 8.29, 30; Atos 4.28 e 1 Coríntios 2.7, usam a palavra “προοριζω”, corretamente traduzida por predestinar, predestinação, preordenar, etc.; embora muita gente boa não compreenda o sentido do texto onde a palavra aparece. Por outro lado, a palavra grega, que aparece em Atos 13.48, traduzida por “destinados” em algumas versões, é a palavra “τεταγμένοι”, derivada de “τασσω”.

A palavra grega que em Atos 13.48 fora traduzida em algumas versões por “destinados”, por si só, não tem significado algum de preordenação, predestinação ou predeterminação. Os únicos significados possíveis que ela contém são: marcar, apontar, designar, determinar, ordenar, instituir, constituir, organizar, arrumar, resolver, sujeitar-se, dedicar-se, concordar, etc.. É bom também que se diga que em Atos 13.48 não aparece qualquer outra palavra grega complementar (ou qualquer prefixo adicionado à palavra em questão) que junto a ela pudesse dar a ideia de uma determinação PRÉVIA ou ANTECIPADA. A sugestão interpretativa que tem atribuído a este versículo a ideia de uma suposta predeterminação divina desde a eternidade é puramente especulativa. E, como se não bastasse isso, a ideia é que “só poderiam acreditar aqueles que já tivessem sido escolhidos por Deus para terem a condição de fazer isso”, ou seja, segundo essa teoria, só pode ter fé nessa vida quem foi predestinado pra ter! Olha que loucura!

Alguns dos exemplos de tradução desta mesma palavra grega em contextos diferentes podem ser observados nas palavras em maiúsculo nos versículos abaixo:

Atos 28.23 – “havendo-lhe eles MARCADO um dia…”
Romanos 13.1 – “…as autoridades que existem foram por ele INSTITUÍDAS”
Atos 15.2 – “os irmãos RESOLVERAM que Paulo e Barnabé e mais alguns dentre eles subissem a Jerusalém”
Lucas 7.8 – “Também eu sou homem SUJEITO à autoridade…”
1 Coríntios 16.15 – “sabeis que a casa de Estéfanas são as primícias da Acaia e que se CONSAGRARAM ao serviço dos santos”

Adam Clarke, combatendo a interpretação atribuída a esta palavra pelos fatalistas e deterministas religiosos, diz que antes de tudo “deveríamos ser cuidadosos ao examinar o que uma palavra significa, antes de qualquer tentativa de adequação dessa palavra ao contexto. A palavra “tetagmenoi” em Atos 13.48, traduzida em algumas bíblicas por ordenados, não inclui qualquer ideia de preordenação ou predestinação de qualquer tipo. E se porventura incluísse, seria perigoso afirmar que todos aqueles que creram naquela ocasião estariam preservados até o fim e que estariam salvos até a manifestação da vida eterna”.

Na tradução inglesa de Clarke e Whitby o versículo em questão ficaria em Português mais ou menos assim: Os gentios, ouvindo isto, alegraram-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram tantos quantos se dispuseram para a vida eterna. O que é bastante semelhante às quatro versões em Português citadas no início desse artigo. Outra versão em Português também faz uma tradução semelhante: “Ouvindo-o, pois, os gentios, alegravam-se e glorificavam a Palavra do Senhor, e creram quantos estavam alinhados para vida eterna”. Esta é uma versão do Novo Testamento na segunda pessoa, com linguagem formal e transliterada que se baseia no Texto Recebido conhecida por NT2FTRANS. De fato, mesmo a versão Almeida Corrigida Fiel (ACF 2011), que, em certos aspectos, é considerada uma das melhores versões que temos em Português, apresenta este versículo da seguinte maneira: “E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna”. Quando o tradutor escolhe traduzir a palavra “τεταγμένοι” (tetagmenoi), por “ordem, ordenar, ordenado”, etc., como na ACF, a tradução poderá assumir dois sentidos: uma pessoa que dá uma ordem a alguém ou alguém que se põe em ordem para uma pessoa (ou para alguma coisa). A palavra grega poderia ser usada tanto para se referir a “uma ordem dada” por um oficial militar, como para se referir ao pelotão de soldados que se “põe em ordem” para executar uma determinada atividade.

Em outras palavras, algumas pessoas tem pensado que o texto está falando que “Deus os ordenou para a vida eterna” e, pela forma que falam, parece que os mesmos nunca foram informados de que “eles se puserem em ordem para a vida eterna” é uma tradução realmente possível do texto. Além disso – quero repetir – não há qualquer fragmento de texto neste versículo que acrescente um sentido de ordenação PRÉVIA ou ANTECIPADA, de qualquer forma ou espécie.

