Nosso destino previamente estabelecido por Deus

Deus nos predestinou para sermos filhos adotivos?

EFÉSIOS 1.3-5
3 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais EM Cristo,
4 ASSIM COMO NOS ESCOLHEU NELE antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e EM AMOR
5 NOS PREDESTINOU para ele, PARA A ADOÇÃO DE FILHOS, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade.

Um erro comum cometido por comentaristas que tratam sobre o texto bíblico acima é não entender que Paulo não falou sobre “termos sido predestinados para nos tornarmos filhos de Deus”, ou seja, não fomos “predestinados para confessarmos Cristo como Senhor da nossa vida”. Uma das principais razões dessa confusão se deve à falta de familiaridade com a teologia de Paulo, uma falta de compreensão real dos termos por ele usados. A expressão “adoção de filhos”, usada unicamente por Paulo nas Escrituras, não tem o mesmo significado técnico legal que usamos em nossa sociedade nos dias de hoje.

Em lugar algum o Novo Testamento considera os cristãos como “filhos de Deus adotados”, e a única razão pela qual pensamos que ele faça isso é quando lemos a expressão aí traduzida por “adoção de filhos” ou como em outras versões “filhos de adoção”. Na verdade, ao crermos em Cristo somos regenerados e não apenas “adotados” no sentido em que usamos a palavra em nossa cultura. Não fomos simplesmente “aceitos” na família; nós estamos na família porque “fomos gerados pela divina semente do Pai”. Somos filhos de Deus porque nascemos de Deus, fomos gerados por ele! É um novo nascimento! Embora não seja satisfatoriamente claro, o dicionário Vine não deixa de comentar que a expressão “adoção de filhos” é “uma tradução incorreta e enganosa” (pág. 374).

A expressão “adoção de filhos”, usada por Paulo, diz respeito, na verdade, ao momento em que usufruiremos dos direitos plenos da nossa herança como filhos de Deus. Ele a usa como figura em Gálatas 4, mas a expressa mais claramente no livro de Romanos:

ROMANOS 8.23
E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a ADOÇÃO DE FILHOS, A REDENÇÃO DO NOSSO CORPO.

Na versão Almeida Corrigida Fiel (ACF) está escrito assim: “E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a ADOÇÃO, A SABER, A REDENÇÃO DO NOSSO CORPO.”

Observe que a adoção de filhos não é outra coisa se não a plenitude da possessão da nossa herança em Cristo, e, como visto no texto acima de Romanos, isso é uma coisa a acontecer no futuro e não algo que ficou no passado, supostamente quando “fomos adotados como filhos”. Essa futura possessão da nossa herança é referida por Paulo através da expressão “adoção de filhos” com o sentido de REDENÇÃO DO NOSSO CORPO.

Mais ou menos como o filho que tem direito a tudo que pertence ao pai, mas não tomará posse enquanto não chegar o tempo previamente determinado por ele. Somente depois de adulto, o filho receberá o direito pleno, a posse completa, de tudo aquilo que lhe foi destinado. Esta talvez seja a melhor forma de compreender o sentido usado por Paulo para a expressão. Podemos usar a trajetória experimentada por Jesus como referência para aquilo que acontecerá conosco também. Os acontecimentos na vida de Jesus exemplificam a nossa própria história, o nosso próprio futuro. Sabemos que ele é o nosso representante, o ícone de toda a humanidade restaurada por Deus; ou, como diz o texto de Hebreus 6.20, ele é o “NOSSO PRECURSOR” que penetrou os céus, como nosso supremo representante. Assim como Jesus era filho de Deus enquanto esteve na terra, mas apenas após a sua ressurreição é que ele foi declarado FILHO DE DEUS EM PODER, assim também nós. Alguns desconhecem plenamente esse fato, mas foi Paulo mesmo quem disse que o Evangelho que ele pregava, que também fora anteriormente prometido por Deus, tratava sobre o seu filho, que, segundo a carne, era descendente de Davi, mas tinha sido DECLARADO FILHO DE DEUS COM PODER, PELA RESSURREIÇÃO dos mortos (Romanos 1.1-4).

