Nas últimas semanas algumas pessoas de cidades diferentes e que não se conhecem mutuamente, vieram me abordar, quase de forma orquestrada, para me perguntar sobre o mesmo assunto: Por que a Bíblia faz citações positivas de livros que não são considerados sagrados?

Acredito que um dos exemplos mais populares seja o texto dos versículos 14 e 15 da carta de Judas: Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.”. O problema é que muitos acreditam que Judas estaria citando um livro de conteúdo bem duvidoso conhecido como “o livro de Enoque”. Dependendo da versão do tal “Livro de Enoque” que se tenha em mãos o texto semelhante ao citado da carta de Judas se encontrará no versículo 6 do capítulo 1: “Em verdade! Ele virá com milhares de Santos, para exercer o julgamento sobre o mundo inteiro e aniquilar todos os malfeitores, reprimir toda carne pelas más ações tão iniquamente perpetradas e pelas palavras arrogantes que os pecadores insolentemente proferiram contra Ele” ou pode ainda estar no capítulo 1; verso 9, como neste caso: “E veja! Ele vem com dez mil Santos, para realizar julgamento sobre eles, e destruir os ímpios, e contender com toda a carne concernente a tudo que os pecadores e os ímpios fizeram e laboraram contra Ele”.

Devido à semelhança entre os textos muitos tem tido a tendência de acreditar que o livro de Enoque esteja realmente sendo citado por Judas como se este o considerasse uma fonte confiável. No entanto, é provável que Judas sequer tenha tido a oportunidade de chegar a conhecer o tal livro. Com isto não estou aqui querendo dizer que um cristão autentico como Judas jamais citaria um livro considerado secular ou “profano”. Até porque temos alguns exemplos exatamente assim nas Escrituras Sagradas. Temos conhecimento de que Paulo chegou a citar pelo menos três personalidades não cristãs bem conhecidas de sua época. Em Atos 17.28, referindo-se à Deus, Paulo disse que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração”. Dizem os conhecedores do assunto que a frase “nele vivemos, nos movemos e existimos” é na verdade uma citação da obra “Cretica”, do poeta Epimênides (600 a.C.) e a parte que diz “dele também somos geração” aparece nas obras de dois outros escritores: Cleanto, filósofo estóico grego (3331 a 223 a.C.) e Arato, poeta de uma cidade da Cilícia, que vivera aproximadamente no 300 a.C. O texto de Cleanto aparece no poema “Hino a Zeus” e no caso de Arato em seu poema didático chamado “Fenômenos”. Além destes dois casos temos ainda o texto de 1 Coríntios 15.33 onde Paulo diz que “as más conversações corrompem os bons costumes”; citação extraída da comédia grega de Menandro, da obra “Thais” e em Tito 1.12 Paulo disse: “Foi mesmo, dentre eles, SEU PRÓPRIO PROFETA, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos. Tal testemunho é exato. Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sadios na fé”. Nesta passagem de Tito, além de citar novamente Epimênides, que era um poeta pagão, conhecido por suas predições e sabedoria, Paulo ainda o chama de “profeta”. Se você gostaria de saber um pouco mais sobre este tal profeta cretense, veja o seguinte link: https://goo.gl/Xycdhu. O Fato de Paulo tê-los citado não transforma tais livros em “canônicos”, tanto quanto não desqualifica os livros de Paulo por conter tais citações. Não é porque Paulo citou algo verdadeiro da obra de um não cristão que isto faria de Paulo um mentiroso. Muito pelo contrário! Evidencia o quanto Paulo era sensível e humilde o suficiente para reconhecer a graça de Deus manifesta no mundo procurando alcançar a vida de todos os homens. Até porque, não é preciso colar papéis com versículos da Bíblia em pétalas de rosas para que somente assim estas reflitam a beleza divina, não é verdade? Em outras palavras, para quem não entendeu: Deus não faz acepção de pessoas e todos são abençoados por ele com o sol, a chuva e muitas outras bênçãos incontáveis, e embora isso não traga a salvação ao espírito humano de tais homens, suas descobertas e percepções sobre Deus não são obrigatoriamente desprezíveis.