A interpretação de Atos 13.48, apresentada nos parágrafos anteriores, e defendida por inúmeros eruditos, é muito mais natural do que qualquer outra que se possa tentar encontrar, pois o próprio contexto parece indicar exatamente isso.

Ao conferirmos o texto de Atos 13.16-52 observamos que a narrativa deixada por Lucas parece indicar que ele tentava demonstrar a diferente atitude de dois grupos de pessoas que tiverem a chance de ouvir a pregação do Evangelho. No verso 16 ele relata que Paulo se dirigiu a “israelitas e outros que temiam a Deus”, ou seja: judeus e gentios tementes. Observe também que no verso 41 Paulo, citando um texto profético, diz que “os desprezadores não iriam crer na obra de Deus se alguém lhes contasse”. No versículo 43 Lucas diz que “muitos dos judeus e dos prosélitos piedosos seguiram Paulo e Barnabé”, e, obviamente, os que seguiram Paulo e Barnabé não estão entre os desprezadores mencionados no versículo 41, basta observar que os apóstolos os “persuadiam a perseverar na graça de Deus”. O que acontece é que no final de semana seguinte, quando os apóstolos voltaram a ministrar na mesma sinagoga, alguns judeus foram tomados pela inveja porque viram grandes multidões ali presentes, vindos de toda a cidade, para ouvi-los pregar. Então, judeus invejosos passaram a contradizer o que Paulo falava, e com isso blasfemavam contra o Evangelho. Estes judeus são os mesmos desprezadores mencionados por Paulo anteriormente, que ao mesmo tempo também são chamados de incrédulos, como ele havia dito: “os desprezadores não crerão”. De fato, a palavra também fora pregada a eles, mas, segundo o texto bíblico, ELES A REJEITARAM (v.46); e, assim, tornaram-se indignos da vida eterna. Os gentios, por sua vez, receberam a mensagem de salvação de bom grado e estavam abertos a recepção da vida eterna (v. 48).

Em outras palavras, o que vemos no contexto é o seguinte:

  • Paulo mencionou o texto profético que dizia que quem desprezasse aquela obra específica de Deus não iria crer (v. 41);
  • Os judeus fizeram exatamente isso: desprezaram a obra de Deus! (v. 46);
  • Os judeus, desprezadores, não creram e não estavam dispostos à receber a vida eterna (v. 46);
  • Os gentios, em vez de desprezar ou rejeitar a obra de Deus, ao ouvirem as novidades, se alegraram e creram (v. 48);
  • Os gentios que creram não eram desprezadores, e, diferentemente dos judeus, estavam dispostos para a vida eterna.

Na conclusão da narrativa de Lucas, ele ainda menciona que os judeus desprezadores e incrédulos instigavam as pessoas da cidade contra os apóstolos e levantavam perseguição contra eles a ponto de os expulsarem do seu território (v. 50). Por outro lado, PORÉM, os que creram na mensagem, agora chamados de discípulos no versículo 52, “transbordavam de alegria e transbordavam também do Espírito Santo”.

Seria uma tolice pensar que o texto estaria falando que só poderia crer quem havia sido previamente destinado para isso, pois o próprio Paulo deixa bem claro em seus textos que ninguém é incondicionalmente predestinado à vida eterna. Em Romanos 11.20-23 Paulo diz: “Os judeus foram quebrados por causa de SUA INCREDULIDADE; tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não fique soberbo por causa disso, mas tenha temor; porque, se Deus não poupou os judeus que, naturalmente estavam no caminho da salvação, também não te poupará. Por isso considere a bondade e a severidade de Deus: sua severidade será demonstrada naqueles que foram incrédulos e por isso caíram; mas, para contigo, será demonstrada a sua bondade, SE VOCÊ PERMANECER nela, claro; porque se não permanecer, você também será cortado como eles foram. Sim, e é bom que se diga que eles também, por outro lado, SE NÃO PERMANECEREM na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para os enxertar DE NOVO”.

EXISTE ALGUMA OUTRA POSSÍVEL INTERPRETAÇÃO DO TEXTO?