Esta é a verdadeira teologia de Paulo, que pode ser percebida ao longo de todo Novo Testamento. Veja outro exemplo:

ATOS 13.32,33
32 Nós vos anunciamos O EVANGELHO DA PROMESSA feita a nossos pais,
33 como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos, RESSUSCITANDO A JESUS, COMO TAMBÉM ESTÁ ESCRITO no Salmo segundo: TU ÉS MEU FILHO, eu, HOJE, TE GEREI.

No texto acima Paulo está dizendo que a declaração profética “tu és meu filho, eu, hoje, te gerei” se cumpriu quando Deus ressuscitou Jesus! Ou como já vimos em Romanos: “Jesus foi declarado filho de Deus com poder pela ressurreição dos mortos”.

FOMOS PREDESTINADOS PARA SERMOS A IMAGEM E SEMELHANÇA DO QUE JESUS É HOJE

Por isso Paulo em Romanos 8 falando da nossa história e do nosso destino predefinido em Cristo, diz o seguinte: “Ora, se somos filhos, somos também herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; SE COM ELE SOFREMOS, TAMBÉM COM ELE SEREMOS GLORIFICADOS. Porque para mim tenho por certo que os SOFRIMENTOS DO TEMPO PRESENTE não podem ser comparados com a GLÓRIA A SER REVELADA EM NÓS (Romanos 8.17,18). Paulo está dizendo que o sofrimento é para o tempo presente, ao passo que a gloria será revelada em nós no tempo futuro. Observe também que Paulo está falando que esta glória será revelada “EM NÓS” e não “PARA NÓS”. A glória se revelará EM NÓS porque nosso corpo de humilhação será transformado para ser semelhante ao corpo da sua glória (Filipenses 3.21). Ao falar sobre a “glória que se revelará em nós” no futuro, Paulo está novamente se referindo ao que ele chamava de a “redenção do nosso corpo”, como aparece em Romanos 8.23.

Paulo está dizendo que os atuais sofrimentos cristãos (sofrer como Cristo) nos trarão uma futura boa consequência: a glória! Por isso em outro lugar ele fala que “a nossa leve e momentânea tribulação PRODUZ para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2 Coríntios 4.17). Guarde isso: O sofrimento (presente) produz a glória (futura).

É por causa da afinidade que há entre o sofrimento e glorificação de Cristo com o sofrimento e glorificação do crente, que Paulo diz que todas essas coisas que sofremos aqui, explicitadas no texto de Romanos 8, “COOPERAM PARA O BEM daqueles que foram chamados segundo o propósito de Deus, PORQUANTO Deus os predestinou para serem conformes à imagem de seu filho”. Ou seja, Cristo na terra sofreu e foi declarado filho de Deus em poder através da glória da ressurreição; assim, nós também, por enquanto estamos sofrendo, mas este sofrimento cristão coopera para o nosso bem PORQUE Deus nos predestinou para o mesmo fim que Cristo alcançou por ter sofrido antes! Se sofrermos com Cristo, com ele também seremos glorificados! (Rm 8.17).

É exatamente sobre o conteúdo do parágrafo anterior que Paulo está falando quando diz que Deus nos “predestinou para sermos conformes à imagem de seu filho”, expressão essa que até hoje muita gente pensa que entende, mas demonstra sua ignorância a respeito do assunto quando não percebe que Paulo falava sobre o destino DO CRENTE e não de um destino para “nos FAZER CRENTES”.

ROMANOS 8.29
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.

Veja mais uma vez que quando Paulo fala da nossa predestinação ele não está falando que fomos predestinados para crer em Cristo, e sim que, depois de crentes, fomos predestinados para sermos como Cristo.

Cristo experimentou três estados diferentes ao longo da sua existência eterna:

1. Quando estava na forma de Deus, antes de tornar-se homem;
2. Os dias da sua carne, quando desceu do céu tornando-se na forma de servo de Deus;
3. O seu estado atual, após ter ressuscitado e voltado para o céu, agora com um copo de carne e ossos, com o qual está assentado à direita da majestade nas alturas.

