Tentação, Pecado, Sofrimento e Recuperação

AS PRIMEIRAS COISAS PRIMEIRO

Se você chegasse na cidade de um amigo e o ligasse dizendo que gostaria de encontrar-se com ele, é provável que a primeira coisa que ele te perguntasse seria: onde você está? Afinal, como ele poderia te dar orientações que te ajudassem a sair de onde você estava para chegar até ele, se ele não soubesse precisamente o lugar onde você se encontrava? É por isso que não adianta tentar chegar a algum lugar se não sabemos onde estamos e não conhecemos o caminho. Não dá para avançar se primeiro não soubermos onde nos encontramos.

Assim também, com respeito a algumas questões da Bíblia, precisamos nos certificar de que entendemos alguns pontos fundamentais, que servirão de ponto de partida, para que, assim, possamos avançar nos próximos passos da nossa caminhada cristã com segurança.

DEUS NÃO TENTA NINGUÉM

Este primeiro ponto que pretendo falar é um ponto básico, primário, no que diz respeito ao contexto de tentações. Sei que pode parecer muito elementar, mas todo cristão, quando começa sua caminhada, precisa entender que as tentações que virá a enfrentar não serão jamais trazidas ou promovidas por Deus.

Tiago 1:13,14
13 NINGUÉM, ao ser tentado, DIGA: SOU TENTADO POR DEUS; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ELE MESMO A NINGUÉM TENTA. 14 Ao contrário, CADA UM É TENTADO pela sua própria cobiça, QUANDO ESTA o atrai e seduz.

Considerando o texto acima precisamos aceitar que a despeito das tentações que venhamos a experimentar nessa vida, jamais podemos pensar ou dizer que é Deus que está fazendo isso conosco, pois as Escrituras declaram de forma bem positiva que: DEUS NÃO TENTA NINGUÉM. De fato, o versículo em questão está explicando que se dissermos isso sobre Deus, nós é que o estaremos tentando!

Tiago explica que “AO SER TENTADO, o crente, NÃO DEVE DIZER: DEUS ESTÁ ME TENTANDO”, PORQUE “Deus não pode (não deve) ser tentado pelo mal”. Alguns cristãos pensam que a expressão “Deus não pode ser tentado pelo mal” significa que “é impossível que Deus seja tentado de alguma forma”, mas o que Tiago está dizendo ali é que Deus NÃO DEVE ser tentado e não que “não seja possível Deus ser tentado”. A palavra tentação tem também o sentido de teste ou prova, e, claro, quando as Escrituras ensinam que é possível que Deus seja tentado, o sentido não é o mesmo quando a palavra aparece, na maioria dos contextos, associada à tentação humana.

Quando Tiago diz que Deus “não pode ser tentado”, o seu objetivo é deixar claro que Deus “não deve ser tentado” e não como alguns estão interpretando a passagem em questão. Afinal, se fosse mesmo impossível tentar a Deus, não encontraríamos textos que dizem “não tentarás o senhor teu Deus”. O autor de Hebreus, por exemplo, relatou o momento histórico mais popular na cultura judaica quando os homens tentaram a Deus: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração como FOI NA PROVOCAÇÃO, NO DIA DA TENTAÇÃO no deserto, onde os VOSSOS PAIS ME TENTARAM, PONDO-ME À PROVA, e viram as minhas obras por quarenta anos” (Hebreus 3.7-9). O texto está dizendo que os homens TENTARAM A DEUS colocando-o à prova, mesmo tendo conhecimento de quais eram as obras de Deus. O texto de Hebreus está fazendo referência ao acontecimento registrado em Êxodo onde os israelitas “TENTARAM ao Senhor, DIZENDO: o Senhor está no meio de nós ou não?” (Êxodo 17.1-7).

Tiago, em sua epístola, está ensinando aos crentes que, quando passarem por alguma tentação, não digam que é Deus fazendo isso com eles, pois DIZER ISSO DE DEUS, seria tentar a Deus com o mal. Da mesma forma os Israelitas tentaram a Deus dizendo “Deus está com a gente ou não?” Provocar a Deus, testando-o, dizendo que ele está fazendo coisas ruins com você, é tentar a Deus. De forma simples e direta: Dizer que Deus está me tentando, é tentar a Deus! Tiago está, resumidamente, tentando explicar que, atribuir a Deus aquilo que ele não faria, ou duvidar do seu caráter e natureza, é uma forma de tentar a Deus e provocá-lo à ira.

Um dos problemas para a interpretação da passagem em questão é que as pessoas entram em curto-circuito intelectual quando se deparam com este texto de Tiago, pois, numa mesma declaração, ele fala sobre “o homem ser tentado” e sobre “Deus ser tentado”; e isso acaba confundindo com a cabeça de qualquer um.

Todavia, a conclusão de Tiago é impossível de não ser compreendida: DEUS NÃO TENTA NINGUÉM!

O CRENTE É TENTADO

Tendo compreendido o ponto teológico fundamental de que nossas tentações não vêm de Deus, pois Deus não tenta a ninguém, podemos avançar um pouco mais.

Saber que não é Deus que nos tenta, não quer dizer que não sejamos tentados. Por isso, outro ponto importante a ser considerado é que Tiago diz que “CADA UM É TENTADO pela sua PRÓPRIA COBIÇA, quando esta o atrai e seduz”.

Em outras palavras: o crente É tentado! A expressão no presente do indicativo traz a ideia de uma situação atual, presente. Ele não disse que o crente, em sua vida passada, “um dia foi” tentado; ou, que, dependendo do dia ou das circunstâncias, ele até “pode vir a ser” tentado. Tiago disse muito claramente que “cada um É tentado”. Por isso ele usou a expressão “ao ser tentado” e não “se for tentado”. Nós somos tentados!