Para quem não sabe, a teoria da arbitrariedade divina prega que antes de nascer todo e cada homem fora destinado a ser, fazer ou crer exatamente aquilo que Deus quis; e tem mais: em tratando-se de fé, só poderia ter a capacidade de crer na mensagem do Evangelho aqueles que tivessem sido predestinados para isso. Ainda que se contradigam em suas declarações, alguns entre eles até dizem assim: “ninguém pode crer se primeiro não nascer de novo, e a pessoa só poderá receber a regeneração espiritual em sua vida se caso ela tiver sido escolhida para isso antes de ter nascido”. Exatamente por isso, alguns deles se perdem nesse versículo ao se depararem com a forma que o texto se encontra em algumas versões: “e todos os que estavam destinados à vida eterna, creram”. Outras versões, meramente interpretativas, ainda dizem: “E todos os que Deus escolheu para a vida eterna creram na sua palavra”, ou alguma variação semelhante à mesma ideia de “só terem crido por terem sido supostamente escolhidos por Deus antes de terem nascido”. Lembrando que o texto grego sequer contém estas palavras.

Ora, os judeus só foram acusados de rejeitar a palavra de Deus (Atos 13.46) porque tinham plena condição de recebê-la. Se por alguma razão houvesse uma força superior que os impedisse de receber a palavra e se eles a tivessem rejeitado porque haviam sido previamente destinados a isso, então, eles não deveriam ser responsabilizados; e, o texto bíblico, por sua vez, não poderia ter sido escrito da forma que foi, pois induziria os leitores ao erro de pensar que os judeus poderiam ter crido. O fato é que se o texto bíblico, que é divinamente inspirado, diz que os judeus rejeitaram a palavra, seria tolice querer acreditar “por fina força” que os judeus a rejeitaram porque foram predestinados por Deus a fazer isso.

Sei que alguns podem pensar que a frase final do parágrafo anterior foi uma piada, mas, pasme você, tem mesmo gente que pensa desse jeito: que se alguém rejeita o Evangelho, tal pessoa o faz porque fora espiritualmente pré-programada para fazer exatamente isso! Alguns foram tão longe nessa filosofia diabólica que chegaram a dizer que pessoas assim não foram geradas por Deus (ainda que a Bíblia diga que Deus é o Pai dos espíritos) e dizem também que tais pessoas são apenas “demônios encarnados” se passando por seres humanos na terra. Usando expressões das parábolas de Jesus dizem que elas são “filhas do Diabo”, “sementes plantadas pelo inimigo” neste mundo e, por isso, estão impossibilitadas de crer e assim estão destinadas à danação eterna. Independente dos pormenores da fé seguida pela pessoa que sustenta a interpretação determinista, sempre soará mais ou menos como a ideia de castas, onde uma pessoa está destinada a fazer parte de um determinado grupo, sem jamais poder sair de uma casta para a outra.

A despeito dos malabarismos teológicos realizados pelos defensores do fatalismo divino, vamos fazer um pequeno exercício. Por um momento suponhamos que o texto estivesse realmente falando sobre destinos que Deus havia estabelecido previamente. Ainda assim, não precisaríamos recorrer às especulações mirabolantes da filosofia determinista para entender Atos 13.48 em seu devido contexto. Bastava que considerássemos os dois únicos destinos possíveis preparados por Deus para todos os homens como uma consequência lógica para suas ações: a vida e comunhão eterna para os crentes e o eterno juízo divino para os que rejeitassem a oferta da graça de Deus. Tendo esse pensamento básico e lógico em mente, não seria difícil chegar a uma conclusão muito menos mirabolante, apenas pelo contexto. Observe as linhas a seguir.

Desde Moisés até o início do Evangelho os gentios que queriam aproximar-se de Deus de alguma forma, tinham que se tornar prosélitos do judaísmo ou apenas observar seus preceitos, sem necessariamente se converterem, sendo assim considerados como homens “tementes a Deus”. No entanto, diferentemente do que a maioria dos judeus poderia pensar, os gentios também já estavam incluídos no plano de salvação. É exatamente sobre isso que Paulo tenta explicar na carta aos efésios quando diz que “os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa” (Efésios 3.6). Em Efésios 2.11-22 ele explica resumidamente a revelação que recebera de Deus sobre o plano que este tinha para a salvação de judeus e gentios, mostrando que ambos, em Cristo, teriam acesso ao Pai. Se estivéssemos conscientes deste fato, ao lermos o contexto de Atos capítulo treze, tudo faria mais sentido.

