NÃO TENTARÁS O SENHOR TEU DEUS

PERGUNTA:

Natan, eu estava ouvindo sua mensagem sobre “pecadinho e pecadão” e o texto que você falou sobre Tiago 1:12-14 me chamou a atenção. Contudo, não consegui entender muito bem. Até acho que entendo que Deus pode ser tentado, mas não entendi a explicação do versículo 13, especificamente. Pode me ajudar?

REPOSTA:

Eu entendo perfeitamente a dúvida que você tem, pois um dia já passei por isso também. O texto não parecia fazer sentido na minha cabeça, pois, até então, eu não tinha o entendimento do conceito bíblico, e mais amplo, para a expressão usada no versículo. “Tentar a Deus”, para mim, naquela época, não passava daquela ideia de novo convertido que não vai a certo lugar perigoso pois isto seria “tentar a Deus”.

O texto de Tiago diz o seguinte:

Tiago 1.12-14
12 Bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam. 13 Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque DEUS NÃO PODE SER TENTADO pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. 14 Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz.

A questão principal é: o texto está dizendo que é impossível que Deus seja tentado ou que não devemos tentar a Deus? Outra pergunta atrelada a essa seria: “essa tentação relacionada a Deus tem o mesmo sentido da tentação que nós experimentamos quando temos vontade de pecar?”. Alguns textos bíblicos podem responder claramente à primeira pergunta, e, assim, responderem automaticamente, também, a segunda pergunta.

Um dos significados mais básicos da palavra grega (πειρασμóς) para “tentação” é “teste” ou “prova”. Em Mateus 4, quando Jesus é tentado pelo diabo, em certa ocasião, Satanás o coloca no pináculo do templo e lhe dá a sugestão de jogar-se lá de cima com a desculpa de que Deus o protegeria por meio dos seus anjos. Jesus respondeu dizendo que “não tentaria o Senhor, seu Deus”. Em outras palavras, na resposta de Jesus a Satanás ele estava dizendo que poderia até precisar da proteção divina posteriormente e fazer uso dela, como de fato acontece conforme registrado nos Evangelhos, mas ele não iria “testar a Deus” para ver se Deus “cumpriria sua palavra ou não”.

Algumas pessoas se atrapalham com o texto da epístola de Tiago pois quando pensam na palavra “tentação” a identificam apenas com sua própria experiência humana e, por causa disso, pensam que o texto estaria falando que é impossível Deus “ter vontade de pecar” ou “ser seduzido pelo mal”. Todavia, eu não poderia simplesmente concluir que “Deus não pode ser tentado” (no sentido de ser impossível) só porque a única coisa que me vem à cabeça são as tentações que eu experimento; pois assim, erroneamente, eu estaria interpretando a frase com base na realidade do que ela significa para mim na maioria das vezes e não entenderia o seu sentido ao ser aplicada à pessoa de Deus.  Não podemos pensar que o sentido correto do texto de Tiago dê a ideia de uma impossibilidade de Deus ser tentado pois há textos bíblicos suficientes que provam o contrário.

Hebreus 3.7-9
7 Assim, pois, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, 8 não endureçais o vosso coração como foi na provocação, NO DIA DA TENTAÇÃO no deserto, 9 onde os VOSSOS PAIS ME TENTARAM, pondo-me à prova, e viram as minhas obras por quarenta anos.

Veja que o texto de Hebreus diz claramente que os antigos hebreus tentaram a Deus no deserto. Afinal de contas, se fosse impossível tentar a Deus não existiria o mandamento “não tentarás o Senhor teu Deus”, que, na verdade, é uma referência direta ao mesmo acontecimento mencionado no livro de Hebreus, como lemos acima. Deuteronômio 6.16 diz  “Não tentarás ao Senhor, teu Deus, como o tentaste em Massá” . Inclusive a palavra hebraica transliterada em nossas Bíblias por “massá” (מסּה), se traduzida, seria “tentação”. O famoso acontecimento da tentação à Deus, mencionado em Hebreus 3 e Deuteronômio 6, se encontra registrado em mais detalhes no livro de Êxodo. Leia-o logo abaixo:

Êxodo 17.1-7
1 Tendo partido toda a congregação dos filhos de Israel do deserto de Sim, fazendo suas paradas, segundo o mandamento do SENHOR, acamparam-se em Refidim; e não havia ali água para o povo beber. 2 CONTENDEU, pois, o povo com Moisés e disse: Dá-nos água para beber. Respondeu-lhes Moisés: Por que contendeis comigo? POR QUE TENTAIS AO SENHOR? 3 Tendo aí o povo sede de água, MURMUROU contra Moisés e disse: Por que nos fizeste subir do Egito, para nos matares de sede, a nós, a nossos filhos e aos nossos rebanhos? 4 Então, clamou Moisés ao SENHOR: Que farei a este povo? Só lhe resta apedrejar-me. 5 Respondeu o SENHOR a Moisés: Passa adiante do povo e toma contigo alguns dos anciãos de Israel, leva contigo em mão o bordão com que feriste o rio e vai. 6 Eis que estarei ali diante de ti sobre a rocha em Horebe; ferirás a rocha, e dela sairá água, e o povo beberá. Moisés assim o fez na presença dos anciãos de Israel. 7 E chamou o nome daquele lugar MASSÁ e MERIBÁ, POR CAUSA DA CONTENDA dos filhos de Israel e PORQUE TENTARAM AO SENHOR, DIZENDO: Está o SENHOR no meio de nós ou não?