Podemos nos esforçar em Deus para tentar viver uma vida sem pecado, mas é impossível viver uma vida sem tentação. Obviamente que ser tentado não é pecado, ainda que, tecnicamente falando, o pecado seja aquilo que vem depois de cedermos à tentação. Porém, o simples fato de experimentar a tentação não se constitui, por si só, em pecado. Jesus foi tentado em todas as coisas como nós, porém, sem pecado; isso porque, ser tentado, não é pecado!

NOSSOS PRÓPRIOS DESEJOS

Outro ponto importante no texto de Tiago é que ele diz que “cada um de nós é tentado pela SUA PRÓPRIA CONCUPISCÊNCIA”. Não pela cobiça ou desejo do nosso melhor amigo, não pela cobiça do nosso cônjuge, mas pela NOSSA PRÓPRIA. Cada cristão, mesmo nascido de novo em seu espírito, ainda tem uma natureza terrena, animal, em seu corpo, com cobiças atreladas a ela. Além disso, nossas emoções foram condicionadas ao longo dos anos a servir estas inclinações da nossa carne, que é o nosso corpo. Como temos vidas diferentes, histórias diferentes, cada um de nós luta contra as cobiças que nos são próprias. Você não luta contra as minhas cobiças e eu não luto contra as suas, pois, como disse Tiago, cada um luta contra as SUAS PRÓPRIAS concupiscências.

TODA TENTAÇÃO É HUMANA

Finalmente, a despeito do grau de dificuldade que enfrentemos ao resistir nossas tentações, que, por sua vez, são potencializadas pelos nossos próprios desejos, nunca devemos pensar que elas sejam uma coisa “sobre-humana” ou “sobrenatural” ou “fora do comum”. Mesmo que os demônios participem direta ou indiretamente no contexto das tentações, não podemos desconsiderar o ensino claro das Escrituras que dizem que não existe tentação que não seja humana. O que também está em linha com o texto de Tiago que diz que somos tentados pelas nossas próprias concupiscências.

1Coríntios 10:13
Não vos sobreveio TENTAÇÃO QUE NÃO FOSSE HUMANA; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das VOSSAS FORÇAS; PELO CONTRÁRIO, juntamente com a tentação, VOS PROVERÁ LIVRAMENTO, de sorte que a POSSAIS SUPORTAR.

Sei que é ridículo eu ter que falar isso, mas existe gente que acredita que Deus é quem controla inclusive a tentação na vida do crente. Veja, o texto não está dizendo que DEUS ENVIA A TENTAÇÃO e, “juntamente com a tentação”, ele provê o livramento. O texto está simplesmente dizendo que A DESPEITO da tentação (que é sempre humana e não divina) Deus provê, para cada tentação, um livramento. É sempre bom saber que a cada nova tentação sempre existe um livramento que já está disponível. Veja, porém, que, o livramento provido por Deus, é a “capacidade para poder suportar” a tentação e não a ausência do desejo de ceder à tentação. É exatamente por isso que sofremos quando somos tentados, pois estamos querendo fazer o que não devemos, e, nessa luta, sofremos ao resistir os desejos da nossa própria carne. Por outro lado, Paulo afirma que não seremos tentados além das NOSSAS FORÇAS. O que me parece muito justo, pois se estamos lidando com as NOSSAS PRÓPRIAS CONCUPISCÊNCIAS, nada mais coerente do que a Bíblia mencionar a importância das NOSSAS FORÇAS para vencermos NOSSOS DESEJOS.

O SOFRIMENTO E O AMADURECIMENTO QUE ELE TRAZ

Há pelo menos três tipos de sofrimentos bíblicos, que, como cristãos, podemos esperar em nossa vida:

  • Sofrer a perda de alguma coisa renunciada por amor ao Evangelho. Como Paulo, que sofreu a perda de sua posição social e cultural em troca da sublimidade do conhecimento de Cristo;
  • Sofrer perseguição; pois, “todos que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus sofrerão perseguição”;
  • E sofrer a tentação.

Tiago 1.12
Bem-aventurado o varão que SOFRE A TENTAÇÃO; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.

A versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida diz “Bem-aventurado o homem que SUPORTA, com perseverança, a PROVAÇÃO”. A palavra que, neste versículo, nesta versão, é traduzida por “provação”, é, na verdade, a mesma palavra que aparece nos versículos seguintes e é traduzia por “tentação”. A única diferença é que uma está na forma nominal e a outra na forma verbal, assim como “amor” e “amar”, mas o significado é exatamente o mesmo e o próprio contexto mostra isso. De fato, Tiago está falando sobre a bem-aventurança de “suportar” ou “sofrer” a tentação. É preciso que entendamos que ao ceder à tentação a pessoa tem prazer, mas ao resistir à tentação, a pessoa irá sofrer. Por isso Tiago diz “bem-aventurado aquele que sofre” ou “aquele que suporta” a tentação, diferentemente daquele que cede à ela.

Em Hebreus 2.18 está escrito que “Jesus mesmo sofreu ao ser tentado”. Hebreus 5.8 diz que “Jesus aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” e Hebreus 2.10 também diz que “Jesus foi aperfeiçoado por meio de sofrimentos”. O sofrimento, nesse contexto, pode não ser uma das coisas que mais desejamos nessa vida, mas parece haver um lado bem positivo do qual podemos tirar proveito.