Em Atos, Lucas registra a rejeição da maioria dos judeus, que mesmo tendo sido destinados à salvação, desprezaram a mensagem do Evangelho e, como incrédulos, tornaram-se indignos da vida eterna. Por outro lado, os gentios, embora estivessem longe da comunidade de Israel, mas que também estavam inseridos no plano de Deus para a salvação, creram. Em outras palavras, a salvação não era somente para os judeus, eles não seriam os únicos privilegiados; pois os gentios, também, haviam sido destinados para a vida eterna. Se quisermos usar Atos 13 para falar sobre alguém sendo destinado para a vida eterna em vez da “boa disposição dos gentios para com a mensagem da vida eterna”, deveríamos, pelo menos, respeitar o desenvolvimento da ideia apresentada no contexto.

Observe as expressões usadas pelo texto de Atos 13 que priorizam a conclusão lógica de que o Evangelho deveria ser pregado inicialmente aos judeus, e a partir dos judeus, também alcançar os gentios:

  1. Paulo e seus companheiros FORAM A UMA SINAGOGA, v. 14;
  2. Os CHEFES DA SINAGOGA deram-lhes a palavra em determinado momento da sua reunião, v. 15;
  3. Paulo se dirigiu primeiramente aos VARÕES ISRAELITAS reunidos ali, mas também aos que ali estavam que temiam a Deus, v. 16;
  4. A mensagem de Paulo é sobre o que foi feito pelo DEUS DESTE POVO de Israel, v. 17;
  5. Paulo diz que DEUS ESCOLHEU OS ANTEPASSADOS HEBREUS e que Deus EXALTOU ESSE POVO, v. 17;
  6. Paulo faz um breve resumo da HISTÓRIA DE ISRAEL, vv. 18-22;
  7. Paulo diz claramente que Deus trouxe o Salvador A ISRAEL, v. 23;
  8. Também diz que primeiro apareceu João que pregou ARREPENDIMENTO A TODO O POVO DE ISRAEL, v. 24;
  9. Paulo diz claramente a quem foi destinada a palavra da salvação: À DESCENDÊNCIA DE ABRAÃO, em primeiro lugar, E, aos que temiam a Deus, v. 26;
  10. O Salvador foi morto EM JERUSALÉM, v. 27;
  11. AS PROFECIAS HEBRAICAS, QUE SE LIAM TODOS OS SÁBADOS, se cumpriram quando o Salvador foi condenado, v.27;
  12. Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos e os JUDEUS CRENTES, que o acompanhavam antes, tornaram-se suas testemunhas oculares, vv. 30-31;
  13. Paulo disse que as testemunhas oculares de Cristo anunciavam o evangelho da promessa que tinha sido FEITA AOS PATRIARCAS DO POVO HEBREU, v. 32;
  14. Paulo disse que Deus cumpriu a promessa AOS DESCENDENTES DOS PATRIARCAS JUDEUS, v. 33;
  15. Paulo menciona a PROMESSA QUE DEUS FEZ A DAVI. A promessa era queum dos seus descendentes se assentaria no seu trono para sempre, para governar sobre os descendentes de Abraão, Isaque e Jacó, v. 35;
  16. Paulo enfatiza o fato de que a REMISSÃO DE PECADOS DOS ISRAELITAS era anunciada por meio de Jesus Cristo, v. 38;
  17. Paulo disse também que TODO JUDEU que cresse seria justificado de tudo que não pôde ser justificado PELA LEI DE MOISÉS, v. 38;
  18. Agora preste bem atenção, pois Paulo adverte ESPECIALMENTE AOS JUDEUS quando diz que “os desprezadores não creriam na obra que Deus realizaria em seus dias quando alguém lhes contasse”, vv. 40-41;
  19. NEM TODOS OS JUDEUS poderiam ser considerados desprezadores, e, exatamente por isso, alguns JUDEUS CRERAM NA OBRA DE DEUS quando alguém lhes contou sobre ela, v. 41;
  20. MUITOS JUDEUS e também gentios convertidos, seguiram Paulo e Barnabé após a pregação daquele primeiro sábado, vv. 42-43;
  21. Paulo e Barnabé persuadiram OS JUDEUS E OS GENTIOS QUE CRERAM a perseverar na graça de Deus, v. 43;
  22. A repercussão da pregação dos apóstolos chamou a atenção de QUASE TODA A CIDADE, que veio para ouvir a ministração da palavra, v. 44;
  23. OS JUDEUS, com inveja, contradiziam Paulo e blasfemavam contra o plano divino para a salvação de todos os homens, que certamente estava entre as palavras daquilo “que Paulo falava” v. 45; pois Paulo pregava que Deus queria que todos os homens fossem salvos e chegassem ao pleno conhecimento da verdade (1 Timóteo 2.4);
  24. Quando OS JUDEUS se demonstraram indispostos em receber a mensagem de salvação pela graça de Deus em Cristo Jesus e não pela observância da Lei de Moisés, os apóstolos repreenderam os judeus com grande ousadia, v. 46;
  25. Paulo e Barnabé disseram que era necessário que a palavra de Deus fosse pregada PRIMEIRAMENTE AOS JUDEUS, v. 46;
  26. Os apóstolos disseram claramente que OS JUDEUS rejeitaram a mensagem do Evangelho, e que a partir de então eles se dedicariam a ministrar em favor dos gentios, v. 46;
  27. Os apóstolos disseram que SE DEDICARIAM AOS GENTIOS porque Deus os havia determinado a fazer isso, v. 47;
  28. Paulo e Barnabé disseram que a determinação de Deus para eles era que “levassem a luz PARA OS GENTIOS, afim de que a mensagem deles fosse para SALVAÇÃO DOS GENTIOS ATÉ OS LIMITES DA TERRA, v. 47;
  29. Lucas relata que quando OS GENTIOS ouviram que Deus tinha enviado uma palavra para que eles fossem salvos, todos eles, que haviam sido destinados para a vida eterna, ficaram alegres e creram, v. 48;

