PERGUNTA:

Natan, discordo quando você fala que aparentemente “Falso Profeta” e “Anticristo” são apenas dois títulos bíblicos para uma mesma pessoa. Penso assim porque se você analisar a “escatologia islâmica” eles esperam tanto pelo Mahdi quanto pelo Issa; então, assim, seriam dois e não apenas um.

RESPOSTA:

Bom, primeiramente, o que você precisa entender quanto a isso é que tudo no Islamismo, inclusive a Escatologia, é uma imitação confusa das interpretações cristãs da época de Maomé. Maomé e os seus companheiros até citam alguns nomes de personagens bíblicos que ouviram entre os cristãos na ocasião, mas confundem toda a história e o contexto bíblico nos quais tais personagens aparecem. É uma confusão generalizada. Acredito que não seria necessário dizer isso para um cristão, mas não me incomodo em dizer o óbvio: a única fonte realmente inspirada por Deus e confiável é a Bíblia.

Embora Maomé, e posteriormente alguns dos seus companheiros, tenham interpretado tudo errado, elas apenas se basearam no que já era dito por alguns seguimentos cristãos do século 7 e 8. Você não pode usar textos e interpretações humanas, como o Alcorão, para interpretar a Bíblia. Nem mesmo pensamentos teológicos cristãos deveriam interpretar a Bíblia, pois a Bíblia deve se interpretar a ela mesma.

Com respeito ao Anticristo, ele é chamado por muitos títulos nas Escrituras, mas cada escritor falou a partir de um contexto e perspectiva específicos; não havia uma espécie de “sindicato de escritores da Bíblia” estabelecendo os termos que todos deveriam usar para falar das mesmas coisas. O Anticristo é chamado por muitos nomes na Bíblia: chifre pequeno, iníquo, filho da perdição, Gogue, falso profeta, etc. O que nos impede de ver isso não é o texto bíblico em si, mas a nossa tradição. Durante toda minha vida eu pensei exatamente igual a todo mundo defendendo a suposta “trindade satânica” formada por “Satanás, o Anticristo e o falso profeta”. Conheço todos os textos e todos os argumentos. Mas quanto mais estudo as Escrituras, menos encontro segurança para essa interpretação. Afinal, se todo o Antigo Testamento fala tanto sobre a vinda do Anticristo, porque não existe pelo menos uma banda de versículo no Antigo Testamento falando também de outro homem (além do Anticristo) que seria um “falso profeta” que o próprio Anticristo não será? E se os textos que falam do Anticristo dizem que ele será um líder religioso e militar, inclusive realizador de sinais, pra que então outro homem vai fazer as mesmas coisas que ele já faz? São dois homens que fazem sinais? Ou é simplesmente o mesmo homem chamado por títulos diferentes?

Além disso, a palavra “animal” nos textos proféticos (seja Daniel, seja Apocalipse) é quase unanimemente usada como representação de reinos, nações e não de indivíduos. Por quê iria ser diferente somente em alguns capítulos selecionados de Apocalipse, como o capítulo 19, por exemplo? Quando o mesmo livro de Apocalipse diz que o animal tem “aparência de leopardo, boca de leão e pés de urso” ele está falando sobre uma pessoa ou sobre um reino formado por pelo menos três nações? Se no capítulo 13 a “besta” (animal, bicho, fera) é um reino formado por nações, eu pergunto: em que momento no mesmo livro de Apocalipse deixa de ser isso para virar um homem no capítulo 19? E se “besta” fosse um termo para se referir a um homem, e não a um reino ou aglomerado de nações, por que ao falar sobre alguns detalhes desse animal o capítulo 17 diz que as cabeças do bicho (da besta, da fera) representam 7 reinos? Sempre que em Apocalipse se fala “da besta”, o texto se refere ao mesmo animal com 7 cabeças e 10 chifres (Ap 13, Ap 17, Ap 19, etc.).

É exatamente por causa dessa confusão interpretativa que até hoje muita gente diz que “o Anticristo vai morrer e vai ressuscitar”, porque está escrito que “a besta recebeu uma ferida mortal e foi curada”, o que os irmãos não perceberam é que em outro texto explica que a ferida mortal foi apenas em UMA das cabeças; que Apocalipse 17 explica muito bem que representa um dos setes reinos que compõem a besta. Eu sei que é difícil para o ser humano pensar de forma diferente da tradição dos homens, mas acho que quanto mais permitirmos a Bíblia interpretar a Bíblia, com a ajuda do Espírito Santo, é claro, mais segurança nós teremos.