Como eu dizia, não vejo problema em que citações a livros ou pensamentos de professores, sábios e eruditos pagãos sejam feitas por cristãos autênticos, porém, em relação ao texto de Judas especificamente, penso que o caso não seja esse.

Primeiro, ainda que alguns digam que o “Livro de Enoque” possa ter sido escrito por volta do ano 200 a.C. alguns indícios parecem apontar para uma data mais recente. Algumas expressões usadas no Livro de Enoque jamais teriam sido utilizadas da forma que lá se encontram antes da era cristã por se tratar de uma revelação que, historicamente, só fora introduzida por Cristo quando ele esteve atuante em seu ministério terreno. O livro utiliza a expressão “Filho do Homem” no mesmo sentido que Jesus utilizava: tanto para se referir à sua pessoa, quanto ao seu caráter messiânico. O Concise Bible Dictionary afirma que “o fato de o livro apresentar a ideia do ‘Messias de Israel como Filho de Deus’, pode ser considerado como uma prova conclusiva de que ele tenha sido escrito somente na era cristã e não antes disso”. Isto significa que em vez de Judas ter citado o tal do livro, seria muito mais provável que o livro estivesse se inspirando num misto de tradições judaicas e textos cristãos para fazer as citações que fez sobre os acontecimentos relacionados à vida de Enoque. Em outras palavras, é possível que o autor tenha achado interessante utilizar ideias correntes do seu tempo e tenha buscado “inspiração” em algumas das coisas que já eram ensinadas pelos cristãos.

Observe que quando Judas menciona a profecia de Enoque, ele não menciona um livro que Enoque supostamente tivesse deixado escrito; ele diz apenas que “Enoque profetizou dizendo”. Sabemos que existiam aqueles que eram chamados de “profetas literários”, e também que alguns profetas tiveram suas profecias registradas em livros por outras pessoas, e sabemos também que muitos profetas hebreus jamais tiveram suas profecias passadas para o papel e que muitas das histórias e mensagens dos profetas foram conservadas na cultura judaica sendo passadas de geração a geração oralmente. Este pode muito bem ter sido o caso da profecia de Enoque mencionada por Judas. Não seria Judas citando um livro de caráter duvidoso procurando nele uma profecia verdadeira, e sim o contrário: um livro de caráter duvidoso que inseriu nele profecias verdadeiras para tentar fazer com que o livro soasse verossímel e relativamente confiável. O livro na verdade é uma espécie de colcha de retalhos com relatos que procuram imitar a narrativa bíblica, compilados por alguém que tinha versatilidade suficiente para juntar contos, superstições e verdades populares conhecidas do povo hebreu. Tudo parece indicar que o astuto autor tenha se valido de crenças reconhecidamente judaicas e cristãs para validar sua proposta. Num exemplo não tão grosseiro é como se fosse uma “obra estilo Dan Brown” produzida com o intuito de unir a possibilidade com a realidade e assim fazer a ficção se popularizar misturada à verdades e fatos notoriamente reconhecidos.

Antes de encerrar preciso falar mais uma coisinha sobre verdades cristãs contidas naquilo que pode ser chamado de “tradição oral”. Lembre-se que João disse que Jesus fez tantas coisas que nem no mundo todo caberiam os livros que poderiam ser escritos a respeito, de fato a expressão usada por ele é: “MUITAS COISAS HÁ” que “SE FOSSEM ESCRITAS UMA POR UMA” nem no mundo inteiro caberiam os livros que se escrevessem (João 21.25). Agora, não pense que porque não foram escritas uma por uma, que eles não tenham conversado, contado ou falado a respeito de muitas delas durantes os seus dias. De fato, temos exemplos em textos bíblicos que nos ajudam a ter uma ideia de como uma verdade passava de boca em boca perdurando por muitas gerações. Observe que em Atos 20.35, por exemplo, Paulo diz que “é necessário socorrer os necessitados e recordar as palavras do PRÓPRIO SENHOR JESUS: MAIS BEM-AVENTURADO É DAR QUE RECEBER”. Ora, em qual Evangelho está mesmo isso escrito? Em lugar nenhum! Mas não é porque isso não foi escrito nos Evangelhos que vai deixar de ser verdade não é mesmo? Jesus não escreveu nenhum livro e quem escreveu livros sobre as coisas que ele fez ou disse não incluiu essa frase. Obviamente que a declaração feita por Paulo era verdadeira e certamente também muitas outras coisas eram passadas de uns aos outros através das histórias que eram contadas entre os irmãos.