O texto todo está demonstrando que judeus e gentios estavam nos planos de Deus para a salvação. Aos judeus primeiro, mas também aos gentios (Romanos 1.16), pois para com Deus não há acepção de pessoas (Romanos 2.9-11). Atos 13.48 então estaria simplesmente dizendo que os gentios, que entenderam que também haviam sido destinados à vida eterna, creram e se alegravam com esta verdade.

O contexto sempre esclarece qualquer passagem aparentemente obscura, e aqui não é diferente. Observe que o autor do texto vem relatando as preleções de Paulo entre os judeus e os gentios e a forma como cada grupo reagiu à oferta do Evangelho. Os judeus, que se achavam os únicos destinados à salvação, rejeitaram o Evangelho movidos por inveja quando viram que os gentios seriam facilmente aceitos. O que os judeus naquele momento não estavam querendo aceitar é que os gentios, também, estavam destinados à vida eterna.

Até mesmo fazendo uso de técnicas exegéticas seria possível chegar à essa conclusão no texto de Atos 13.48. Procure algumas bíblias digitais com versões em grego, além de ferramentas que analisam a construção textual e gramatical do texto original e você observará que esta poderia ser uma tradução possível do versículo: “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e eles, que haviam sido apontados para a vida eterna, creram”.

Outras possibilidades:

  • “Ao ouvir, os gentios se alegravam, e glorificaram a palavra do Senhor; e creram, todos eles, que estavam designados para a vida eterna”;
  • “Ao ouvir, os gentios se alegravam, e glorificaram a palavra do Senhor; e todos eles creram que estavam designados para a vida eterna”;
  • “Ouvindo isto, os gentios se alegraram e glorificaram a palavra do Senhor; e creram: todos estavam designados para a vida eterna! ”, ou “…e creram que todos estavam designados para a vida eterna”.

Três coisas importantes devem ser consideradas ao se tentar traduzir este texto:

  1. Os possíveis significados da palavra grega “τεταγμένοι” derivada do verbo “τασσω”, que de acordo com o contexto pode ser traduzida por marcar, apontar, designar, determinar, ordenar, instituir, constituir, organizar, arrumar, resolver, sujeitar-se, dedicar-se, concordar;
  2. A palavra “οσος” que, tendo função similar ao nosso pronome relativo, pode significar: “todos, todos que, tantos quantos, que, eles” e mais uma infinidade de coisas diferentes dependendo do contexto. Confira o verbete no dicionário Grego de Strong em inglês, número G3745;
  3. O fato de que no texto originalmente escrito em grego não havia as pontuações que aparecem em nossas traduções: vírgulas, ponto e vírgula, dois pontos, exclamação, etc.. Na verdade, nem mesmo os espaços entre as palavras estavam presentes. Tais coisas foram sendo acrescentadas posteriormente à medida que os textos iam sendo copiados manualmente ao longo das gerações.