Massa (מסּה) e Meribá (מריבה), são duas transliterações do hebraico para o nosso Português que significam respectivamente “tentação” e “contenda”. Observe os detalhes que o texto acima apresenta:

  1. O povo CONTENDEU contra Moisés (representante de Deus), verso 2;
  2. O povo contendeu DIZENDO… verso 2;
  3. Moisés explica o que eles estavam fazendo ao TEREM AQUELA ATITUDE e FALAREM aquelas coisas sobre Deus: “Contendeis comigo… [e] Tentais ao Senhor” verso 2;
  4. O povo DISSE: “Você e Deus nos trouxeram para cá para nos matar” verso 3;
  5. Em outras palavras, o questionamento deles era: “Por que Deus está fazendo isso conosco?” verso 3;

Desta forma o nome do lugar e do acontecimento, que vão ser citados em diversos lugares da Bíblia, inclusive no texto de Hebreus 3, como vimos, ficou conhecido como “o dia da tentação”. Eles contenderam, murmuraram, e questionaram se Deus estava com eles ou não. Chegaram até a dizer que tinham sido tirados do Egito para serem assassinados no deserto (v. 3).

Poderíamos dizer que “tentar a Deus” é manter uma atitude por meio da qual ficamos testando a Deus e assim fazendo provocações a ele. Assim como os israelitas tentaram a Deus murmurando e dizendo coisas absurdas a respeito dele, da mesma forma, estaríamos tentando a Deus se atribuíssemos a ele a fonte das tentações que experimentamos. Segundo o texto de Êxodo, os israelitas “TENTARAM AO SENHOR, DIZENDO: Está o SENHOR no meio de nós ou não?” (Êxodo 17.7). Observe, “tentaram, dizendo”. Tiago, em sua epístola, parece aconselhar tomando por base o mesmo raciocínio, pois ele recomenda que “ninguém ao ser tentado, DIGA que é Deus que está fazendo aquilo” (Tiago 1.13). E, logo em seguida, ele diz o porquê não se deve dizer isso sobre Deus: “pois não se pode tentar a Deus”. Tentar a Deus é atribuir a ele, de forma consciente, coisas com as quais Deus não tem relação. É mais ou menos como se a pessoa estivesse pondo Deus à prova, provocando-o, irritando-o, testando-o com declarações absurdas.

Vamos dar uma olhadinha no texto de Tiago novamente: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tiago 1.13). Como sabemos, a maioria das versões em Português diz que “Deus não pode ser tentado pelo mal”. Inicialmente, sem falar sobre as questões do texto original desta passagem, e levando em consideração apenas a maioria das versões em Português, poderíamos dizer que o sentido mais coerente com o restante das Escrituras parece ser que o verbo “poder” deva ser interpretado aí no sentido de “dever”. Por exemplo, se eu disser “não podemos chegar atrasados”, isso não significa que seja impossível conseguirmos tal façanha, e sim que “não devemos fazer isso”. Assim, com base apenas nestas considerações, me parece que a melhor interpretação seria que Tiago estava dizendo que “Deus não deve ser tentado”. Parece que o texto de Tiago está simplesmente falando que não deveríamos provocar Deus à ira acusando-o de ser o causador de nossas tentações, pois isso seria tentar a Deus.

Observe como o contexto parece mesmo estar querendo dar essa ideia:

  • Verso 13: Ninguém ao ser tentado, diga que é Deus…
  • Verso 13: Porque Deus não deve ser tentado e ele mesmo a ninguém tenta…
  • Verso 14: Pelo contrário, cada um tentado por suas próprias cobiças…
  • Verso 16: Não se enganem…
  • Verso 17: As coisas que vem de Deus são boas…
  • Verso 19: Vocês sabem destas coisas, por isso, estejam prontos para ouvir, mas tardios para falar e se irar.

Parafraseando e resumindo o contexto acima é como se Tiago estivesse dizendo o seguinte: “Ninguém, ao ser tentado, diga que é Deus fazendo isso com você; porque não devemos tentar ao Senhor nosso Deus, e, além disso, ele mesmo não tenta ninguém. Ao contrário disso, cada um é tentado por suas próprias cobiças e não por Deus. Não se enganem com esta ideia de que Deus “envia a tentação”, pois as coisas que vem de Deus são boas. Vocês sabem destas coisas meus queridos, e é por terem conhecimento disso, que vocês devem ter cautela em relação às coisas que vocês falam. Se for preciso, ouçam mais e falem menos. Quanto mais vocês acusam Deus de ser o responsável pelas tentações de vocês, mais irados vocês ficarão. E este tipo de ira carnal não ajudará em nada para que Deus se mova em vosso favor. Abandonem este sentimento impuro e todo este mal acumulado em vossos corações. Sejam mansos e acolham a palavra, pois ela mudará seus sentimentos e suas vidas.”