Cada Homem Escolhe Seu Destino
Irineu, Contra as Heresias IV.39.4
E Deus que conhece todas as coisas antecipadamente preparou para uns e outros morada conveniente: aos que PROCURAM A LUZ DA INCORRUPTIBILIDADE e tendem a ela, dá com bondade a luz QUE DESEJAM; aos que A DESPREZAM E SE AFASTAM FUGINDO dela, que de certa maneira cegam-se a si mesmos, preparou obscuridade, como convém, e aos que SE SUBTRAEM à submissão a Deus, castigo apropriado. A submissão a Deus é o descanso eterno e OS QUE FOGEM DA LUZ terão lugar digno DA SUA FUGA e os que fogem do descanso eterno terão morada apropriada À SUA FUGA. Todos os bens se encontram em Deus E OS QUE FOGEM DE DEUS por sua própria vontade privam-se de todos os bens e, privados de todos os bens que se encontram em Deus, justamente cairão sob o justo juízo de Deus. Os que fogem ao descanso é justo que vivam na pena e os que fogem da luz é justo que vivam nas trevas. É como acontece com esta luz temporal: os que fogem dela são para si mesmos a causa de serem privados dela e morarem nas trevas e não é a luz a causa de eles estarem nesta morada, como dissemos acima. A mesma coisa se dá com os que fogem da luz eterna de Deus, que contém todos os bens: POR CULPA PRÓPRIA SÃO PARA SI a causa de morarem nas trevas eternas e de serem privados de todos os bens.
Observe que para Irineu não há qualquer ligação entre as ideias de presciência divina e predestinação de indivíduos por determinação soberana de Deus. Irineu diz que “Deus conhecendo todas as coisas antecipadamente, preparou destinos apropriados para cada um”. Porém, antes que alguém pense que isso tenha qualquer relação com o predestinismo agostiniano, que diz que Deus escolhe previamente uns para o céu e escolhe outros para o inferno, Irineu está simplesmente dizendo que Deus predefiniu os únicos dois destinos possíveis para os seres humanos. Porém, à medida que ele desenvolve seu pensamento no texto, fica cada vez mais claro que Irineu acredita que cada pessoa individualmente decidirá seu próprio destino.
Aos que procuram a luz da incorruptibilidade e tendem a ela, Deus concede com bondade a luz aos que a desejam. Aos que desprezam a luz da incorruptibilidade e se afastam fugindo dela, Deus preparou a escuridão das trevas. Note que Irineu citou a presciência de Deus, e disse que, baseado nela, Deus preparou dois destinos para os homens. Porém, ao mesmo tempo, deixou bastante claro que cada um escolhe para qual dos dois destinos vai. A mensagem de Irineu neste momento envolve o conceito de Luz e Trevas. Deus preparou a luz para os que a bucam e preparou as trevas para os que fogem da luz. Irineu nunca defendeu a ideia de que “Deus preparasse pessoas” para as trevas e “outras pessoas para luz”. Segundo Irineu, a partir de sua presciência, Deus preparou destinos.
Irineu disse: “Quem rejeita a submissão à Deus recebe o castigo apropriado”. Submeter-se a Deus, na passagem acima, é o contrário de fugir da luz que ele concede aos homens. O homem decide sujeitar-se, por vontade própria, ou decide se foge. Irineu afirmou que as bênçãos de Deus estão disponíveis a todos, mas “aqueles que fogem de Deus por sua própria vontade, privam-se dos bens de Deus”. Ninguém é impedido por Deus de usufruir de seus benefícios, as pessoas que fogem dele, privam-se a si mesmas. Note também que Irineu disse que aquele que foge de Deus e se priva dos seus bens, também cairá sob o juízo de Deus, que Irineu chama de justo, porque a própria pessoa escolheu isso para si, quando poderia escolher outra coisa.
Irineu também complementa seu argumento com uma ilustração sobre os benefícios da luz natural, que por alguma razão, também pode ser evitada por alguém que esteja interessado em permanecer dentro de casa no escuro. Então, Irineu diz que “da mesma forma que alguém que decide se privar da luz e ficar no escuro, não pode pôr a culpa na luz por não estar usufruindo de seus benefícios, assim também, se alguém foge da luz eterna de Deus, a própria pessoa, por sua própria escolha, por sua própria culpa, se torna a causa de seu destino na escuridão eterna”.
Em momento algum há espaço para uma teologia debilitante nos argumentos de Irineu. Irineu não se preocupa em avisar que o homem é incapaz de escolher ou decidir sem que Deus primeiro faça alguma coisa por meio de sua “graça convincente”. Do começo ao fim de sua obra, não apenas aqui, mas em momento algum, ele sugere que os homens estão incapacitados de se arrepender ou de crer e de seguir as coisas de Deus.
As teorias pessimistas de Agostinho da suposta incapacidade espiritual humana, não tem vez aqui, não aparecem nos textos de Irineu. No texto acima, Irineu está tratando sobre os únicos dois destinos eternos possíveis, e em momento algum ele se refere a decretos e escolhas arbitrárias da parte de Deus. Em momento algum ele diz que Deus é quem decide para onde cada um vai. Muito pelo contrário, Irineu diz que a vida, a luz e a eternidade, e todos os outros bens celestes, estão à disposição dos homens, e que cada um, por sua própria vontade e escolha, decidirá por si.
Extraído do Livro: “A Heresia Pelagiana” do Livre-Arbítrio
Livro: “A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio”
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