Aqui eu deixo o texto interlinear de Atos 13.48 do Novo Testamento grego de Westcott-Hort com números do dicionário de Strong:

ακουοντα G191 OUVIRAM δε G1161 E τα G3588 OS εθνη G1484 GENTIOS εχαιρον G5463 SE ALEGRARAM και G2532 E εδοξαζον G1392 GLORIFICANDO τον G3588 λογον G3056 A PALAVRA του G3588 DE θεου G2316 DEUS και G2532 E επιστευσαν G4100 CRERAM οσοι G3745 TODOS QUE ησαν G2258 ESTAVAM τεταγμενοι G5021 APONTADOS εις G1519 PARA ζωην G2222 VIDA αιωνιον G166 ETERNA

Por último, quero fazer uma pequena brincadeira: se alguém supõe que pode acrescentar sentido ao texto por simpatizar por uma linha interpretativa em particular, eu também poderia fazer isso e apresentar a seguinte versão: “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e todos quantos creram foram destinados à vida eterna”. E daí se as palavras originais não permitem que esta seja uma tradução possível? Deterministas não acrescentam palavras e sentidos de acordo com seus gostos? Por que não posso participar da mesma brincadeira sem me importar com o que o texto possa realmente querer dizer com suas palavras originais e seu contexto?

GNÓSTICOS, AGOSTINHO, VULGATA E A CONFUSÃO

Por último, mas não menos importante, gostaria de citar Gleason L. Archer Jr, que diz que em 382, o padre Jerônimo foi comissionado pelo Papa Damaso para revisar a Bíblia Itala com base na Septuaginta Grega. A versão latina chamada Vulgata não foi uma tradução direta do original. É interessante observar também que a Vulgata surgiu na época em que Agostinho vivia. Mais interessante ainda é que esta versão carregava forte influência dos ensinos de Agostinho, principalmente no que se referia à predestinação e à negação do livre-arbítrio. Fluente em latim, Calvino também usou muito a Vulgata. Isto porque a Vulgata foi praticamente, por mil anos, a única Bíblia conhecida e lida na Europa Ocidental.

A construção da ideia de uma suposta preordenação à vida eterna inserida em nossas Bíblias hoje em dia, como no texto de Atos 13.48, vem da influência da Vulgata; que segundo Alford, citando Wordsworth: “É uma versão com inúmeras falhas, imprecisões, inconsistências, e colocações arbitrárias nos detalhes”. Ele ainda comenta que os pais orientais, que liam o original grego, foram em uma direção diferente daquela da escola ocidental; e entre eles o Calvinismo não pôde receber qualquer apoio deste texto e outros semelhantes, que, na Vulgata, estavam torcidos e tendenciosos. O texto de Atos 13.48 da Vulgata não tinha apoio quando colocado diante dos manuscritos gregos próximos aos originais, nem mesmo quando comparado com a literatura da Igreja primitiva.

A versão Vulgata veio a influenciar muitas outras versões que vieram depois; todavia, ela mesma recebeu a influência de inúmeras ideias de um homem chamado Agostinho, que introduziu ao Cristianismo a velha filosofia gnóstica da antiguidade tardia de classes espirituais predefinidas para os seres humanos, com seus destinos fixos previamente estabelecidos.

Os gnósticos da Antiguidade Tardia formaram seitas iniciáticas baseadas na distinção radical entre os chamados Hílicos e Pneumáticos. Os Hílicos seriam a escória da humanidade, os profanos, não-convertidos, que no Cristianismo ganharam o nome de “réprobos”. Por outro lado, os Pneumáticos seriam aqueles que possuíam o Espírito Santo, e, no Cristianismo, foram rebatizados de eleitos”. No determinismo gnóstico apenas para os Pneumáticos havia a possibilidade existencial de salvação, ao passo que os Hílicos estavam destinados à morte espiritual. Quando esta mesma ideia foi introduzida no Cristianismo pela influência filosófica de Agostinho, uma terminologia adaptada foi engenhosamente elaborada, reconstruída e sistematizada com um palavreado emprestado da Bíblia, e no caso da Vulgata, tais ideias filosóficas também foram emprestadas à Bíblia, ou seja, o texto recebeu a alteração necessária para a devida adequação às ideias pretendidas.

Em meio às loucuras dessa filosofia, já misturada ao Cristianismo agostiniano, desenvolveu-se a ideia de que só viriam a crer em Cristo aqueles que houvessem sido anteriormente destinados para isso. Assim, de lá para cá a Vulgata veio influenciando essa interpretação do texto bíblico, gerando traduções confusas e incompatíveis com o verdadeiro Evangelho, como se pode ver no texto de Atos 13.48.