Diz o Ignorante: A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio
Contra as Heresias IV.37.4
Não há dúvida de que se alguém não quiser seguir o Evangelho, está em seu poder rejeitá-lo, ainda que isso não fosse conveniente. Pois está no poder do homem desobedecer a Deus, e renunciar ao que é bom, mas tal conduta traz não pequeno dano e prejuízo. Se não estivesse em nosso poder fazer ou não fazer essas coisas, que razão teve o apóstolo, e muito mais o próprio Senhor, em nos aconselhar a fazer algumas coisas e a nos abstermos de outras? Mas porque o homem é possuidor de livre-arbítrio desde o princípio, tal qual Deus é possuidor de livre-arbítrio, em cuja semelhança o homem foi criado, sempre lhe é dado conselho para se apegar ao que é bom, o que é feito por meio da obediência a Deus.
Alguns agostinianos insistem em dizer que não está no poder do homem a capacidade de receber ou rejeitar o Evangelho. Alguns deles dizem que o homem é tão depravado e corrompido, que seria preciso Deus tomar a iniciativa de acordar e libertar o homem de seu casulo mortal, para que somente assim, o homem possa começar a pensar se quer ou não quer buscar a Deus. No entanto, isso nunca foi defendido pela Igreja Primitiva. Os primeiros cristãos que começaram a dizer isso foram os gnósticos, razão pela qual, passaram a ser combatidos por pessoas como Irineu, que estamos estudando agora.
Irineu afirmou: “Não há dúvida de que se alguém não quiser seguir o Evangelho está em seu poder rejeitá-lo”. Que fique claro que Irineu não está insinuando que o homem “só tem poder para fazer o que não presta”, ou que “o homem só é capaz de rejeitar o Evangelho, mas não de aceitá-lo”. A intenção de Irineu com a frase acima é a de afirmar que “o homem é capaz de aceitar ou de rejeitar o Evangelho por meio do poder que lhe foi conferido por ter sido feito como é”. Diferentemente das ideias dos agostinianos, a teologia cristã primitiva que Irineu defendia afirmava que “Está em nosso poder fazer ou não fazer as coisas porque o homem é possuidor de livre-arbítrio”. Esta era a defesa doutrinária de Irineu: Por meio do livre-arbítrio o homem aceita ou rejeita o Evangelho, sem qualquer necessidade de outro poder extraordinário que faça o homem mais capaz do que ele já é.
Para Irineu, o homem pode rejeitar o Evangelho, mesmo que não seja a escolha mais sábia. No entanto, Irineu ensinava claramente, como se pode ver, que está no poder do homem escolher abraçar o Evangelho ou escolher rejeitá-lo. Para Irineu, “Está no poder do homem desobedecer a Deus e renunciar ao que é bom”, mesmo que isso lhe traga danos e prejuízos como consequência. Oferecendo seus argumentos contra a teologia gnóstica, Irineu afirma o seguinte: “Se não estivesse em nosso poder fazer ou não fazer as coisas, não teria sentido que os apóstolos e o Senhor Jesus nos aconselhassem quanto ao que fazer e o que não fazer”. É uma argumentação simples, convincente e irrefutável. Porém, pessoas obscurecidas de entendimento são tendenciosas a rejeitarem o óbvio.
Por qual razão Irineu acreditava que as Escrituras sempre oferecem conselhos ao homem para se apegar ao que é bom, através da obediência à Deus? Deixemos que ele mesmo responda:
“Porque o homem é possuidor de livre-arbítrio desde o princípio, tal qual Deus é possuidor de livre-arbítrio, em cuja semelhança o homem foi criado”
A frase acima, deixada por Irineu na passagem que estamos vendo agora, reflete a essência de toda a teologia cristã primitiva. Foi isso que a Igreja Cristã sempre defendeu no enfretamento com as seitas gnósticas: “Todos os homens são iguais, feitos à imagem e semelhança de Deus, e por isso, são possuidores de livre-arbítrio, assim como também Deus é possuidor de livre-arbítrio”. Talvez esta seja uma boa razão para perguntar ao seu professor de internet predileto se ele já sabia que “Irineu era pelagiano”. Dada a ignorância generalizada do povo quanto ao assunto, vale à pena lembrar que o livro de Irineu Contra as Heresias é do fim do século II, enquanto a condenação de Pelágio é datada do início do século V , quase dois séculos e meio depois. Se a defesa do livre-arbítrio é uma “heresia pelagiana” como dizem alguns, então, Irineu, discípulo de Policarpo, também era pelagiano?
Extraído do Livro: “A Heresia Pelagiana do Livre-Arbítrio”
Hoje em dia, por mais incrível que pareça, a ideia do livre-arbítrio é considerada, em alguns círculos cristãos, quase…
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