Um outro exemplo se encontra em 1 Coríntios 9.14 quando Paulo afirma que Jesus deu a ordem de que os que “pregam o Evangelho devem viver do Evangelho”. Claro que o princípio da “parceira no tocante ao dar e receber” está presente por toda a Bíblia, e até poderemos chegar a essa mesma conclusão através de alguns textos do Evangelho onde Jesus ensinou sobre questões relacionas ao sustento ministerial daqueles que nos abençoam espiritualmente; porém, não vamos encontrar aquelas palavras escritas exatamente dessa forma em lugar nenhum!

Isso nos mostra que os próprios cristãos não apenas davam crédito às verdades que eram passadas oralmente entre os irmãos, como também preservavam a lembrança das coisas que Deus tinha feito chegar até eles. Passagens como as citadas acima nos mostram que a tradição oral estava permeada de verdades vividas e preservadas tanto na cultura e história do povo judeu como depois também pelo cristianismo.

Assim também Judas (como alguns outros autores bíblicos) citam verdades amplamente conhecidas pelos judeus ao longo da sua história de relacionamento com Deus desde a criação do mundo; e nem todas as citações que aparecem nas Escrituras serão necessariamente encontradas em outros livros da própria Bíblia. O fato é que depois que um acontecimento ou história se torna de domínio público aquilo ganha diferentes proporções no imaginário popular e não se pode ter certeza quanto ao que haverá de surgir em meio às considerações e perspectivas de um número incontável de personalidades e intenções no meio do povo. Foi assim que com muita criatividade alguns religiosos astutos e intelectuais dos primeiros decênios do cristianismo se sentiram motivados a escrever “cartas de Paulo” ou “evangelhos de Pedro” com o simples objetivo de exercer influência sobre um determinado grupo de pessoas se passando por alguém que supostamente outros ouviriam. Noutras situações usavam o nome de algum patriarca ou profeta ou apóstolo famoso para tentar validar a crença espiritualista de uma seita ou certo grupo em particular. Uma verdadeira guerra de ideias e palavras, com muita imaginação e falta de escrúpulos. E para exercer uma maior influência é preciso que o texto produzido contenha elementos verdadeiros com os quais as pessoas estejam familiarizadas e que faça alusão a tradições largamente conhecidas para que assim o povo, que a ele terá acesso, fique, pelo menos, na dúvida se aquele livro é ou não verdadeiro. Sem falar, obviamente, daqueles que realmente tinham suas experiências espirituais e eram sinceros em suas convicções de fé e assim se enveredavam por caminhos obscuros de magia e gnosticismo tentando juntar o judaísmo, o cristianismo e outras filosofias numa coisa só.

Eu penso que é possível que o autor do Livro de Enoque tenha feito uso de algumas partes da tradição oral judaica, mais algumas coisas extraídas do cristianismo e uma boa dose de ocultismo mascarada por trás de “revelação profética” ao longo de todo o livro. Ainda não o li completamente, mas já devo ter lido alternadamente um pouco mais da metade dos seus 108 capítulos.

Em minha opinião, o livro de Enoque é como uma apropriação indevida de ideias que não são do autor. Eu não descartaria a possibilidade de que o homem tenha tido alguma experiência metafísica ou emocional com alguma entidade espiritual que o tenha feito acreditar nas ideias que posteriormente foram escritas. Afinal, quantas pessoas tem tido experiências reais com coisas imaginárias? Tantas! O fato é que por ele ter citado algumas verdades presentes na cultura judaica ou no cristianismo não colocam seu texto em pé de igualdade com as Escrituras Sagradas.

Acho muito improvável que Judas tenha feito qualquer citação deste livro que se propôs a falar sobre “Enoque”; parece-me muito mais provável que o tal livro é que estivesse tentando usar linguagem semelhante à dos escritores cristãos com o objetivo de alcançar também aquele público.