Quando Paulo disse que Deus “nos predestinou para sermos conformes à imagem de seu filho”, ele não está falando de outra coisa senão que nosso destino é ser o que Jesus é! Não o que Jesus foi, mas o que ele é hoje, após a ressurreição. Por isso que no texto de Romanos, sobre o qual estamos falando, Paulo diz que “Deus nos predestinou para sermos como Jesus, AFIM DE QUE Jesus seja o primeiro gerado dos mortos entre muitos irmãos”. Em outras palavras: o estado no qual se encontra Jesus atualmente após a sua ressurreição, será o mesmo que teremos quando ressuscitarmos também. Paulo não estava falando sobre termos a imagem de Cristo quando ele esteve na terra (nos dias da sua carne), mas sobre futuramente termos a imagem que Cristo já tem, assentado à destra de Deus. É sobre esta predestinação que Paulo ensina em suas epístolas. Foi para isso que fomos predestinados quando cremos em Cristo! Para que Jesus seja o PRIMOGÊNITO entre muitos irmãos. A palavra primogênito significa “primeiro gerado” e já sabemos que, segundo Paulo, Jesus foi “gerado filho de Deus com poder” mediante a ressurreição dos mortos, como dizem os textos de Romanos 1.3,4 e Atos 13.32,33. É por isso que Jesus também é chamado de “o primogênito dos mortos” em Apocalipse 1.5.

João, o apóstolo, em sua primeira carta, também menciona o mesmo princípio do qual estamos tratando aqui, observe abaixo:

SOMOS O QUE ELE FOI, MAS SEREMOS O QUE ELE É

1 JOÃO 3.1-3
1 Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não o conheceu a ele mesmo. 2 Amados, agora, somos filhos de Deus, e AINDA NÃO SE MANIFESTOU o que HAVEREMOS DE SER. Sabemos que, quando ele se manifestar, SEREMOS SEMELHANTES A ELE, porque haveremos de vê-lo como ele é.

O texto do parágrafo anterior nos leva à concluir que hoje nós somos o que o Senhor Jesus foi quando esteve na terra, mas que no futuro da nossa redenção seremos semelhantes ao que ele já é. Fomos o que ele foi, mas seremos o que ele é! Foi para isso que Deus nos predestinou, que é a posse da plenitude da nossa herança.

DEUS NOS PREDESTINOU PARA A REDENÇÃO DO NOSSO CORPO

Ao lermos novamente o texto de Efésios tendo a compreensão de que Paulo está se referindo a um acontecimento futuro e não a respeito de alguma coisa passada, fica mais fácil perceber o que ele tem em mente, que, por sua vez, se harmoniza com os outros textos das Escrituras a respeito do assunto.

“Deus, EM AMOR NOS PREDESTINOU para ele, PARA A ADOÇÃO DE FILHOS, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1.,5). Como a expressão “adoção de filhos” diz respeito à nossa transformação futura a exemplo do que aconteceu com Jesus, nosso precursor, que penetrou os céus (Rm 8.23, Hb 6.20); então, compreendemos que Paulo está dizendo que “Deus, amavelmente, nos predestinou POR MEIO de Cristo, PARA A REDENÇÃO DO NOSSO CORPO”. Usando os termos de Romanos 8.29 Paulo está dizendo que Deus nos predestinou para sermos conformes à imagem do seu filho Jesus, aquilo que ele é hoje, após a ressurreição; pois, como explicou João em sua primeira carta, “já somos o que ele foi (quando esteve na terra), mas, pela ressurreição, também seremos o que ele já é (agora, no céu).

O fato é que não fomos eleitos por Deus em Cristo para experimentarmos uma “adoção de filhos” no tempo passado, “quando cremos em Cristo”; mas, ao contrário disso, o sentido realmente usado por Paulo é que fomos eleitos em Cristo para experimentarmos uma “adoção de filhos” no futuro, quando ressuscitarmos dentre os mortos.

A predestinação realmente bíblica tem a ver com o nosso futuro destino por estarmos em Cristo, e não com a ideia de que eu recebi a Cristo porque esse era o meu destino. As pessoas estão invertendo essa ordem e colocando o carro na frente dos bois, simplesmente porque não compreenderam a teologia de Paulo ao falar sobre a futura redenção do nosso corpo, aquilo que ele chama de “adoção de filhos”.